FEA recebe pela primeira vez ingressantes via SiSU

Ao aderir ao SiSU (Sistema de Seleção Unificada), a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP tomou uma decisão que, com certeza, influenciará o futuro profissional de muitos jovens. Este é o primeiro ano da implantação das reservas de vagas para alunos do ensino público. De um total de 590 vagas oferecidas pela FEA em 2017, 177 (30%) foram destinadas a candidatos que cursaram o ensino médio em escolas públicas e prestaram o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). As vagas foram distribuídas entre seus quatro cursos: Administração (63), Economia (54), Ciências Contábeis (45) e Ciências Atuariais (15).

 Muitos desses jovens, que obtiveram a pontuação necessária por meio do Enem, não estariam hoje na FEA caso tivessem prestado apenas a Fuvest. É o caso da Gabriela Nicolau, de 19 anos, que ingressou no curso de Economia. Pela Fuvest, a nota de corte foi 55 e ela conseguiu 50. Já pelo Enem, a nota de corte ficou em 737, porém sua média foi 738. Esta foi a primeira vez que Gabriela se candidatou a uma vaga na USP. A vida toda frequentou a escola pública e o ensino médio foi feito integralmente numa Etec (Escola Técnica).

A nova aluna pondera que, se não fosse a reserva de vagas, não teria conseguido ingressar na FEA. “Eu não teria entrado. Tanto é que eu nem contava em vir para cá. Pensava apenas na Unicamp, onde também prestei Economia. Aí falei: vou colocar minha pontuação no SiSU, vai que dá...”. E deu. Gabriela era só sorrisos no primeiro dia da matrícula dos ingressantes pelo SiSU, em 3 de fevereiro, quando a maioria compareceu. Moradora de Sumaré, município da região de Campinas, agora ela teria que pensar na mudança para a Capital.

Gabriela Nicolau acha que as cotas sociais são fundamentais para quem estuda em escola pública, porque nessas instituições a qualidade de ensino deixa muito a desejar e, para completar, o nível de concorrência para ingressar na USP é alto. “Eu estudei minha vida toda em escola pública. O ensino médio teve um nível melhor porque era uma Etec. Mesmo assim, ainda é um ensino de qualidade muito baixa. Até para mim que fiz um ano de cursinho, o Enem estava muito difícil”.



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  A decisão da FEA de aderir ao SiSU teve início no segundo semestre de 2015, com a criação da Comissão de Formas Alternativas de Ingresso, presidida pelo professor Alexandre Macchione Saes. Seu objetivo foi pensar em um processo seletivo que reunisse critérios meritocráticos e a diversidade de alunos, sem prejuízo para a qualidade da formação acadêmica. Em maio do ano passado, o relatório da comissão foi apresentado e discutido na Congregação.

A adesão foi aprovada. Trinta por cento das vagas ficaram destinadas aos egressos de escolas públicas, não se optando, porém, por cotas raciais, o chamado grupo PPI (preto, pardo e indígena). A nota mínima chegou a gerar discussão entre os membros da Congregação. A proposta era de 600 pontos para cada uma das cinco provas do Enem. Apesar de representantes dos alunos terem considerado a nota muito alta, a maioria votou a favor, comprometendo-se a reavaliá-la periodicamente. Segundo Alexandre Saes, a Congregação voltará a discutir essa e outras questões ligadas ao programa no meio deste ano.

Para o calouro Guilherme Marcolino da Silva, 20 anos, que entrou em Administração pelo SiSU, 600 é uma “boa” nota mínima. “Até por uma questão de justiça com quem prestou a Fuvest”. O estudante teve média 710, sendo sua mínima 637 em Ciências da Natureza e sua máxima 840 na Redação. Guilherme considera que a adesão da FEA ao SiSU mudou sua vida. “Eu só consegui entrar por causa do SiSU. Isso mudou minha vida, e espero que continue mudando as de muitas pessoas”. 

Assim como Gabriela Nicolau, Guilherme também fez Escola Técnica, no Jardim Ângela, zona sul de São Paulo. Depois frequentou o cursinho por dois anos, sendo um ano presencial e outro pela web. O ensino fundamental ele fez em escola privada. Quando decidiu prestar o vestibular, pensou primeiramente em ser economista. Mas no final acabou decidindo cursar Administração. “Pelo SiSU eu não passaria mesmo em Economia, então optei por Administração”.

Matriculado no curso de Ciências Contábeis, o calouro João Vitor Ferreira, de 17 anos, entrou na USP via SiSU, sem ter feito cursinho e trabalhando em período integral. “Estudei bastante sozinho”, revelou durante a matrícula na FEA. O calouro é um exemplo de esforço e dedicação: cursou escola pública tanto no ensino fundamental, quanto no ensino médio. Sua média no Enem foi 718, sendo sua mínima 650 em Ciências da Natureza e sua máxima 840 em Redação.

Para o presidente da Comissão de Formas Alternativas de Ingresso, um dos ganhos do programa é levar para a sala de aula alunos que tenham uma vivência e uma cabeça diferentes, proporcionando perspectivas de “diálogos novos”. Em relação ao receio de que pode haver queda na qualidade de ensino, Saes garante que não tem a menor possibilidade disso ocorrer, porque a nota de corte é elevada. “O que pode acontecer é uma dificuldade pontual do aluno, que pode ser facilmente resolvida”.

Com os 30% de vagas destinadas ao SiSU, a FEA se aproxima do índice de alunos egressos do ensino público da USP, que em 2015 estava em 35%. É bom lembrar que a USP possui três programas de bonificação para o vestibular, que atendem não só alunos provenientes de escolas públicas, mas também o chamado grupo PPI. A taxa de ingressantes na FEA oriundos do ensino público, portanto, pode até ultrapassar os 30% do SiSU, pois uma parcela deles já ingressa via Fuvest por meio dos programas de inclusão.

Gente da FEA - abril de 2017
Autora: Cacilda Luna

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 27 Março, 2017

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