Em Aula Magna na FEA, reitor da UniPalmares diz que país vive racismo estrutural mesmo com todas as garantias constitucionais

Durante a Aula Magna da FEA, realizada virtualmente no dia 19 de abril, o reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, Prof. Dr. José Vicente, disse que apesar de estarmos “debruçados” em um estado democrático de direito, o Brasil vive um “racismo estrutural” que dá inveja ao racismo americano e sul-africano. Segundo ele, o racismo brasileiro opera no “silêncio”, na “clandestinidade” e num “estado informal”, e que mantém nosso país “cindido” em pleno século 21.  

“Hoje falamos com muita propriedade do racismo estrutural, do racismo institucional que se formou e se consolidou juntamente com esse estado democrático de direito formal, esse estado racial informal operando na clandestinidade, no silêncio, na sinuosidade, na conivência e na condescendência republicana, e que continua sob todos os aspectos e sob todos os indicadores conhecidos, em pleno século 21, mantendo o nosso país cindido”, afirmou José Vicente.  

O reitor da UniPalmares citou como exemplos do racismo estrutural o caso de racismo e morte no Carrefour, e o fato de termos 75% de jovens negros na estatística anual de mortes violentas. “A gente não consegue entender como é que para uma estrutura com essa finalidade, de direitos iguais para todos, a gente possa ter o maior assassinato de jovens de todo o mundo? Como é que esse estado republicano, com essa estrutura de segurança cidadã, e que tem também seus fundamentos nesse sentido republicano e no estado democrático de direito, tem 60 mil mortos por ano, dos quais 75% são jovens negros?”. 

José Vicente ressaltou que não é difícil se verificar essa “distorção” e “disparidade” em todos os aspectos, principalmente sob o ponto vista numérico, considerando que o Brasil é uma república miscigenada e possui 56% de brasileiros negros. E comentou: “Somos um país, uma república democrática de todos, mas que de novo ele é cindido entre negros e brancos num verdadeiro estado de apartheid. E quando debruçamos sobre os números, chegamos a fazer inveja para o racismo americano, e para o racismo sul-africano”.  

 

Cotas raciais nas empresas 

Ao falar sobre a polêmica em torno das cotas exclusivas para negros no recrutamento de jovens pelas empresas, o reitor da UniPalmares defendeu as cotas raciais em programas de trainee. Disse que a criação de estágios para negros observada durante a sua geração já ficou ultrapassada. “A onda agora é construir postos de trainees, construir metas para inclusão de até 50% dos negros verticalmente em todas as empresas, é trazer essa diversidade para dentro, administrar essa diversidade como um diferencial competitivo importante e, sobretudo, olhar com muita atenção para um mercado importante e interessante que pode fazer a diferença na conquista de uma empresa”.  

Segundo ele, essa mudança começou dentro da estrutura do Estado e hoje se transforma em realidade não apenas no ambiente educacional, mas sobretudo no ambiente de trabalho. “Hoje, o jovem das áreas de economia, administração e contabilidade se não estiverem internalizados para dentro dessas mudanças estruturais e estruturantes que estão se dando em todos os espaços, mas sobretudo no espaço empresarial e social, ele vai se deparar com um mundo que ele desconhecia e que, por desconhecer, seguramente ele pode ter muitas dificuldades para ser bem-sucedido”. 

O reitor da UniPalmares chamou a atenção para o fato de não haver executivos negros nas grandes empresas brasileiras. “Somos uma república e um estado de direito em que nas 5 mil maiores empresas do país que praticam responsabilidade social, nós não temos negros no primeiro, no segundo e no terceiro escalões. Nem o senhor, nem eu conhece um presidente negro de uma grande empresa no país. E não conhece por um motivo muito simples: não existe”. 

José Vicente exortou os professores da FEA a assumirem o compromisso de transformarem essa realidade. “Estamos chegando a 14 milhões de desempregados, que têm endereço e têm cor. São a grande maioria de negros, mas são a grande maioria de brasileiros. É impossível que os nossos economistas e a nossa economia não tenha criatividade para produzir qualquer resultado diferente desse. Da mesma maneira, os nossos administradores de hoje e do futuro precisam compreender e ter a convicção inabalável de que esse problema é um problema dele, e que esse mundo só será melhor se ele fizer a parte que lhe compete”. 

O reitor da UniPalmares ressaltou que apenas o ambiente da educação é que pode fazer essa diferença. Além de defender o acesso amplo dos brasileiros à educação, pregou que “essa educação seja humanista, que respeite, valorize e prestigie a dedicação, o talento e o empenho, indistitamente de qualquer outra dimensão, sem qualquer tipo de valoração por raça, cor de pele, sexo, opção sexual, origem ou fundamentos religiosos”. 

José Vicente encerrou a Aula Magna com um recado aos futuros profissionais: “A nossa convocação é que sobretudo para esses novos e futuros dirigentes, dessa futura classe pensante, desses futuros profissionais que herdarão esse Brasil torto, equivocado, distorcido e cheio de iniquidades que nós até tentamos melhorar, tenham mais do que vontade e disposição. Tenham compromisso e a compreensão que vamos precisar do melhor economista, administrador, contador e cientista atuarial, mas vamos precisar sobretudo do melhor cidadão”. E finalizou: “Cidadão se faz com compromisso, com responsabilidade, com ética e alta capacidade de empatia e preocupação com o outro”. 

 

Gente da FEA - maio/2021

Autora: Cacilda  Luna

Data do Conteúdo: 
Sábado, 1 Maio, 2021

Departamento:

Sugira uma notícia