A volta do dragão inflacionário

Nos últimos meses, as famílias brasileiras têm convivido com um fantasma que, imaginava-se, já fazia parte do passado: o espectro da inflação.

A taxa de inflação acumulada em 12 meses, medida pela variação do IPCA, o indicador oficial de inflação no Brasil, foi de 10,2% em setembro, quebrando a barreira dos dois dígitos. Há um ano, esta taxa estava em 3,1%.

Um processo inflacionário é definido como uma situação em que há aumentos persistentes e generalizados do índice de preços.

Quando o índice de inflação aumenta de forma repentina costumamos procurar quem foi o vilão do mês e, então, falamos da ‘inflação da carne’, ‘inflação do tomate’, ‘inflação do chuchu’, etc.

Esses casos de aumentos isolados de preços não chegam a configurar um processo inflacionário, como definido acima, porque eles, em geral, nem são persistentes e nem generalizados.

Não ser persistente quer dizer que os aumentos de preços ocorrem por algum período e se dissipam rapidamente, com os preços retornando ao seu comportamento habitual.

Não ser generalizado significa que os aumentos de preços estão concentrados em poucos produtos e serviços do índice total.

O que estamos vivenciando no momento, por contraste, pode ser visto como um processo inflacionário, tanto por conta de sua persistência quanto por conta dos vários preços de bens e serviços que têm sofrido majorações de preços.

Um indicador de quão generalizado estão os aumentos de preços na economia brasileira é o índice de difusão, que computa a parcela dos subitens de um índice de preços que apresentam variação positiva em um mês.

No mês de setembro, 65% dos 377 subitens do IPCA registraram variação positiva, índice um pouco menor que no mês anterior (72%). Nos 12 meses entre outubro de 2020 e setembro de 2021, a média dos índices de difusão do IPCA foi de 66%, enquanto que nos doze meses anteriores, de outubro de 2019 a setembro de 2020, este índice estava em 55%.

E o que tem causado tal processo de aumento de preços? Há vários fatores, tais como, o clima seco com falta de chuvas e temperaturas elevadas (causando uma crise energética), o comportamento do dólar, os preços internacionais de commodities (alimentos, minérios, petróleo), a recuperação da atividade econômica, as interrupções nas cadeias de suprimento em função da pandemia, etc.

Alguns desses fatores são domésticos enquanto outros são internacionais. E, de fato, o Brasil não é o único país que tem apresentado problemas com sua inflação. Segundo a última edição (outubro 2021) do World Economic Outlook do FMI, a inflação nos países avançados tem registrado aumentos contínuos ao longo de 2021, passando de 0,18% em dezembro de 2020 para 2,73% em agosto. O mesmo ocorreu com os países emergentes, que registraram taxas de inflação em elevação, de 2,15% em dezembro de 2020 para 4,54% em julho.

A inflação é um imposto altamente regressivo, afetando mais intensamente a população mais pobre. Com isso, ela aumenta a situação de vulnerabilidade econômica e social da população mais carente, com efeitos distributivos perversos.

Taxas de inflação elevadas têm forte impacto negativo sobre a aprovação dos governantes pela população. A última vez que o país havia registrado taxas anuais de inflação de dois dígitos havia sido em fevereiro de 2016 (10,4%) durante a administração Dilma. Este cenário contribuiu para a rápida perda de popularidade da presidenta e seu impeachment meses após.

Um quadro inflacionário exige resposta das autoridades governamentais e, em especial, do Banco Central.

O regime de metas inflacionárias seguido pelo Brasil estabelece como meta central para a taxa de inflação em 2021 o patamar de 3,75%, com intervalo de tolerância entre 2,25% a 5,25%.

O Banco Central iniciou o processo de ajuste da taxa básica de juros Selic desde março, com o intuito de combater o processo inflacionário, mas a batalha para 2021 está perdida. O próprio Banco Central já reconheceu este fato e aumentou sua expectativa de inflação para 8,5% para o IPCA em 2021.

Para 2022, a meta central é de 3,5% com intervalo de tolerância entre 2% e 5%. O Banco Central vai continuar com o processo de aperto monetário em seu esforço para desinflacionar a economia. O aperto monetário tem efeitos negativos sobre a atividade econômica. O processo de recuperação, que ora se observa, vai ser mais lento que o desejado.

A persistência do atual processo inflacionário vai depender, em boa medida, da condução da política monetária pelo Banco Central e o sucesso em manter as expectativas inflacionárias ancoradas (isto é, dentro do intervalo para a meta inflacionária) para 2022. Não vai ser tarefa fácil e terá custos sociais ao longo do caminho.
 

Gente da FEA - outubro de 2021

Autor: Prof. Dr. Márcio Issao Nakane

Data do Conteúdo: 
Terça-feira, 19 Outubro, 2021

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