Trump: um governo na contramão da história

Mesmo os analistas mais céticos não conseguiram prever que o novo governo dos Estados Unidos provocaria uma enorme sacudida no planeta. Mal tomou posse, Donald Trump lançou mão de ordens executivas para colocar em prática suas inusitadas promessas de campanha, consideradas um retrocesso por pregarem políticas já ultrapassadas, como o nacionalismo e o protecionismo, além de incentivarem a segregação racial e religiosa.  

Logo de cara, Trump provocou uma crise diplomática com o México, ao impor a construção de um muro na fronteira com o país vizinho e exigir que o governo de Enrique Peña Nieto “rachasse” a conta.  Mais adiante, o magnata provocou novos tremores. Proibiu a entrada de imigrantes muçulmanos originários de países associados ao terrorismo, colocou em risco tratados comerciais assinados por seu antecessor e ameaçou suspender o Obamacare, um programa de subsídios a planos de saúde para pessoas de baixa renda.  
   
As principais polêmicas geradas pelo novo presidente dos EUA foram analisadas por professores da FEA especialmente para esta edição. Para o professor Simão Silber, do departamento de Economia (EAE), muitas dessas medidas não deverão ser implementadas, porque precisam passar pelo teste da constitucionalidade e pelo crivo do Congresso.  Reconhece que os temas da campanha de Trump são controversos, em termos de suas consequências, mas que o aparato institucional americano foi preparado historicamente para evitar mudanças radicais oriundas do executivo. 

Segundo o docente, Trump terá de apresentar a proposta orçamentária de 2018 antes de outubro, quando acontece a votação, e a expectativa é de que haverá um longo debate sobre cortes e aumentos de recursos públicos nos vários segmentos afetados pela política fiscal. Simão Silber prevê ainda uma reação “histriônica” da Casa Branca, “como tem sido até aqui o comportamento de Donald Trump, culpando principalmente a imprensa, a burocracia estatal e eventualmente até a China e o México”.
  
Protecionismo  
Trump prometeu impor altas taxas de importação para produtos oriundos de países como a China e o México, alegando proteger a indústria nacional e preservar o emprego. Para o professor Celso Grisi, do departamento de Administração (EAD), essa é uma medida retrógrada e tem inspiração populista. “É no mínimo estranho que, em um mundo globalizado, viesse dos Estados Unidos uma proposta tão retrógada para as relações comerciais entre blocos, países e empresas. Mais estranho porque são os norte-americanos um dos principais gestores das grandes cadeias globais de valor”. 

Especialista em comércio exterior, Grisi afirma que a agenda de Trump enviada ao Senado é “eivada do mais profundo desrespeito às regras do comércio internacional, às instituições supranacionais, à ordem econômica e à governança mundial”. Para ele, parece mais uma “reedição” ingênua da doutrina mercantilista e das práticas comerciais dos séculos XVII e XVIII. “Explicitamente a agenda dele coloca a soberania nacional à frente da política comercial”. 

Inicialmente, o projeto Trump deve produzir uma desorganização completa das cadeias globais de valor, na avaliação do docente, apesar dele reconhecer que as medidas protecionistas podem trazer uma expansão da oferta de emprego. Outras consequências apontadas por Grisi são de que, sem concorrência internacional, as medidas protecionistas não estimulam os esforços de inovação, pressionam os preços internos, ampliam o desemprego e reduzem o salário real. Além disso, a formação de cartéis, o abuso econômico e as práticas desleais de comércio tendem a se multiplicar.

Obamacare 
Implantado no primeiro mandato do presidente Barack Obama, o Affordable Care Act (ACA) ou Obamacare como é mais conhecido o programa federal que oferece subsídios às famílias mais pobres para a contratação de planos de saúde, pode estar com os dias contados. Se isso acontecer, 20 milhões de americanos devem ficar sem cobertura de plano de saúde. Donald Trump argumenta para suspender o Obamacare que esse sistema gera gastos excessivos para o governo. 

Na opinião da professora Ana Carolina Maia, do departamento de Contabilidade (EAC), estudiosa em sistema de saúde suplementar, a ameaça de Trump não deve se materializar por completo. “Em alguma medida, o ACA não pode ser retrocedido completamente. Diversos avanços foram incorporados também no modo de prestar assistência à saúde, visando à redução de custos. Mesmo que o mercado de seguro seja completamente desregulamentado, os avanços positivos no âmbito da gestão da atenção à saúde já são parte do sistema e dificilmente serão extintos”. 

Ana Carolina explica que dois mecanismos de seguro público atendem a população dos EUA: o primeiro, as famílias de baixa renda (Medicaid) e o segundo, a população idosa (Medicare). O restante da população ou adquire um seguro privado ou fica sem cobertura. Cerca de 45 milhões de pessoas em 2012 não tinham nenhum plano médico. Para ampliar a cobertura da faixa de beneficiados do Medicaid, o ACA propôs a revisão da linha de pobreza para elegibilidade ao programa, e desenhou um amplo conjunto de medidas regulatórias sobre o setor privado, a fim de que mais pessoas fossem incorporadas ao pool de risco. Estimativas indicam que 20 milhões adquiriram cobertura de saúde e, com a ameaça do novo governo, podem perder esse direito.  
   
Acordo de Paris
Donald Trump ameaçou não cumprir a meta dos EUA de redução da emissão de gases do efeito estufa, acordada pelo governo anterior, e aventou a hipótese de ressuscitar o carvão como uma das fontes de energia. De acordo com o professor Jacques Marcovitch (EAD), responsável pela disciplina “Estratégias Empresariais e Mudanças Climáticas”, em caso de ruptura pelo governo americano dos compromissos assinados, a questão pode até ser “judicializada” nos Estados Unidos e nas cortes internacionais.   

Segundo Marcovitch, o Compromisso Nacionalmente Determinado (CND) americano prevê um corte de emissões que totaliza 3 bilhões de toneladas de CO² até 2030. “Isso dá uma ideia do monumental ‘calote’ insinuado pelo então candidato republicano em sua campanha e aparentemente confirmado com a nomeação de um aliado notório dos combustíveis fósseis para a Agência de Proteção Ambiental”.   

À vista desses pesos e contrapesos, o docente acredita que a ONU terá de se posicionar. Por outro lado, Marcovitch ressalta a enorme mobilização da comunidade científica e a grande autonomia dos governos estaduais naquele país, com avançadas leis ambientais próprias sintonizadas com as métricas assumidas na Conferência do Clima.   

Imigrantes 
Das promessas de campanha de Trump que chocaram o mundo, duas particularmente abalaram mais a opinião pública: a construção de um muro na fronteira com o México para barrar a entrada de imigrantes ilegais cujo custo pode chegar a US$ 25 bilhões e a proibição da entrada de muçulmanos oriundos de países com histórico de terrorismo. “Causa espanto que um país formado majoritariamente por imigrantes e seus descendentes tenha elegido um presidente com propostas tão contrárias à imigração”, opina o professor Fernando Botelho (EAE), especialista em Economia Internacional. 

Sobre a construção do muro na fronteira com o México, Botelho acha que não parece razoável culpar os imigrantes latinos pelos problemas sociais dos EUA, como o aumento da desigualdade e do desemprego persistente em certos grupos. “A onda recente de imigração de latinos de baixa e média qualificação parece atender às necessidades de uma economia cada vez mais voltada para os serviços, ou seja, a disponibilidade de trabalhadores com este perfil favorece o dinamismo e a competitividade da economia americana, trazendo benefícios para outros segmentos”. 

Além disso, o economista argumenta que a construção do muro não é o caminho mais eficaz para resolver os problemas de criminalidade, tráfico de drogas ou imigração ilegal. “A ideia de financiar o muro com tarifas sobre produtos mexicanos revela completo desconhecimento de conceitos fundamentais do comércio internacional e organização produtiva do país”, finalizou. 

Gente da FEA - Abril de 2017
Autora: Cacilda Luna

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 27 Março, 2017

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