Carlos Henrique de Brito Cruz diz que epidemia aumentou holofotes sobre a ciência

Com a expansão mundial da pandemia de Covid-19 e a expectativa de desenvolvimento de vacinas contra o vírus, a ciência começou a atrair holofotes da mídia e passou a ter um novo olhar da sociedade. Se por um lado a valorização da ciência traz estímulos para novos investimentos em pesquisa por parte do governo e da iniciativa privada, por outro a aproximação da ciência com a política pode ter um efeito indesejado. Isso porque a apropriação do discurso científico por lideranças políticas fez com que muitos cidadãos opositores a essas figuras acabassem aderindo a narrativas negacionistas.     

  Carlos Henrique de Brito Cruz
  Ex-presidente da Fapesp e ex-reitor da Unicamp

 

A análise foi feita pelo professor Carlos Henrique de Brito Cruz, ex-presidente da Fapesp e ex-reitor da Unicamp, durante a aula magna “A ciência na construção de uma Nova Era”, em comemoração aos 75 anos da FEAUSP. O cientista trouxe algumas manchetes para comentar que, apesar do aumento da atenção recebida, a ciência corre o risco de sofrer novas ofensivas devido à aproximação com a política.

Formado em Engenharia Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e com mestrado e doutorado em Física pela Unicamp, Carlos Henrique de Brito Cruz é uma grande referência brasileira em evolução da ciência. Durante a transmissão da palestra pela internet, houve discussões sobre o impacto da ciência e seus custos e benefícios, além de como a pandemia contribuiu para a valorização dos cientistas.

O ex-presidente da Fapesp destacou os benefícios que um sistema de Ciência e Tecnologia pode trazer a um país. Para Brito Cruz, a ciência causa três tipos de impacto: intelectual, por meio de ideias que podem expandir o conhecimento sobre o mundo; social, com ideias que podem aumentar o bem-estar e orientar políticas públicas; e econômico, com a criação de novas oportunidades de gerar lucro.

“O Brasil é o único país do mundo com mais de 40 milhões de habitantes que chega a ter mais de 47% de sua energia total vinda de fontes renováveis”, exemplificou o professor ao se referir aos benefícios que o sistema de ciência e tecnologia brasileiro proporciona.

Brito Cruz comentou sobre o processo de escolha de financiamentos de projetos e trabalhos científicos dentro do sistema, que abrange universidades, institutos, empresas e o governo. Para ele, é necessário a busca por um equilíbrio entre o custeio de projetos que tragam alto impacto intelectual, e que podem ser essenciais para a resolução de problemas futuros, com os que oferecem descobertas com aplicações práticas e impactos econômicos e sociais.

Durante a aula, também foi apresentado um panorama sobre os cenários dos sistemas de Ciência e Tecnologia de diferentes países. O professor comentou que, em países desenvolvidos, há uma presença maior de produção científica nas empresas e um investimento maior do governo. No Brasil, segundo dados de 2020 da Fapesp, o Estado de São Paulo possui porcentagem similar a dos Estados Unidos no que se refere a empresas que financiam universidades (5,2%). Porém 7,6% das empresas paulistas recebem recursos do governo, enquanto as estadunidenses recebem 6%. “Nos EUA usam outros instrumentos que não são subsídios explícitos e que talvez ajudem muito mais as empresas a terem domínio tecnológico”, argumentou.

Por fim, foram apresentados dois dos principais desafios brasileiros para os próximos anos: aumentar o número de pesquisadores e de pesquisadores que atuam em empresas. Segundo os dados da pesquisa, o país tem 1.756 pesquisadores a cada um milhão de trabalhadores, sendo que apenas 27% estão em empresas. “Para a Nova Era, a questão [dos agentes envolvidos no sistema] articularem, conversarem e colaborarem é essencial para que consigamos que a ciência e a tecnologia tragam mais benefícios para a sociedade brasileira”, concluiu o professor.

  Aula Magna FEA 75 anos:
  "Carlos Henrique de Brito Cruz, ex-presidente da Fapesp e ex-reitor da Unicamp"

O Prof. Dr. Jacques Marcovitch fez suas considerações com um breve panorama dos pontos apresentados durante a aula. Ele destacou a importância de tornar a ciência palpável para a população brasileira e aproveitar a valorização da ciência nos últimos tempos, como forma de combater o negacionismo e aproximar os contribuintes dos resultados do investimento científico. Para o professor, a FEA tem contribuído com a construção do futuro através do grande papel de produzir conhecimento sobre a economia e a gestão de Ciência, Tecnologia e Inovação.

A aula na íntegra pode ser conferida no site https://www.fea75anos.fea.usp.br/

Gente da FEA - outubro de 2021

Autor: Pedro Ferreira

 

Data do Conteúdo: 
Terça-feira, 19 Outubro, 2021

Departamento:

Sugira uma notícia