Valor da Amazônia é tema de live promovida pela EPEP na FEA

João Mello

 

Nos últimos meses, assiste-se a diversas notícias de desmatamento na Amazônia. Diante desse cenário que atrai preocupações globais, a EPEP (Estudos de Política em Pauta) convidou Ariaster Chimeli, economista especializado em meio ambiente e professor da FEA, e Ricardo Galvão, físico, engenheiro e ex-presidente do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), para o evento "Valor da Amazônia: Como o Brasil pode aproveitar seu capital ambiental?". Os palestrantes trataram sobre o valor da região para o país, alternativas de desenvolvimento e problemas envolvidos no desmatamento. 

 

Em Economia, o "capital" se refere a instrumentos capazes de produzir bens e serviços, de gerar bem-estar social. De acordo com o professor Chimeli, há uma ideia bem clara de capital físico e humano, mas o ambiental, em especial o da Amazônia, não costuma ser precificado e é essencial. São vários os fatores que afetam diretamente na sociedade e na economia: seja pela auto-limpeza dos rios ou a importância das abelhas e da determinação do regime pluviométrico brasileiro para a agricultura. "Quando se precifica bens naturais, existe uma subestimação do valor que isso tem para a sociedade."

 

Ricardo Galvão conta que, durante o regime militar, a ocupação da Amazônia – necessária por questões de soberania e defesa nacional – aconteceu por meio de uma mentalidade atrasada, segundo um capitalismo predatório no qual o desenvolvimento econômico "seguiria os cascos dos bois". A ideia era transformar a região em "um faroeste e depois mandar o xerife, mas esse xerife nunca foi mandado". Como consequência, as terras desmatadas são, hoje, de baixa produtividade e não houve investimentos em cadeias produtivas locais e no desenvolvimento social da região. Apenas partiu-se da ideia de que o avanço econômico estaria associado à exploração e destruição da natureza. 

 

"Não existe esse casamento entre desenvolvimento e desmatamento", reflete Ariaster Chimeli. O que se percebeu com estudos a partir de um momento de abertura econômica do Brasil é que há vantagens corporativas e maior lucro na Amazônia em atividades que não desmatam. De forma geral, também se observa que a proteção ambiental não eleva os custos das empresas a ponto de torná-las menos competitivas no mercado. E pela moratória da soja, foi possível identificar que o desenvolvimento da região continuou mesmo com uma diminuição no desmatamento até meses recentes. 

 

Os especialistas defendem que não só é possível, como necessário e mais lucrativo, ter um desenvolvimento sustentável na Amazônia, entretanto é preciso haver vontade política para que isso ocorra. O professor Ariaster ainda cita alguns fatores que influenciam países, em especial aqueles em desenvolvimento, a investirem tão pouco em proteção ambiental. Há restrições orçamentárias, dificuldades no acesso a crédito e ao mercado de seguros por produtores locais, instituições enfraquecidas e a ausência de uma intenção política para proteger o meio ambiente. 

 

Galvão comenta que a relação entre ciência e política sempre existiu. Ele argumenta que se pode discutir funções e prioridades, "mas os resultados da ciência são inegociáveis, o cientista não pode de forma nenhuma recuar". Esse cenário é dificultado, ainda, por conta da proliferação de mentiras nas redes sociais, que o físico enxerga como um ambiente supérfluo e menos propício à divulgação científica devido à sua complexidade e à habilidade de políticos de se utilizarem das redes "de maneira ardilosa". Chimeli complementa que "é mais fácil acreditar em teorias da conspiração do que em ideias científicas": para a ciência, é preciso estar disposto a ser intelectualmente honesto, reconhecer que pode estar errado. 

 

Apesar dessas problemáticas, ainda existem maneiras de promover um desenvolvimento sustentável na Amazônia. Para Ariaster Chimeli, é preciso incentivar a produção limpa por meio de uma reforma tributária e uma política de incentivo a proteção ambiental mais agressiva. Substituiria-se o imposto sobre bens de consumo e sobre o trabalhador (desoneração da folha de pagamentos) por impostos sobre poluição. "O que é importante é dar incentivos para a produção limpa e desincentivos para o desmatamento." O economista defende que se houver maiores custos para o desmatamento, vontade política e monitoramento, há resultados positivos. 

 

O desmatamento ainda influencia em momentos como os atuais. Chimeli relata que muitas pandemias vêm de zoonoses e que se observa um aumento de casos de malária nas fronteiras do desmatamento. "Somos fortes candidatos a ter uma nova pandemia." Ariaster reflete que não se sabe o que vai sair da pandemia: por um lado, houve a diminuição da poluição e, por outro, uma maior exposição a pobreza extrema. Ele espera que a sociedade possa ser capaz de compreender como o ambiente e a economia estão intrinsecamente relacionados e aprender a importância de se preservar a Amazônia neste período de pandemia. 

 

 

 

Data do Conteúdo: 
Terça-feira, 22 Setembro, 2020

Departamento:

Sugira uma notícia