Diretor-presidente do BDMG, Sérgio Gusmão, defende novo papel do sistema financeiro na implementação da agenda sustentável e da equidade social

O diretor-presidente do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), Sérgio Gusmão, defendeu um novo papel do sistema financeiro na conjuntura socioeconômica global pós-pandemia, com o direcionamento de recursos para projetos de desenvolvimento que priorizem a agenda sustentável e a equidade social. Segundo ele, tanto a economia global quanto a sociedade mundial enfrentam “profundos desafios humanitários e climáticos decorrentes do modelo de desenvolvimento predatório em relação ao meio ambiente, e excludente em relação a grupos humanos”. Além disso, ele destacou que a situação foi agravada com a crise econômica e sanitária provocada pela pandemia.  

   Sérgio Gusmão
   Diretor-presidente do
   Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais

Bacharel em Direito pela USP com mestrado em Direito na Harvard Law School, nos EUA, e em Comércio Internacional, Economia e Ciências Políticas pelo Institut d´Études Politiques, de Paris, Sergio Gusmão foi um dos convidados do ciclo de conferências em comemoração aos 75 anos da FEAUSP, que teve como tema central “A Construção de uma Nova Era”. O executivo fez um relato histórico do sistema financeiro brasileiro desde o início do século 20 e falou sobre o novo papel das instituições financeiras frente aos desafios contemporâneos da economia global.

“O sistema financeiro pode e deve jogar seu papel central na transformação da economia, direcionando sobretudo sua liquidez mundial para materializar um novo projeto de desenvolvimento”, afirmou Gusmão. Segundo ele, “o sistema financeiro, ao selecionar projetos de investimento que irrigará com recursos, torna-se portador de futuro, podendo atuar como articulador das agendas de desenvolvimento sustentável e impulsionando os ganhos de equidade, sustentabilidade e produtividade, que podem pautar uma economia renovada”.

Sérgio Gusmão apontou “quatro desafios” aos quais o sistema financeiro deverá estar conectado ao desempenhar seu papel na mobilização de recursos para a construção de um novo futuro em bases mais sustentáveis e inclusivas. O primeiro desafio diz respeito a como lidar com os “impactos da digitalização” sobre uma larga gama de setores e indústrias, “movimento que integrado às mudanças demográficas recentes terá papel preponderante na dinâmica de crescimento econômico de longo prazo nas principais economias globais”.

Ele reconheceu que o crescimento dos ativos digitais e as novas formas de interligação financeira “exercerão pressões sobre o sistema monetário global, alterando de forma significativa o ambiente macrofinanceiro”. De acordo com o executivo, isso exigirá uma “postura atenta e modernizante” dos órgãos reguladores a fim de garantir a estabilidade dos mercados financeiros, ao mesmo tempo que abrirá oportunidades de democratização do acesso aos serviços. Gusmão disse que passos concretos nessa direção têm sido dados pelo Banco Central brasileiro por meio da Agenda BC+, com o open banking e o PIX.

O segundo desafio apontado pelo presidente do BDMG está ligado à sustentabilidade e às mudanças climáticas. Nesse campo, de acordo com ele, o sistema financeiro terá papel central na mobilização e canalização dos recursos públicos e privados para projetos alinhados à agenda sustentável, e também no desenvolvimento de metodologias e taxonomias de classificação dos ativos financeiros em ativos verdes e sustentáveis. Além disso, deverá atuar na gestão de riscos climáticos e socioambientais dos projetos financiados, e na implementação de estratégias de desinvestimentos em setores altamente poluentes com carbono intensivo.

 

Garantia de renda e trabalho decente

Outro papel do sistema financeiro nesta nova fase será lidar com as desigualdades estruturais e com o desafio de garantir renda e trabalho decente para o conjunto da população. Sérgio Gusmão citou dados de 2018 que indicam que as 26 pessoas mais ricas do mundo possuíam um volume de riquezas equivalente àquele retido pela metade da população mundial, ou seja, 3,8 bilhões de pessoas. “O sistema financeiro tem papel relevante nessa agenda ao ofertar crédito e assistência técnica para empreendedores individuais, micro e pequenas empresas, além do desenho de produtos específicos voltados a mulheres, pessoas negras e outros grupos subrepresentados na atividade econômica”.

Outra forma de atuação será apoiar o setor público na expansão da oferta de bens e serviços à população, não apenas no financiamento direto, mas na elaboração de projeto de qualidade com alto potencial de atração de recursos privados em áreas fundamentais como saneamento básico e iluminação pública. O sistema financeiro poderá, ainda, estimular “por condições diferenciadas de crédito a seus clientes, a adoção de práticas laborais decentes e ações de promoção de diversidade e inclusão no interior das empresas”, completou Gusmão.

Sobre a questão da distribuição de renda, o professor Simão Silber, da FEAUSP, que participou como um dos mediadores da palestra, acredita que é praticamente impossível se reverter a iniquidade social no mundo. “O problema da distribuição de renda é bem antigo. É um problema intratável e insolúvel. Não consigo imaginar alguma forma operacional para reduzir de maneira mais consistente a iniquidade que existe no planeta”.

Simão Silber disse que, desde que tiveram início no século 18 com a Revolução Industrial, os ganhos de produtividade foram mal distribuídos. E, na sua opinião, o que melhora o padrão de vida da população no planeta é o ganho de produtividade. O economista lembrou que o Brasil tem a 7ª pior distribuição de renda do mundo, de acordo com o Índice de Gini. “Com relação à iniquidade, o papel do Estado é importante porque ele tem que prover a saúde, a educação e o saneamento. O Estado no papel de empresário não funciona, seu papel é fazer políticas sociais”.  

O último desafio apontado por Sérgio Gusmão na proposta de renovação da economia está relacionado aos efeitos da pandemia. Segundo ele, um importante relatório das instituições ligadas à ONU, publicado em setembro último, avalia os impactos da crise sobre os indicadores de desenvolvimento humano do país e a vulnerabilidade dos Estados brasileiros. “Talvez a principal mensagem do relatório é que, se por um lado a pandemia exacerbou fragilidades do nosso poder de desenvolvimento como a desigualdade, por outro lado ela abre caminho para oportunidades de repensarmos esse modelo e organizarmos uma recuperação em outras bases alinhadas com os desafios anteriores”. 

 

Mensagem aos alunos da FEA

   Aula Magna "O Sistema Financeiro na Construção de uma nova Era"

Em uma mensagem especial aos alunos da FEAUSP, o diretor-presidente do BDMG Sérgio Gusmão disse que o sistema financeiro, que já foi parte do problema, como é possível se verificar na crise mundial de 2008, “agora é parte integrante das soluções para os desafios apontados”. Como exemplo, ele citou a COP26 (26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática), que será realizada a partir de 31 de outubro, em Glasgow, na Escócia, que “terá nas finanças verdes um dos focos de suas negociações”. E finalizou: “Estaremos lá, buscando consensos e alternativas para o financiamento da transição econômica brasileira e global rumo ao padrão menos carbono intensivo e mais inclusivo”.

O professor Jacques Marcovitch, da FEAUSP, encerrou o evento fazendo referências às falas do palestrante. Sobre os quatro desafios apontados por Gusmão para que o Brasil possa avançar em direção ao futuro, Marcovitch ressaltou que esses desafios “exigem a plena mobilização de todas as gerações e de todas as instituições que integram essas gerações”. E acrescentou: “Estamos aqui diante de um desafio de não só enfrentar essas adversidades, de mitigar riscos, mas também de superar os gargalos”.

A aula na íntegra pode ser conferida no site https://www.fea75anos.fea.usp.br/

Gente da FEA - outubro de 2021

Autora: Cacilda Luna

Data do Conteúdo: 
Terça-feira, 19 Outubro, 2021

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