Porta-vozes da FEA se posicionam sobre a pandemia nas mídias

Artigos, entrevistas, blogs, podcasts, tweetes. Desde março, quando foi decretado o estado de calamidade pública, professores da FEA vêm repercutindo os impactos da pandemia do novo
coronavírus e sugerindo soluções para o combate à crise. Cada um em sua área de atuação, nossos porta-vozes lançaram mão das mídias para tornar públicas suas contribuições ao enfrentamento daquela que é considerada a maior crise econômica e social dos últimos tempos e que foi capaz de virar o país de cabeça para baixo.

Edição de um “novo Plano Marshall”; efeitos da pandemia sobre as demonstrações financeiras das empresas; elaboração de um modelo matemático para ajudar o governo no
direcionamento de ações de combate à crise; sugestão de taxa Selic zero; técnica que encoraja comportamentos saudáveis na pandemia. Esses foram alguns dos assuntos que os veículos de
comunicação exploraram sob a ótica dos professores da FEA. Abaixo, um resumo do que foi destaque.


Medidas redistributivas e renda básica permanente
Laura Carvalho, professora do departamento de Economia da FEAUSP

    Profa.Laura Carvalho
 

O restabelecimento da economia no pós-coronavírus é uma das grandes preocupações dos economistas brasileiros. Professora do departamento de Economia da FEA, Laura Carvalho defendeu medidas redistributivas e renda básica permanente. Ela acredita que a recuperação da economia após o fim do isolamento deve exigir um “novo Plano Marshall”, em referência ao plano de recuperação dos países europeus após a Segunda Guerra.

Em entrevista à BBC Brasil, publicada em 5 de maio, a docente sugeriu que o investimento público deveria ser usado, no combate à crise, como forma de suprir carências históricas, como na saúde e no saneamento básico. Conforme seu entendimento, esses investimentos deveriam ser financiados através de um aumento da arrecadação. 

“Defendo alíquotas superiores de tributação para os mais ricos, que vão sofrer muito menos o impacto dessa crise, com o fim da desoneração de dividendos e de desonerações para setores
pouco afetados”, citando ainda a tributação de grandes fortunas e o aumento do imposto de renda para os mais afortunados.

Outra medida sugerida por Laura Carvalho é que a renda básica emergencial se torne permanente. “Temos no Brasil uma informalidade recorde, e essa crise tende a agravar isso. Então, temos que pensar na possibilidade de uma rede de proteção social maior, universal e que seja permanente”.
 

Efeitos da pandemia nas demonstrações contábeis
Eduardo Flores, professor do departamento de Contabilidade e Atuária da FEAUSP

Prof. Eduardo Flores
  Prof. Eduardo Flores
 

É indiscutível que a pandemia tem afetado a dinâmica social e a economia. E uma das preocupações dos contabilistas é sobre os efeitos da crise nas demonstrações financeiras, uma espécie de raio-X da saúde financeira de uma empresa. Por meio dos relatórios contábeis é possível realizar a apuração dos impostos, controlar o fluxo de caixa, realizar melhores investimentos e  conseguir gerenciar melhor o negócio.

O professor Eduardo Flores, do departamento de Contabilidade e Atuária da FEA, disse em artigo no Valor Econômico, em 6 de maio, que diante do cenário atípico e da necessária aplicação dos normativos contábeis, será exigido um esforço adicional para compreender as repercussões fiscais diretas e indiretas, desde a PECLD (perdas esperadas com crédito e liquidação duvidosa), como impactos na distribuição do JCP, dividendos, cálculo de créditos PIS/Cofins sobre ativos reduzidos por teste de impairment, cálculo de preços de transferência por custo de produtos afetados por recálculo de arredamentos contabilizados.

O docente ressaltou que “nos cenários de crise, a importância do retrovisor é menor que a do para-brisa”. Segundo ele, a crise econômica da covid-19 será capturada nas demonstrações contábeis em razão de as técnicas de mensuração dos ativos financeiros levar em consideração as expectativas de perdas, em um modelo “forward-looking”.

Eduardo Flores destacou, ainda, que no contexto atual, “é impreterível que os agentes participantes da “cadeia produtiva” da informação contábil (preparadores, auditores, conselhos, reguladores etc) possam equilibrar adequadamente o bom ânimo/otimismo de alguns gestores com o futuro e a triste realidade econômica do presente”.
 

Modelos matemáticos para combater a epidemia
Grupo de pesquisadores da USP (IME, FEA e FSP)

Um grupo de pesquisadores da USP, que reuniu especialistas do IME, FEA e Faculdade de Saúde Pública, criaram um modelo matemático para ajudar autoridades no direcionamento de
ações de combate à epidemia. No dia 12 de maio, diversos órgãos de imprensa, como o jornal O Globo e o portal UOL, noticiaram que pelo cálculo da estimativa, após o Brasil ultrapassar a
marca de 10 mil óbitos, as mortes poderiam dobrar em 20 dias caso não continuassem as medidas de contenção. E a quantidade de infectados poderia alcançar 400 mil até o dia 5 de junho.

Coordenado pelo diretor do Instituto de Matemática e Estatística da USP, Carlos Alberto Bragança Pereira, o grupo se desbruçou sobre os números da pandemia na tentativa de identificar quando o país atingiria o pico de infecções, e a partir de que momento as curvas de casos e óbitos entrariam em declínio, sinalizando um possível afrouxamento das regras de isolamento social.
A USP usou um modelo estatístico com base nos dados da China. Os resultados confirmaram que, no Brasil, o comportamento da covid-19 varia em cada Estado. Em São Paulo, por exemplo, a estimativa era de que o pico ocorreria no final de maio, com cerca de 135 mil a 160 mil casos.
 

Técnica ajuda encorajar comportamentos saudáveis na pandemia 
Kavita Hamza e Andres Veloso, professores do departamento de Administração da FEAUSP

  Prof. Kavita Hamza
 
  Prof. Andres Veloso
 

Lavar as mãos, evitar tocar no rosto, cobrir a boca com o antebraço ao tossir e espirrar, evitar aglomerações. Essas são algumas das medidas recomendadas para proteção e prevenção contra a transmissão da Covid-19. Mas nosso comportamento nem sempre é tão racional como gostaríamos que fosse, e sem perceber tomamos decisões contrárias ao nosso próprio bem-estar. Mudanças aparentemente pequenas no ambiente, no entanto, são capazes de nos ajudar a tomar decisões melhores. Essa é a ideia do “nudge”, uma técnica que descreve intervenções no ambiente que encorajam comportamentos saudáveis sem restringir nossa liberdade de escolha.

Inspirados na técnica do “nudge”, os professores Kavita Hamza e Andres Veloso, em conjunto com o mestrando Bruno Tenan, analisaram em artigo publicado no Jornal da USP, se mudanças no ambiente são capazes de ajudar as pessoas a tomar decisões melhores nessa época de crise. Segundo os docentes, o “nudge” funciona porque nossas decisões e atitudes são fortemente influenciadas pela maneira como determinada situação é apresentada.

Em locais públicos, avisos e placas que orientem as pessoas a lavarem as mãos devem não só estar bem posicionados, mas também ser visualmente claros, com o mínimo de texto e instruções passo a passo. Sinalizações alternativas, como adesivos em pisos e paredes, podem guiar as pessoas até pias, dispensers de álcool gel ou banheiros mais próximos. Marcas no chão podem ajudar a manter uma distância segura em filas e delimitar áreas que devem ser mantidas livre.
 
Kavita Hamza, Andres Veloso e Bruno Tenan, destacaram no artigo que ao compreender melhor o conceito de “nudge” e como ele pode ser usado para modificar o comportamento do consumidor percebe-se que “existem avenidas inexploradas na luta contra a pandemia”.

Adesivos orientam a não ocupar assentos nos trens de Palembang, Indonésia.
 
Adesivos indicam dispenser de álcool gel em uma escola (nudgingforkids.com).

 

Salvar vidas e reduzir impacto sobre emprego não são conflitantes 
Carlos Luque, Simão Silber, Francisco Vidal Luna e Roberto Zagha, professores do departamento de Economia da FEAUSP

  Prof. Carlos Luque
 
  Prof. Silmão Silber
 

Salvar vidas exige tratamento médico, confinamento e distanciamento social, que desorganizam a produção e a demanda por bens e serviços. O custo econômico levou  governos inicialmente a relaxar medidas de contenção, mas acabaram recuando mais tarde pois o número de mortos seria muito alto. No dia 13 de abril, o Valor Econômico publicou artigo dos professores Carlos Luque, Simão Silber, Francisco Vidal Luna e Roberto Zagha, do departamento de Economia da FEA, sugerindo ações de enfrentamento à crise.

Países que optaram por isolamento e distanciamento observaram três choques: colapso da demanda, colapso da oferta e iliquidez do sistema financeiro. De acordo com os especialistas da FEA, no Brasil o governo federal é a única esfera que pode acionar a política fiscal e monetária na escala necessária para fazer face à crise. E para isso, três ações seriam necessárias.
 

Prof. Roberto Zagha

A primeira é expansão do gasto público para conter o impacto sobre a renda e o emprego através de medidas como: expansão e aumento dos benefícios do Bolsa Família; aumento dos recursos disponíveis no setor de saúde; programas especiais para preparação das comunidades; e expansão de transferências aos Estados e municípios.

A segunda ação proposta para conter o impacto sobre a oferta, em parceria com os Estados, aponta que o governo deveria criar um “Comitê de Crise” para tomar decisões estratégicas, evitar estrangulamentos na circulação de mercadorias e minimizar colapsos de oferta ou demanda. Esse comitê também deveria decidir como realocar recursos ociosos para setores estratégicos que movem a economia.

Por fim, a terceira sugestão para manter a liquidez, a política monetária e creditícia deveria ser acionada como nos EUA e Europa: taxa Selic a zero, linhas de crédito às micros, pequenas e médias empresas e aos Estados e municípios a taxas de juros zero, e compras de títulos públicos e privados. Outra ação importante defendida é o controle dos juros cobrados ao consumidor e empresas, que continuam exorbitantes. Além disso, os lucros anormais do setor financeiro dos últimos anos deveriam ser contidos.
 

Cautela antes de reduzir valor de ativo fixo e ágios de aquisição
Eliseu Martins, professor do departamento de Contabilidade e Atuária da FEAUSP

  Prof. Eliseu Martins

Em reportagem publicada no dia 8 de abril, a revista Exame levantou a seguinte questão: se os “ativos hoje registrados nos balanços das empresas valem mesmo o que dizem”. De acordo com a publicação, a angústia maior dos contabilistas era com o tal “teste da imparidade”, que significa conferir se os ativos reportados poderão gerar riqueza que traduzem nas demonstrações financeiras, seja com lucros futuros ou pela venda do bem.

A Exame ouviu o professor Eliseu Martins, do departamento de Contabilidade e Atuária da FEA, considerado um dos papas da contabilidade no Brasil. O conselho número 1 do mestre foi “calma”. “A melhor coisa que a Comissão de Valores Mobiliários fez foi organizar com o governo a MP que adiou os balanços do primeiro trimestre para julho”, afirmou. Na opinião do docente, a expectativa é que até lá haja mais visibilidade de todo o cenário. Então, não é necessário sair correndo agora para saber o que lançar.

“Será muito importante reavaliar a capacidade de pagamento da cadeia de cada uma das companhias para ver se os recebíveis serão mesmo convertidos em recursos. Essa é uma linha com maior sensibilidade para este momento”. Já nos estoques, os mais suscetíveis são os perecíveis, em especial, aqueles sem escoamento. Mas sobre os ativos fixos, ou seja, máquinas e equipamentos e toda estrutura das empresas, e sobre os ágios fruto de aquisições, Martins disse que não é possível dizer se a crise vai afetar os negócios ao ponto de retirar valor do ativo fixo, porque é um bem de uso no longo prazo.
 

Renda básica emergencial pode eliminar a pobreza extrema
Naercio Menezes Filho, professor do departamento de Economia da FEAUSP
 

  Prof. Naercio Menezes Filho
 

Se todas as pessoas enquadradas na renda básica emergencial distribuída pelo governo durante a pandemia recebessem o benefício, a pobreza extrema seria praticamente eliminada.
É o que pensa o professor Naercio Menezes Filho, do departamento de Economia da FEA. No dia 24 de abril, em artigo publicado no Valor Econômico, o docente analisou se o programa de
renda emergencial seria suficiente para proteger os mais pobres e quais os efeitos da crise sobre a popularidade do presidente.

O programa atende pessoas com mais de 18 anos, não empregadas no setor formal, sem aposentadoria, seguro-desemprego ou programa de transferência de renda, e que têm renda mensal de até 3 salários mínimos. O benefício será pago por três meses para no máximo duas pessoas por domicílio.

De acordo com Naercio Menezes, supondo que todas as pessoas que se enquadram nos critérios do programa (incluindo o limite de renda) recebam o benefício, mesmo aquelas que não tenham perdido emprego com a crise, nesse caso 32 milhões de brasileiros receberiam o auxílio. “Como muitos dos novos beneficiados não estavam trabalhando mesmo antes da crise (e eram pobres), isso faria com que a pobreza diminuísse, com relação à situação inicial sem crise, de 17% para apenas 6%. A pobreza extrema seria praticamente eliminada”.


Arrecadação da previdência sofrerá impacto com jornada reduzida
Luís Eduardo Afonso, professor do departamento de Contabilidade e Atuária da FEAUSP
 

  Prof. Luís Eduardo Afonso
 

Com a suspensão temporária de contratos de trabalho e a possibilidade de redução de jornadae salário, é indiscutível que as receitas previdenciárias deverão despencar ao longo do ano. 

Para tentar amenizar o problema o governo editou a MP 936, que criou o programa emergencial de emprego e renda. Pela MP, a contribuição para a previdência seria correspondente à renda que o trabalhador recebesse do empregador após acordo para diminuir a jornada e o salário, no período de três meses.

O professor Luís Eduardo Afonso, do departamento de Contabilidade da FEA, foi ouvido pelo jornal Valor Econômico, em matéria publicada no dia 6 de abril. Na sua avaliação, as receitas previdenciárias terão queda, porque muitos brasileiros, no caso da suspensão de contrato, não farão a contribuição facultativa, pois estarão com a renda comprometida. No caso da redução de jornada, o cálculo da contribuição ao INSS também será menor. Para piorar o quadro, o número de desempregados deve crescer, e parte dos informais e autônomos pode contribuir
menos ou deixar de pagar para o INSS devido à forte perda de renda.
 

Desarticulação do governo na pandemia
Professor Paulo Feldmann, do departamento de Administração da FEAUSP

  Prof. Paulo Feldmann
 

A falta de coordenação do Ministério da Saúde durante a pandemia foi o primeiro fator a prejudicar os Estados. A avaliação foi feita em entrevista do jornal O Globo, no dia 18 de maio, pelo professor Paulo Feldmann, do departamento de Administração da FEA. O docente lembrou sobre a compra de 40 milhões de testes anunciada pelo ex-ministro Henrique Mandetta, que não aconteceu, e sem a testagem “fica difícil abrir mão da quarentena”.

Paulo Feldmann afirmou, ainda, que a coesão nacional no enfrentamento da pandemia faria com que o isolamento no Brasil durasse mais tempo: de três a quatro meses, quando na maioria dos países, durou em média 75 dias.

 

 

 

Pandemia afeta metas de fundos de pensão
Professor José Roberto Savoia, do departamento de Administração da FEAUSP
 

  Prof.  José Roberto Savoia

Os fundos de pensão perderam parte de seu patrimônio com a crise provocada pelo novo coronavírus. Antes da pandemia, os fundos tinham iniciado um movimento de diversificação dos investimentos em Bolsa para compensar a queda dos juros e cumprir as metas de rentabilidade. Com a queda na Bolsa, o Ibovespa recuou 26% no acumulado do ano até final de maio – acendendo o sinal de alerta o setor.

No dia 1º de junho, o jornal O Estado de S. Paulo publicou entrevista com o ex-secretário de Previdência Complementar, o professor José Roberto Savoia, do departamento de Administração da FEA. Segundo ele, os ativos precisam crescer numa taxa semelhante ao atuarial. “Sem esse equilíbrio, os fundos têm de mudar suas estratégias”.


Autora: Cacilda Luna
Gente da FEA - junho de 2020

Data do Conteúdo: 
Segunda-feira, 15 Junho, 2020

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