Deputada Tabata Amaral debate sobre educação e política

Por Pedro Ferreira

 

O grupo de Estudos de Política em Pauta da USP (EPEP USP) é uma entidade estudantil, formada por alunos da Universidade de São Paulo a fim de promover o debate e a igualdade, com objetivo de formar lideranças e conhecimento. A EPEP realiza debates transmitidos em seu canal do YouTube e um dos eventos aconteceu no dia 10 de Maio. A conversa contou com a colaboração de grupos de estudos políticos da UFMG e da FGV e a participação da cientista política, astrofísica, deputada federal e ativista pela educação Tabata Amaral.

Ela é cofundadora do Movimento Mapa Educação e do Movimento Acredito e foi da periferia de São Paulo até Harvard, no caminho conquistou medalhas em olimpíadas do conhecimento. Em 2018, foi eleita com mais de 260 mil votos para o Congresso, e seu discurso crítico ao Ministro da Educação Ricardo Vélez e seu voto a favor da Reforma da Previdência foram alvo de muita repercussão. 

A primeira pergunta foi acerca das mudanças necessárias para transformar a educação pública brasileira. A deputada disse que não se via na política, por não se identificar com a forma de fazer política a qual estava acostumada. Os anos de ativismo na educação, fizeram com que ela percebesse que para acontecer uma mudança efetiva na educação é necessário que a política mude, o que fez com ela entrasse para a área. Ela aponta que debater educação é complicado e quando acontece, pode enfrentar desafios por parte do governo. Ela também pontua a falta de um debate profundo e complexo sobre o assunto em um mundo tão polarizado. 

Em seguida a deputada debateu sobre como a descrença com o ambiente político e o pouco incentivo afastam as pessoas da área. Ela acredita que muito desse desinteresse é acarretado pela falta de educação política no ensino básico, que ela pretende um dia implementar, e exemplifica com as manifestações em 2013. “A população foi às ruas a partir de 2013 para dizer que aquela política não os representava. Foi às ruas para dizer o que não gostava e não daquilo que gostava”, expôs a deputada e ainda traça que essa falta de preparo acabou levando para um caminho autoritário e de falsas esperanças do bolsonarismo.

Ainda sobre Bolsonaro, ela fala sobre impeachment e CPI da Covid. Tabata acredita que falta maior apoio da população para tirar o presidente do poder, por ter pessoas que ainda flertam com o que ele representa. Sobre a CPI, ela discorre que os efeitos da covid poderiam ser menores com uma boa condução da crise, portanto ela espera que a CPI puna os culpados e dê um basta para o que tem acontecido, para que o governo não consiga se esquivar dessa responsabilidade. 

As eleições de 2022 também foram pauta e o enfrentamento ao bolsonarismo não ficou de fora. Tabata defende que o oponente principal é o Bolsonaro, pois ele representa um risco à democracia, que é uma de suas lutas. Ela ainda falou sobre uma possível frente ampla da esquerda e declarou que apoia e vota naquilo que se propõe contra o presidente, mas que é preciso trabalhar para não ocorrer uma polarização como em 2018, que ocasionou no resultado das eleições. Ela comenta a importância da terceira via e diz que não adianta recorrer a antigas soluções sem um projeto que combata a corrupção e a desigualdade. 

Questionada sobre a retraída da esquerda e como ela pode se reconstruir, a deputada defende que o antipetismo acaba recaindo sobre a esquerda. Isso, segundo Tabata Amaral, é porque o PT não trabalhou efetivamente no combate à corrupção, não apresentando novas práticas e novas lideranças. Sobre a reconstrução da esquerda brasileira, ela acredita que um diálogo menos acadêmico e que abranja mais a população, assim como o aumento da representatividade pode ser o caminho. “A esquerda tem um diálogo muito único que acaba afastando pessoas com vivências e pensamentos diferentes. A solução é levar mais gente para política, para ter uma política mais a cara do Brasil, isso não só pra esquerda, mas pro centro e pra direita também” completa. 

 

A cientista política ressalta a importância da representatividade e discorda da opinião dada no debate anterior da EPEP da também deputada Janaina Paschoal. Ela afirma que representatividade importa substancialmente, já que a política é majoritariamente branca e masculina, o que acaba tornando-a em um cenário machista e que omite pautas que fujam desse meio. Ela defende que uma política mais diversa e plural é mais produtiva, no sentido de produzir boas políticas públicas para sua população. Ela acredita que por si só, representatividade não resolve todos os problemas, mas permite um avanço.

Tabata ainda defende que quer mulheres em geral na política, pois elas vão contribuir para mudanças. Ela defende a reserva de vagas e incentivos financeiros, como bônus de fundo eleitoral, para partidos que elegerem mais mulheres, como forma de promover e aumentar a participação desse grupo na política, porque as mulheres têm o mesmo interesse político que os homens.

No debate ela também se posicionou contra as candidaturas avulsas, por enxergar que os partidos são a forma de organização democrática, mas questiona o quanto eles representam a população e fortalecem a democracia. Dessa forma ela defende que os partidos precisam de uma reforma e que sejam mais democráticos. Ela ainda comentou sobre seus afastamento do Partido Democratico Trabalhista em razão do seu voto a favor da reforma da previdência. Ela relata que em julho de 2019, se deparou com machismo, autoritarismo e uma pressão do partido em votar contra a reforma. Ela também comentou sobre os problemas enfrentados com Ciro Gomes e as dificuldades que sente no congresso sem o apoio partidário.

Antes de finalizar, o debate foi aberto ao público. Uma das perguntas foi sobre se os conceitos de esquerda e direita estariam ultrapassados. Tabata defende que são termos importantes e existe uma diferença: quem se coloca na esquerda privilegia o combate à desigualdade enquanto na direita privilegia-se o desenvolvimento e liberdade, a forma como você se coloca nesse espectro mostra do que você está disposto a abrir mão. Entanto ela acredita que são ineficazes em explicar o todo, e a complexidade das coisas. “São importantes, mas são insuficientes", aponta. 

A segunda pergunta foi sobre a possível frente ampla e as concessões necessárias para sua formação. A deputada diz não saber quem são as pessoas que estarão ali na frente discutindo, mas que deve estar unido no projeto democratico. O combate a corrupção, a fome, a pobreza e a permanência da Bolsa Família devem ser objetivos comuns, mas questionam se os líderes topariam. 

Por fim é questionada sobre uma passagem de seu primeiro livro “Nosso Lugar: o caminho que me levou à luta por mais mulheres na política”, que diz “O que aprendi é que a sociedade, em um país tão desigual como o nosso, quando não tira a vida, vai tirando de alguns de nós a capacidade de sonhar”. Tabata diz que foram percepções que teve durante sua trajetória. Criada na periferia, ela conta que perdeu o pai com 39 anos para as drogas e viu vários meninos que cuidavam dela serem assassinados, assim como várias mulheres, transexuais e jovens negros perifericos, e aqueles que não perderam suas vidas, acabaram perdendo suas esperanças e sonhos. 

O debate foi transmitido ao vivo pelo YouTube e encontra-se disponível no Youtube da entidade.




 

Data do Conteúdo: 
Terça-feira, 1 Junho, 2021

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