Generas promove roda de discussão sobre vida e morte na pandemia

Pedro Ferreira

 

No dia 23 de fevereiro, ocorreu a segunda edição do Fala Generas, organizado pelo Núcleo de Pesquisa e Extensão em Gênero, Raça e Sexualidade da FEA. O evento teve como tema os conceitos de vida e morte na pandemia e promoveu discussões acerca da necropolítica, do luto e da situação de vulnerabilidade a qual grupos não-hegemônicos estão submetidos no contexto atual. 

A transmissão pelo YouTube foi mediada pela Profª. Dra. Janaina Dourado, e contou com a participação de Rosane Borges, jornalista e pesquisadora da Escola de Comunicações e Artes da USP, e de Osmair Cândido, coveiro e filósofo. A tradução em libras foi feita pelos intérpretes Rubens Gomes e Yure Soares.

Dois conceitos muito utilizados na discussão foram os de biopolítica e necropolítica. O primeiro é um termo cunhado pelo filósofo francês Michel Foucault e define a política governamental que, a partir do século XVIII, passou a tornar a vida biológica em um objeto da política; ou seja, a regulamentá-la. O segundo foi desenvolvido no início do século XXI pelo filósofo camaronense Achille Mbembe, a partir do conceito foucaultiano, para se referir aos limites das políticas do Estado que determinam quem vive e quem morre. 

“Hoje o que temos é a necropolítica como política de Estado, só que essa necropolítica vai hierarquizar, também, as humanidades”, afirma Rosane ao relacionar o termo com a pandemia de Covid-19 e às omissões do governo brasileiro em tratar de forma adequada a crise sanitária, em que a maioria das vítimas pertence a grupos socioeconomicamente vulneráveis.

Em outro momento, os lutos coletivo e individuais foram retratados como grandes agravantes da saúde mental dos brasileiros. Osmair Cândido contou sua experiência com os enterros durante a pandemia e afirma que o luto coletivo é diferente para cada grupo social. “A morte atingiu muito mais quem é periférico, quem tem menor poder aquisitivo, é outro tipo de luto. Além do luto, a preocupação de como levar a vida para quem perdeu um marido, uma esposa que cuidava de tudo. Já no outro lado da cidade, mesmo com luto, há uma grande possibilidade de recomeço”, comenta.

Ao longo da transmissão, alguns relatos, coletados previamente, sobre os desafios das perdas na pandemia foram lidos e emocionaram os participantes e o público. 

“A pandemia nos suscitou um adentrar dentro de si, um desnudar de verdades, que comumente ignoramos ou apenas camuflamos. Alimentar o corpo e o espírito nunca foi tão necessário. Alia-se o fato das múltiplas preocupações por estar desempregado, pelas incertezas do amanhã, seja pela possibilidade de ser infectado, ou mesmo de como sobreviver em meio a tudo isso (...).”

As críticas à gestão pública e às omissões do governo durante a crise sanitária foram corroboradas em outra contribuição:

“Acredito que, assim como eu, grande parte da sociedade sofreu as consequências de uma má gestão no tocante à pandemia. A péssima organização entre o Estado e a União só fez segregar ainda mais uma sociedade adoecida e carente, primeiro de seriedade no tratar à vida e, em sequência, e nada menos importante, à informação. Ainda ouço entre um ônibus e outro o desdém de uma pandemia, como se realmente fosse só mais uma gripe. Enfim, acredito que isso seria só uma síntese de como a necropolítica vem funcionando e bem em nosso país (...).”

Outro relato contou a história da família Ramos Bolonese, que pertence ao povo Tupinikim e reside na aldeia Caieiras Velhas, em Aracruz, na região norte do Espírito Santo. Os pais perderam o filho no momento do parto.

“A mãe, positiva para Covid-19, ainda um pouco desorientada e sem saber como proceder, disse que colocaria o seu bebê em um frasco de vidro porque ela já o sentia como parte da família. David ainda acrescentou que: ‘(...) a saúde indígena recebeu uma notoriedade muito grande através dessa nossa história. Então, apesar da tristeza, a gente entendeu que ele veio para cumprir uma missão.’”

O relato de uma fisioterapeuta intensivista trouxe o cotidiano dos profissionais de saúde em meio à lotação dos leitos de hospitais:

“(...) E lá se vão mais 12 horas de COVID, menos 12 horas desse vírus no mundo. Sonhando com o dia em que não viverei mais uma UTI lotada de uma única doença, com todos os pacientes apresentando o mesmo vírus, com todos os familiares querendo um abraço na notícia mais triste sem poder receber. Menos 12 horas de negacionismo e de uma sociedade se autodestruindo.”

O Fala Generas é realizado bimestralmente e terá outra roda de discussão em abril. Para participar ou contribuir com as próximas edições é recomendado acompanhar a página do núcleo no Facebook para mais informações.

 

 

Data do Conteúdo: 
Terça-feira, 9 Março, 2021

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