Pesquisa analisa organizações que apoiam negócios de impacto

João Mello

 

Encomendada pelo Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), a pesquisa "Um olhar para a sustentabilidade financeira das organizações de apoio a empreendimentos de impacto" buscou entender como empreendimentos intermediários conseguem se manter financeiramente. A professora da FEA Graziella Comini foi coordenadora geral do estudo e esmiúça sobre a metodologia e os resultados alcançados. 

 

A pesquisa debruçou-se sobre Organizações de apoio a empreendimentos de impacto (OEIs), ou seja, organizações "intermediárias". Foram investigadas aquelas que fomentam "negócios de impacto": aqueles nos quais há uma venda de produtos e serviços dentro de uma lógica de mercado, mas a sua intencionalidade é resolver um problema sócio-ambiental. As OEIs ajudam no contato desses negócios com o mercado, investidores e conexões internacionais.  

 

Essas organizações começaram a surgir na década de 80 e eram comumente chamadas de "incubadoras" ou "aceleradoras" e tinham o objetivo de criar um ambiente, um espaço físico, para ajudar nas conexões e capacitações de outros negócios. Muitas delas surgiram dentro de universidades e hoje locam espaços físicos, oferecem capacitações, consultoria, apoio jurídico, realizam relações com grandes corporações. O objetivo da pesquisa do ICE foi justamente averiguar se essas organizações possuem sustentabilidade financeira, quais fatores contribuem e quais dificultam.

 

Realizou-se um levantamento qualitativo e quantitativo. Foi encaminhado um questionário para organizações que receberam capacitações para introduzir esse tema de negócios de impacto e para as OEIs que estão numa base de dados do Instituto Quintessa já voltadas para o tema. Totalizou-se, então, uma base de dados de 104 OEIs. O que se concluiu foi que voltar suas ações para negócios de impacto não significou um peso (negativou ou positivo) no bem-estar financeira dessas organizações.

 

A pesquisa mostrou que as OEIs já tinham questões estruturais que independem da agenda e do foco destas organizações. A maioria delas atua dentro dos seus custos de operação, possui um time muito pequeno de colaboradores e considera sustentabilidade financeira um tema estratégico, mas não possui planejamento para além de dois anos. Um terço dessas OEIs apresenta uma alta dependência da mantenedora (seja uma universidade ou fundação) e estão sujeitas a quanto essas mantenedoras reconhecem a importância de seus negócios. 

 

A professora Graziella comenta que, devido ao momento de pandemia, a palavra mais citada nos questionários foi "desacomodação". Foi revelado que as OEIs vinculadas às áreas de saúde, educação e e-commerce cresceram bastante, enquanto aquelas que tinham em seus portfólios negócios de turismo, artesanato e cultura tiveram grande queda (até de 70%). Mas, no geral, as organizações se adaptaram às regras sanitárias e anteciparam lançamentos de serviços online (capacitação ou consultoria).

 

Essa pesquisa veio, segundo Graziella Comini, da necessidade de entender se as OEIs estavam bem, se tinham capacidade financeira e, mais do que isso, o que é necessário para que elas sejam fortalecidas, "porque, ao fortalecê-las, indiretamente ajuda-se no crescimento de negócios de impacto". Nesse sentido, a pesquisa partiu do diagnóstico para ser propositiva e preparou uma série de pontos para ajudar essas organizações. Dentre esses pontos, estão fatores como iniciativas de advocacy, atuação em rede e aproximação com grandes empresas e investidores.

 

"Não há prejuízo apoiando negócios de impacto, muito pelo contrário". A professora Comini justifica essa afirmação dizendo que, quanto mais organizações apoiarem negócios de impacto, isso será melhor para todos, porque os problemas socio-ambientais são inúmeros e não desaparecerão sem uma ação direta e efetiva.

 

"Queríamos que, no futuro, todos os negócios fossem de impacto. O ideal seria não fazer essa divisão, mas hoje há uma parte dos negócios que quer gerar valor socio-ambiental e valor financeiro e outra parte que só quer gerar valor financeiro."

 

 

 

Data do Conteúdo: 
Segunda-feira, 14 Dezembro, 2020

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