Trabalho em casa pode gerar estresse e pressão por desempenho

Trabalhar em casa é um sonho que muita gente almeja. O home office, como é chamado no Brasil, já era uma realidade em muitas empresas brasileiras antes da pandemia, principalmente no setor de finanças e consultoria. Muitos profissionais, no entanto, que não estavam acostumados a trabalhar remotamente, de uma semana para outra se viram obrigados a assumir essa nova realidade. Mas, nem sempre essa mudança é vista de forma positiva. Pode causar estresse e afetar a produtividade. “O isolamento social impacta na saúde mental das pessoas confinadas. Os impactos negativos relatados e até documentados vão desde o aumento da violência doméstica até o aumento do consumo de álcool, drogas e medicações ‘permitidas’ para controle da ansiedade, angústia e depressão”, avalia a professora da FEAUSP Ana Cristina Limongi-França, psicóloga e especialista em gestão de pessoas e qualidade de vida no trabalho.

“Não sei dizer se há um aumento da produtividade quando você trabalha no domicílio, mas há uma elevação da pressão por mais desempenho. Se essa pressão se concretiza em mais produtividade, isso é uma coisa que a gente está em busca de avaliar”, reflete o professor Wilson Amorim, economista e presidente da Comissão de Qualidade de Vida da FEAUSP.

Wilson Amorim e seu colega André Fischer, do departamento de Administração da FEA, decidiram “fotografar” esse momento que estamos vivendo. Aproveitaram a pandemia de coronavírus e a quarentena forçada dos trabalhadores para realizar uma pesquisa – virtual, claro – sobre o nível de satisfação das pessoas após a migração do trabalho presencial para o trabalho feito em casa.

Foram ouvidas 1.300 pessoas. “Nosso interesse é saber se as pessoas mantém o mesmo tipo de vínculo com as organizações onde elas estavam; se estão satisfeitas com os equipamentos que receberam; que treinamento tiveram; se o trabalho em casa está interferindo na rotina familiar, nos relacionamentos pessoais; se continuam tendo o mesmo tipo de conexão com suas chefias e colegas de trabalho”, explica Amorim. Os primeiros resultados da pesquisa devem ser divulgados em julho.


Como se manter bem
 

  Ana Cristina Limongi
 

Manter a saúde mental em época de quarentena é “uma desafiadora performance de qualidade de vida”, segundo Ana Cristina Limongi-França. Ela sugeriu dicas para enfrentar esse momento especial na vida do brasileiro. “Tenha uma agenda de avaliação e práticas de sua qualidade de vida dentro e fora do trabalho. Essa agenda pode ser organizada em quatro fatores de impacto: biológicos, psicológicos, sociais e organizacionais”. (detalhes no box)

Limongi também aconselha que se preste atenção nas alterações de humor, alimentação, sono e intolerância. “Elas sinalizam problemas”, alerta a docente. “O corpo reage por meio de manifestações psicossomáticas, como agravamento de gastrites, varizes, peso, sono, dores nas juntas. São radares e pedidos de socorro muito importantes do nosso corpo. Muitas vezes a dor e a doença são condições de vida possível, é um pedido de socorro para se viver melhor não só nas questões do trabalho em si, mas em questões pessoais”.


Sobrecarga de trabalho
 

  Wilson Amorim

Nestes tempos de pandemia a sobrecarga do trabalho virtual ou remoto está presente. 

Segundo o professor Wilson Amorim, a pressão por mais desempenho acaba levando à intensificação do trabalho e, certamente, à extensão da jornada de trabalho. “Temos evidências de que o tempo que a gente dispendia no deslocamento começa a ser engolido, quando se trabalha em casa. Esse tempo não fica totalmente para o lazer e convivência com a família. Ele começa a ser disputado com a tarefa laboral. Isso custa do ponto de vista profissional, psicologicamente, e pode gerar estresse”.


 

 


Professores se adaptarem rapidamente

As escolas e universidades foram as primeiras a aderirem ao isolamento social, por causa do alto risco de contágio. Tanto professores quanto alunos, apesar de estarem bem familiarizados com o ambiente virtual, tiveram que se adaptar rapidamente à nova realidade. “A migração se deu dentro de um cenário de incertezas. A decisão sobre o padrão de trabalho dos professores foi discutida em 10 dias, após a suspensão do trabalho”, lembra o professor Wilson Amorim.

O presidente da Comissão de Qualidade de Vida da FEA reconhece que essa mudança “é fácil de falar, mas difícil de fazer”. Segundo ele, os professores da FEA tiveram que se apropriar do conhecimento tecnológico para ministrar as aulas remotamente de uma forma muito mais rápida do que poderia se imaginar. “À medida que o semestre foi avançando, fomos percebendo que fazer aula a distância para o professor é mais simples que para o aluno acompanhar”.

Apesar das aulas terem sido viabilizadas em tempo hábil e de forma satisfatória, Amorim admite que o processo de aprendizado não está se dando de uma forma ideal. Ao contrário, está se dando sob tensão. “Não podemos exigir foco total do aluno naquilo que está acontecendo, porque ele não está numa sala de aula. Ele está em casa, dividindo espaço com outras pessoas, com outras preocupações, tentando manter esse aspecto da vida dele, do aspecto educacional, de aprendizado, e numa condição mínima de normalidade, quando tudo em volta não está normal”.

Para o segundo semestre, o professor Wilson Amorim afirma que as chefias de departamento, coordenadores de curso e a direção da escola estão trabalhando em sintonia para “ter uma linha de conduta que seja boa, não seja estressante, e que não coloque em risco a saúde mental nem dos professores, nem dos alunos, nem tão pouco dos funcionários. Enfim, o trabalho continua e vai ser pesado nessa direção até o final do ano”.

 

FATORES DE IMPACTO

● Fatores Biológicos: alimentação, atividade física, sono, histórico de doenças. 
● Fatores Psicológicos: o afeto, as emoções, a forma pessoal de viver a vida com sua personalidade, a autoestima, a memória; e, no ambiente de trabalho e de estudo, o desafio intelectual - a curiosidade, a alegria. 
● Fatores Sociais: a observação das coisas da vida e do ambiente em que estamos imersos economicamente, ecologicamente e culturalmente, nossos interesses e nossas rejeições com relação aos outros e, marcantemente, a solidariedade incondicional.
● Fatores Organizacionais ou do Trabalho: o mais importante é avaliar e investir em educação formal e profissional alinhada a um projeto de realização no que se produz e trabalha, avaliando os sinais de prosperidade, riscos e exigências, custos/benefícios de compromissos em diversos tipos de contratos de trabalho.



Autora:Cacilda Luna
Gente da FEA - junho de 2020

Data do Conteúdo: 
Segunda-feira, 15 Junho, 2020

Departamento:

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