Indústria pornográfica e feminismo são temas de debate na FEA

César Costa

 

Feminismo e indústria pornográfica são dois conceitos que não se combinam. Enquanto houver a produção de vídeos explorando cenas de sexo, haverá a objetificação da mulher. Essa foi a principal conclusão do debate promovido pela EPEP (Estudos de Política em Pauta) da FEA, em conjunto com o Coletivo Feminista Alice Canabrava.

O tema “Futuro das mulheres na política: Impactos da Cultura de Objetificação e da Indústria Pornográfica” foi debatido por Aline Torres, pré-candidata a vereadora em São Paulo e integrante do Ladies of Liberty Alliance, LOLA Brasil; Vanessa Danieli, youtuber ativista contra pornografia que já teve experiências com a indústria pornográfica; e Aline Rossi, uma das escritoras da revista “QG Feminista”.

As três foram categóricas em afirmar que não existe pornografia feminista. Aline Rossi disse que, enquanto existir a pornografia, essa indústria se alimentará da imagem objetificada da mulher: “É um mercado que mercantiliza os corpos das mulheres. Não há pornografia que desafie a ordem social. Ela sempre colocará mulheres como subalternas e não alterna a opressão delas, então não é feminista”. 

Além de concordar com Aline, Vanessa disse conhecer a mentalidade por trás dos produtores. “Pegaram o pornô soft e tentaram produzir material para mulheres. Algo não usual, que os homens consomem da mesma forma e colocam o nome feminista”. Aline Torres complementou apontando que a indústria, além de objetificar o corpo da mulher, normaliza comportamentos do sexo que não são comuns num relacionamento. 

E o que leva alguém a entrar para a indústria pornográfica? Vanessa contou que foi abusada quando criança, o que a deixou emocionalmente vunerável. Mais tarde, necessitou de dinheiro e viu nessa atividade uma maneira de se sustentar. Disse que sofria humilhações no trabalho, mas não reconhecia o seu real significado. “Só entendi quando sai da indústria”, revelou. Quando fez 27 anos, afirmou que começou a estudar mais e a entender tudo que sofreu. 

A ativista admitiu que, em dado momento,achou que  não conseguiria sair daquele ambiente: “Eu já estava sem perspectiva de vida". Mas aí veio a ideia dela se tornar youtuber. "Comecei a ir a eventos geeks também. Aposentei, tinha juntado uma grana. E apostei tudo que tinha em virar uma youtuber”. Vanessa conseguiu retornar aos estudos, se formar em Administração e ter um diploma, que era importante para ela. Passou a ver o mundo de uma forma diferente: “Estava acostumada com a outra realidade, com humilhação. Eu não desejo pra ninguém passar por tudo que eu passei”.

Para Aline Rossi, no entanto, entrar para a pornografia ou prostituição são equivalentes. Segundo ela, as pesquisas já apontaram que abusos sexuais acabam pavimentando o caminho nessa direção: “É uma pré-condição que muitas das que entram nesse mundo partilham”. Aline reconheceu que não adota a perspectiva de prostituição e pornografia como trabalhos: “Qual é a formação desse trabalho? O abuso sexual. As mulheres sofrem um grooming através da objetificação, das narrativas hipersexualizadas, de abusos e do estupro. Por isso a gente fala de uma cultura de estupro que te prepara para ser essa vítima”.

Já Aline Torres acrescentou que "a política finge que tudo isso não existe porque essa indústria gera uma grana tremenda. Os gestores estão fingindo desconhecer todo esse cenário”. A integrante do LOLA também foi a primeira falar sobre o último tópico em relação a pornografia, o racismo. As três foram questionadas se consideram que a pornografia é propagadora do racismo. Torres, assim como as outras duas em sequência, respondeu que sim: “Tem uma questão da super sexualização do homem negro”. Disse que dentro da pornografia, o homem negro é sempre super dotado e isso implica num aumento desse estereótipo: “Isso frustra o homem negro. Nem todo mundo é assim”. E complementou afirmando que mulher negra passa pela hipersexualização igualmente: “Ela sempre tem que ter o corpo escultural, isso por conta da indústria pornográfica também”.

Aline Rossi também acrescentou que o que é considerado como racismo e machismo na sociedade, na indústria pornográfica é um diferencial de produto, é um mercado a ser explorado e que gera rentabilidade: “Tudo que é concebido como inaceitável aqui fora, na pornografia é um diferencial”. 

Feminismo e política 

Uma questão levantada foi em relação ao alcance do feminismo: como fazer isso alcançar pessoas que não estão nesse meio? As três concordaram que a própria palavra “feminismo” não é sempre muito bem aceita. Aline Torres vê uma sociedade que criminaliza a política. Ela conhece diversos casos de quem não conhece a palavra, mas já tem o ímpeto: “Há um distanciamento muito grande quando se coloca pompa. Se pensarmos nas bases, de mulheres que cuidam de mulheres e se ajudam entre si, elas são feministas, mas sem a taxação”. 

Rossi afirmou que feminismo é um movimento social, e é um movimento anti-sistema: “Como ele desafia a lógica, desafia a estrutura da sociedade, ele tá desafiando a narrativa dominante”. E na visão da escritora, as narrativas dominantes chegam mais longe, o que é um enorme desafio a ser enfrentado.

Vanessa destacou o lado da educação como um método importante para dar maior alcance ao feminismo, educando as crianças por exemplo, assim como Torres faz com seu filho: “Ele é criado por três mulheres e eu naturalizo o feminismo”

As convidadas foram questionadas se quanto mais mulheres na política, melhor, independente de serem aliadas do movimento. Aline Rossi discordou. "Eu acho que não. Existem muitos exemplos disso no mundo. A representatividade não serve a qualquer custo, a representatividade que presta é a luta da mulher. É preciso ter uma linha, um plano que avance a situação das mulheres”.

Torres complementou com sua vivência: “A política é um ambiente muito hostil. A representatividade precisa vir junto com conhecimento, qualidade e englobada de uma capacidade técnica”. 

 

 

 

 

 

Data do Conteúdo: 
Quarta-feira, 19 Agosto, 2020

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