A Economia e a Heterogeneidade dos Impactos Socioeconômicos da Pandemia

Ao mesmo tempo em que há um grande interesse sobre os impactos socioeconômicos das medidas de isolamento e distanciamento social adotadas pelos vários governos ao redor do mundo, há muita incerteza sobre os desdobramentos econômicos da pandemia.

Trata-se de evento para o qual não há experiência similar na história recente da humanidade, o que limita bastante a utilização de métodos tradicionais de avaliação baseados em técnicas  estatísticas usadas em econometria, geralmente associadas a procedimentos de estimações de equações de forma reduzida. Tais procedimentos tornam-se inúteis para responder prontamente a problemas para os quais não há registro histórico, pois são idealizados, a rigor, para avaliação ex post de políticas. Somente algum tempo após o início da pandemia é que surgiram as primeiras tentativas para lidar com a avaliação ex post dos impactos econômicos da COVID-19, utilizando informações econômicas baseadas em séries temporais de alta frequência, disponíveis para um conjunto muito restrito de questões econômicas (por exemplo, mercados financeiros, comportamento familiar, receita de empresas e mercado de trabalho).

O que economistas de várias partes do mundo buscaram fazer, logo no início da pandemia, foi revisitar a caixa de ferramentas disponíveis e seguir estratégias de simulações com a aplicação de modelos estruturais das economias, adaptados para a avaliação ex ante de impacto da COVID-19 em sua fase inicial (curtíssimo prazo) em um contexto sistêmico. Em iniciativas em que conhecimentos profundos nas áreas de Geografia, História e Ciências Sociais se mostraram fundamentais, foi necessário reconhecer e quantificar os custos econômicos imediatos das medidas de controle, identificando a vulnerabilidade econômica de setores de atividade, regiões e diferentes grupos sociais, para se pensar em medidas de mitigação e estratégias para uma eventual retomada levando-se em conta os segmentos da sociedade mais vulneráveis. 1

Para simular e avaliar os impactos socioeconômicos imediatos da pandemia, seria necessário considerar a economia em questão como um sistema multissetorial e multirregional integrado, o que possibilitaria quantificar o “contágio econômico” dos efeitos do isolamento social sobre oferta e demanda de cada setor, bem como as implicações de mudanças comportamentais dos agentes econômicos, através de um intricado padrão de interdependência setorial e regional. A heterogeneidade dos impactos se revelaria, assim, em várias dimensões do mercado de trabalho, da estrutura das firmas e da alocação regional dos fatores de produção. Há trabalhadores e firmas mais vulneráveis do ponto de vista econômico – assim como há setores e regiões com
maior vulnerabilidade econômica à pandemia – de modo que o desenho de ações de mitigação deveria levar em consideração esta heterogeneidade.

No caso das informações epidemiológicas, que deveriam pautar as decisões imediatas de imposição de medidas de controle, o caráter parcial e fragmentado dos dados e das evidências nos estágios iniciais da pandemia acrescentou um descompasso temporal entre a disponibilidade de informações conclusivas sobre os efeitos e os processos têmporo-espaciais da pandemia, e o timing das ações necessárias para seu controle efetivo. Com informações imperfeitas, quase sempre as medidas iniciais tomadas por governantes estiveram associadas a um alto grau de incerteza. À medida que a pandemia vai evoluindo, evolui também o conhecimento científico a seu respeito, possibilitando o ajuste contínuo de ações de combate à crise. 

Neste contexto, pesquisadores do NEREUS têm contribuído com pesquisas de avaliação ex ante de impacto da COVID-19 em alguns países (e.g. Brasil, Colômbia e Marrocos), com respostas imediatas e ágeis às solicitações de governos nacionais e locais, graças a investimentos prévios por parte de agências de fomento à pesquisa que possibilitaram a formação de uma equipe de modelagem econômica altamente capacitada para responder a tais demandas de forma qualificada. A principal dificuldade no desenvolvimento destes trabalhos está ligada à luta contra o tempo. Não há muitos graus de liberdade para novos desenvolvimentos metodológicos. Trabalhar dentro dos limites do possível com as ferramentas de que se dispõem e adaptando-as de forma criativa é um grande desafio. Felizmente, há um estoque de conhecimento acumulado nos últimos anos que dá a segurança necessária para endereçar, da melhor forma possível, os problemas colocados, levando-se em consideração o estado da arte de cada área de conhecimento.

O caso do Plano São Paulo evidencia uma experiência concreta que revela a importância de planejar a retomada econômica de forma responsável, considerando a heterogeneidade dos impactos socioeconômicos da pandemia. Tendo os parâmetros da saúde como balizadores das decisões econômicas, estas sempre alinhadas e subordinadas às decisões da área da saúde (onde e quando flexibilizar), o Plano apresenta algumas características essenciais para o sucesso da retomada econômica, encontradas no desenho de planos de flexibilização em outras partes do mundo: (i) gradualismo, que leva em consideração fases pré-anunciadas e a heterogeneidade regional; (ii) transparência, com o uso de indicadores objetivos e de fácil compreensão para a sociedade que norteiam a passagem de uma fase para outra fase; e (iii) dinamismo, com um plano de gestão ágil que acompanhe efetivamente a evolução dos indicadores. Os pilares do Plano se completam com a necessária pactuação com a sociedade civil, para que haja aderência aos protocolos recomendados, além de um amplo programa de testagem, ainda em seus estágios iniciais. Contudo, a avaliação de seu acerto só poderá ser feita daqui a algum tempo. E os métodos tradicionais de avaliação ex post serão bastante úteis.


Prof. Dr. Eduardo Amaral Haddad
Departamento de Economia da FEAUSP

1 “Crisis Control: the Use of Simulations for Policy Decisionmaking”, Eduardo Haddad e Karina Bugarin, 24 de abril de 2020, https://www.policycenter.ma/publications/crisis-control-use-simulations-policy-decisionmaking


Gente da FEA - junho de 2020

Data do Conteúdo: 
Segunda-feira, 15 Junho, 2020

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