Fernando Henrique Cardoso abre as comemorações dos 75 anos da FEA

A Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP comemorou seus 75 anos com uma série de “aulas magnas” sobre o tema “A Nova Era em Construção”. O primeiro conferencista foi o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, convidado a falar sobre política. FHC, que é sociólogo, cientista político, escritor, professor emérito da FFLCH-USP e também já deu aulas na FEAUSP, lembrou sua trajetória acadêmica e como ela o ajudou na vida pública. Além de senador, foi ministro das Relações Exteriores e da Fazenda, durante o governo Itamar Franco. O sucesso do Plano Real, após fracassadas tentativas de governos anteriores de acabar com a hiperinflação, foi responsável por sua eleição a presidente em 1995.

    Fernando Henrique Cardoso
    Ex-presidente do Brasil

Durante sua palestra na FEAUSP, o ex-presidente reconheceu, no entanto, que seu papel na edição do Plano Real foi de certa forma secundário. Na época, o chanceler do Brasil foi convidado pelo presidente Itamar Franco para assumir a pasta da Fazenda com a missão de acabar com a escalada de preços que derretia o poder de compra do brasileiro. FHC disse que a principal tarefa coube à equipe técnica, composta por Edmar Bacha, Pedro Malan, Gustavo Franco, Persio Arida, André Lara Resende e Winston Fritsch. Segundo ele, seu principal papel foi explicar à população como funcionaria o plano, além de motivar as pessoas a apoiar as medidas. 

FHC esclareceu que não se consegue acabar com um processo inflacionário se não houver o apoio da população e dos empresários. “O Itamar Franco queria acabar com a inflação e não sabia como fazer. Fui lá e montamos uma equipe capaz. Acho que meu papel foi até certo ponto secundário na equipe, porque a técnica veio deles. Qual foi o meu papel? Foi mais explicar as medidas à população. Eu falava incessantemente pelo rádio e pela televisão. Achava que era importante motivar a população. Esse foi o papel maior que representei”.

Uma coisa importante para quem assume a vida pública, na avaliação de Fernando Henrique Cardoso, é ter a capacidade de se comunicar. “Quando você é presidente, o mais importante é saber falar com o outro, e ouvir o outro. Acho que a experiência de ter sido professor me ajudou muito na vida pública. Eu aprendi observando a USP. Sempre gostei de conversar, dar aulas. Acho que a universidade é muito importante na formação e na vivência de uma pessoa. Quando a pessoa tem experiência universitária e vai para o poder, se ela não esquece que é universitário, isso é bom, porque a formação permite você entender o outro”.

O sociólogo acredita que o diálogo é sempre possível, inclusive quando o interlocutor é seu adversário político. E que o objetivo na democracia é “ganhar” o outro, ou até mesmo o outro conseguir te convencer. “Nunca tive sentimento de amigo-inimigo. Não tenho esse sentimento, até hoje. Quando vou falar com alguém, acho que vou ganhar esse alguém, ou ele vai me ganhar se ele for capaz. Não tem porque estar em choque permanente. O conflito faz parte da vida. Tem que tentar ouvir a razão do outro”.  

Mas quando se está dentro do jogo político, Fernando Henrique Cardoso aposta em conseguir convencer o adversário, sob a condição de “perder a guerra”. “Se você não ganhar o outro, você perde a guerra. A pessoa pode ser até seu adversário, mas não deixe que o adversário te considere um inimigo, porque aí complica”. 

 

FHC sugere que políticos leiam livros

Dono de uma bibliografia vasta, Fernando Henrique acredita que a leitura frequente de livros pode ajudar a melhorar a formação do político brasileiro. “Fico lendo o tempo todo. Mesmo quando estava no Congresso eu lia muito. Normalmente os políticos não têm tempo para ler. É verdade. Mas você inventa o tempo. Tem que ler, tem que ter alguma noção do que está acontecendo por aí afora”.

O ex-presidente falou também de sua experiência em viver fora do Brasil e da importância de conviver com a diversidade. FHC já morou no Chile, Estados Unidos e na França. “É claro que é bom ter autoconhecimento de outras culturas. Alguns têm sorte de viver em outros países, de aprender, comparar. O importante é ter uma certa diversidade. Quando você está na Presidência da República você tem que lidar com todas as diferenças, entendê-las e respeitá-las. Tem que ter rumo, transmitir o rumo, dar segurança ao povo. E o que é segurança? É mostrar que tem um caminho, que vai fazer as coisas de acordo com esse caminho, que as coisas vão mellhorar”.

Nem sempre, porém, as coisas saem como o planejado. Por isso, Fernando Henrique admitiu que é “parco” no julgamento dos outros. “Eu sei que é difícil, você pode querer e não consegue. Minha vontade não é lei, depende dos outros. A aquiescência é muito mais importante do que a lei. E o povo sabe o que quer: quer comer, ter emprego, família, ir à igreja. Ele quer coisas simples, mas que são importantes. Você tem que dar importância àquilo que o povo acha importante”.

FHC revelou, ainda, que exercer o cargo de chefe da Nação não foi tão fácil, mesmo com toda sua experiência de vida universitária e política. “Você pensa que é fácil ser presidente da República? É dificílimo. Porque o dia inteiro é pressão, pressão, pressão. A pressão vem inclusive da família. Se você não suporta a pressão, melhor não aparecer. Nada é mais difícil do que sobreviver”, finalizou. 

    Jacques Marcovitch
    Prof. da FEAUSP e ex-reitor da USP

No encerramento da palestra de Fernando Henrique Cardoso, o ex-reitor da USP e professor da FEAUSP, Jacques Marcovitch, sintetizou e comentou os principais assuntos abordados pelo ex-presidente da República. Marcovitch destacou que “o acesso às novas mídias e à mobilidade social resultam em novos desafios para a governança” e que “há necessidade de melhor organizar os partidos e as organizações dedicadas ao fortalecimento da democracia”.

Jacques Marcovitch enalteceu, ainda, o papel da imprensa no grande debate público, afirmando que “o jornalismo é o principal meio para esclarecer a opinião pública e se comunicar com os múltiplos segmentos que compõem a sociedade brasileira”. Sobre o Congresso, disse que “ele é constituído de pessoas vividas, com muita experiência a serem reconhecidas para promover um diálogo num ambiente que cultive a tolerância, o pluralismo e o respeito mútuo para promover os princípios de liberdade, justiça, dignidade humana e solidariedade".

Sobre o futuro da educação, Marcovitch destacou que a FEA deve ter objetivos estratégicos e adequar-se às novas demandas da contemporaneidade. “É preciso continuar repensando o papel dos docentes e pesquisadores, sua contribuição para o avanço do conhecimento e seus ciclos de formação”. E finalizou: “ Em plena revolução digital, os currículos e programas deverão evoluir para antecipar as necessidades dos jovens que enfrentarão as exigências do futuro. A formação técnica e humana deverá ser completada por uma dimensão social e ambiental, de modo que eles possam enfrentar as causas do dualismo que tanto macula a nossa sociedade”.

A aula na íntegra pode ser conferida no site https://www.fea75anos.fea.usp.br/

Gente da FEA - outubro de 2021

Autora: Cacilda Luna

Data do Conteúdo: 
Terça-feira, 19 Outubro, 2021

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