Inteligência Artificial e Mercado de Trabalho

Tenho estudado os impactos da Tecnologia de Informação nas organizações e sua estratégia há mais de 20 anos e, mais uma vez, as inovações trazidas por esse setor parecem ameaçar empregos de um lado, e empresas e seus modelos de negócio, de outro. Nesse cenário, uma aplicação icônica é o Watson da IBM, que é uma fantástica máquina de aprendizagem em domínios específicos, dotada da capacidade de se comunicar em linguagem natural. O Watson já está sendo experimentado em setores tais como o diagnóstico médico, elaboração de processos jurídicos, comércio eletrônico e atendimento em call-centers. Outras aplicações de Inteligência Artificial (IA) já têm sido empregadas na elaboração de relatórios financeiros, e em decisões de investimentos, comerciais e de logística. A questão aqui é que, diferentemente das outras “ondas” da tecnologia, a IA tem permitido que a automação avance em tarefas e profissões que exigem formação de nível superior, preparo intelectual e experiência, trazendo preocupações quanto ao futuro dos empregos e profissões. 

A tecnologia tem um papel relevante e importante no desenvolvimento econômico. Pense, por exemplo, no impacto trazido pela computação nos bancos, onde inicialmente profissionais cujos trabalhos eram ligados à entrada de dados e a cálculos repetitivos foram substituídos, e, mais recentemente, também os profissionais de canais de atendimento ao público. Isso trouxe ganhos de escala e eficiência que permitiram incluir grande parte da população nos serviços bancários, fizeram crescer o tamanho do mercado atendido e ao mesmo tempo gerar novos empregos. Da mesma maneira, tecnologias como o Watson permitirão que milhões de pessoas que não têm acesso a um diagnóstico médico ou jurídico de qualidade possam obtê-los. Assim, é preciso considerar que a eficiência e ganhos de escala são necessários e desejados num mundo crescentemente complexo.

Claro, fica a pergunta: o que sobrará para nós humanos? Sabemos que os aspectos de relacionamento humano, gestão, motivação e a criatividade (tal como a criação de uma estratégia) são um conjunto de características do ser humano que não têm contrapartida em ferramentas digitais. Estudos que temos conduzido junto a profissionais e empresas no Brasil mostram que as promessas da IA são grandes, mas há exagero sobre as reais possibilidades da tecnologia, ou mesmo de sua aceitação pelo grande público. Conversar com robôs parece não agradar à maioria das pessoas (embora conversar ao telefone não pareça ser o caminho que será adotado pelos mais jovens - os “millenials”). 

Não há dúvida de que a sociedade precisará lidar com esse dilema. Ainda não está claro o caminho a seguir, e diferentes correntes filosóficas, econômicas e políticas têm sua posição quanto ao futuro. Com uma visão mais pragmática, podemos traçar algumas recomendações para os jovens que buscam sua formação e ingresso no mercado, sejam como empregados ou empreendedores: é preciso estar informado das novas possibilidades da TI e da IA em sua profissão e aplicá-las efetivamente; é preciso investir em habilidades gerais, flexibilidade e no aprendizado contínuo; e é preciso a educação financeira, preparando-se para o futuro, poupando e investindo nas opções mais adequadas para cada um.

Eu gostaria de finalizar com a genial frase de Pablo Picasso: “os computadores são inúteis, eles só nos dão as respostas”. Claro. Para isso os construímos. É a capacidade de fazer as perguntas certas  que nos diferenciará sempre. É o que nos torna humanos.
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Cesar Alexandre de Souza
Professor do Departamento de Administração da FEAUSP

 

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 27 Março, 2017

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