MADE: novo centro de pesquisa da FEA estuda a desigualdade

   Profa. Laura Carvalho
 
   Prof. Fernando Rugitsky
 

O Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (MADE) é um dos mais recentes grupos de pesquisa da FEAUSP. Liderado pelos professores Laura Carvalho, Gilberto Tadeu Lima e Fernando Rugitsky, o MADE já existia como um grupo de pesquisa e debate interno sobre o tema, mas foi oficializado no ano passado. Em outubro, com o lançamento de seu site (madeusp.com.br), o MADE divulgou sua primeira Nota de Política Econômica, que trouxe resultados para o debate sobre a ampliação das transferências de renda no Brasil, assunto que merece destaque diante do agravamento da crise econômica gerado pela pandemia e o aumento da desigualdade social no país. 

“Nosso trabalho sobre desigualdades e macroeconomia já vem de muito tempo. Nossa pesquisa já vinha alertando para as implicações da desigualdade brasileira e suas disfuncionalidades. Mas, de fato, essas desigualdades acabaram agravando a pandemia e sendo agravadas por ela. Temos produzido trabalhos

   Prof. Gilberto Tadeu Lima
 

sobre essa relação e, em particular, sobre o papel do Auxílio Emergencial nesse contexto”, conta Laura Carvalho. “Para além de neutralizar o aumento das desigualdades salariais, concluímos em uma de nossas Notas de Política Econômica que o Auxílio atenuou de forma substantiva a recessão em 2020”. 

Nesse contexto, uma das propostas defendidas pelo grupo para reduzir as desigualdades e gerar crescimento econômico é a criação de um programa robusto e permanente de garantia de renda, financiado a partir do aumento da tributação sobre as rendas mais altas. “Analisando propostas alternativas de renda mínima, sugerimos que há espaço fiscal para uma ampliação significativa de programas de transferência de renda, desde que a redistribuição ocorra dos estratos mais ricos para os mais pobres”, diz uma das Notas de Política Econômica. Com a tributação mais progressiva, a Nota prevê a possibilidade de uma transferência de R$ 125 para todos os brasileiros da metade mais pobre da população, reduzindo em 8,9% o índice de Gini.

 

 

Como nasceu o MADE

O embrião do MADE começou a ser gestado em 2015, como conta a professora Laura Carvalho: “O que hoje é o MADE existe enquanto espaço coletivo de pesquisa na FEA desde 2015. Nos organizávamos para discutir artigos, trabalhos de alunos e havia uma dinâmica cooperativa muito positiva. Nos juntamos enquanto grupo justamente por compartilharmos questões de pesquisa e abordagens metodológicas comuns que se relacionavam com o tema geral da macroeconomia das desigualdades. O caminho natural desta interação foi a nossa oficialização, em 2020, como um grupo de pesquisa do CNPq”. 

A linha de pesquisa geral da macroeconomia das desigualdades, segundo a docente, é um grande guarda-chuva que acomoda diversos projetos específicos de cada professor e pesquisador do grupo. “A ideia é compreender a inter-relação entre desigualdades regionais, de renda, de gênero, raciais e variáveis macroeconômicas como taxa de crescimento, nível de emprego, taxa de câmbio, investimento, enfim, uma série de fenômenos que muitas vezes são discutidos apartados das questões das desigualdades e que em nossos diversos trabalhos buscamos relacionar. Seja para compreender o crescimento brasileiro com distribuição de renda ao longo da primeira década deste século, a determinação dos investimentos estrangeiros entre países ricos e pobres, ou o papel ou a relevância da desigualdade de renda na determinação da demanda agregada”. 

A professora conta ainda que atualmente, além das pesquisas estritamente acadêmicas, o MADE desenvolve dois projetos em parceria com instituições externas. O primeiro deles, junto com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), visa estimar os impactos multiplicadores de benefícios sociais sobre o produto, o consumo das famílias e o investimento no Brasil e em outros países do mundo. “Os resultados que já verificamos para o caso brasileiro indicam um efeito multiplicador relativamente elevado para benefícios sociais, comparável ao nível encontrado para investimentos públicos”. O segundo projeto é realizado em parceria com a Open Society Foundation e tem como objetivo principal propor caminhos e alternativas condizentes com uma retomada do crescimento econômico que seja inclusiva e sustentável.

Além de contribuir com o debate público, Laura Carvalho acredita que o MADE também tem um papel importante na formação dos alunos. “Acreditamos que para nossos alunos quanto mais grupos de pesquisa, melhor. Há mais espaço para encontrarem temas de interesse, espaços de debate e um tipo de interação que não é possível apenas na sala de aula. Queremos ser, portanto, mais um destes espaços, possibilitando para as alunas e alunos que vierem pesquisar conosco um ambiente dinâmico e interativo de pesquisa e discussão”.   

Além dos três professores já citados, são membros associados do MADE Luiza Nassif Pires e Bruno Höfigos. O centro é formado, ainda, pelos alunos Gabriel Poveda, Matheus Alexandria Sposito, José Tassara Ferraz, Ana Bottega, João Victor Sales Marcolin, Matias Rebello Cardomingo, Theo Ribas Palomo, Pedro Romero Marques, Rodrigo Toneto, Nikolas Schiozer, Otávio Florentino Detoni, Marina da Silva Sanches, João Vicente Novaes  Camargo Manna, Dante de Souza Cardoso e Eduarda Fernandes Lustosa de Mendonça. Fazem parte, também, os egressos Eduardo Rawet, Guilherme Klein Martins, Adriano dos Reis Miranda Maureno Oliveira, Gustavo Pereira Serra, Clara Zanon Brenck e Vinícius Curti Cícero. A equipe conta ainda com a participação de Maria Fernanda Fernandes Sikorski. 

 

Estudos do MADE

Um dos primeiros trabalhos do MADE divulgados pela mídia foi sobre as políticas econômicas implementadas no Brasil durante a pandemia, sob a perspectiva de gênero e raça. Realizado pelas pesquisadoras Lygia Sabbag Fares, Ana Luiza Matos de Oliveira, Luisa Cardoso e Luiza Nassif-Pires, o trabalho trouxe um resultado que chamou a atenção do público: o auxílio emergencial reduziu a distância entre a renda das famílias chefiadas por mulheres negras em relação às famílias chefiadas por homens brancos.  

As pesquisadoras usaram os dados da PNAD-COVID para evidenciar o fenômeno. Antes da pandemia, a renda do trabalho per capita das famílias chefiadas por homens brancos era cerca de 2,5 vezes maior que a de famílias chefiadas por mulheres negras. Em agosto de 2020, essa relação diminuiu para 2,1. Já comparado aos lares chefiados por mulheres brancas, a proporção passou de 1,8 para 1,6 no período e, no caso de homens negros, foi de 1,4 para 1,3.

“Ao contabilizarmos o auxílio emergencial, percebemos que a renda das famílias chefiadas por mulheres negras torna-se mais próxima à renda de todos os outros grupos, mesmo quando comparado ao período pré-pandemia”, afirmam as pesquisadoras. Elas defendem a extensão do auxílio emergencial até que a crise seja solucionada, seguida de uma ampliação do programa Bolsa Família. Também sugerem a coleta e distribuição de dados desagregados por sexo e raça relacionados à Covid-19 e à imunização. 

Outro estudo divulgado pelo MADE mostrou que o melhor remédio para a recessão é a adoção de estímulos fiscais que garantam a renda das famílias e a saúde financeira das empresas. Rodrigo Toneto, Matias Cardomingo e Laura Carvalho estimaram o impacto das diferentes medidas adotadas sobre o desempenho econômico de um painel de 45 países ao redor do mundo. 

“Nossos resultados sugerem que os estímulos fiscais foram muito significativos em atenuar a recessão. O potencial impacto de curto prazo sobre o PIB, resultado do necessário distanciamento social e restrições sobre a produção, pôde ser mais do que compensado por uma política fiscal ativa e um comprometimento dos gestores públicos com políticas de saúde”, concluíram.

 

Gente da FEA - maio/2021
Autora: Cacilda Luna

 

Data do Conteúdo: 
Sábado, 1 Maio, 2021

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