Bastidores das aulas a distância

Desde o dia 16 de março, o governo de São Paulo suspendeu gradualmente as aulas de ensino fundamental e superior. Na Universidade de São Paulo, as atividades presenciais começaram a ser suspensas no dia 17 e a FEA se preparou para enfrentar esse cenário.

Estudantes, professores e funcionários continuariam a realizar suas tarefas de forma remota, de casa. E para que isso ocorresse de forma eficaz, muitos profissionais da faculdade tiveram de colocar diversas medidas em prática em pouquíssimo tempo. 

Três docentes da FEA, Prof. Edgard Cornacchione, do departamento de Contabilidade e Atuária, as professoras Adriana Back Noronha e Rosana Tavares, ambas do departamento de Administração, Valéria Lourenção, Assistente Acadêmica da FEA, e o chefe da Seção Técnica de Informática (STI), Luiz Eduardo Iadocicco, concederam entrevistas para contar dessa mudança repentina na rotina das aulas e como foi feita essa transformação. 

Planejamento administrativo

Valéria Lourenção apontou os principais detalhes no período pré-virtualização. Ela diz que o planejamento foi pensado pela Diretoria da faculdade e teve início nas duas semanas que antecederam a suspensão definitiva das aulas.

A assistente afirma que o diretor da FEA, Fábio Frezatti e o vice-diretor, José Afonso Mazzon, realizam reuniões e acompanhamento com os chefes responsáveis pela graduação e pós-graduação, bem como com outros docentes em cargo de gestão e com os assistentes que assessoram a diretoria.

Além disso, a diretoria compôs uma comissão para definição de diretrizes e apoio ao planejamento de continuidade das aulas online. Juntamente com o diretor e vice-diretor, a comissão foi composta pelos outros quatro entrevistados desta matéria. A equipe tratou das questões pedagógicas, tecnológicas e foi responsável pela negociação das licenças do Zoom, que incluiu a  organização e distribuição das licenças e implementação do processo na Faculdade.
 
Transformação técnica
 

 Luiz Eduardo Iadocicco
 STI FEAUSP

Luiz Eduardo Iadocicco já havia tido uma experiência anterior com ferramentas de ensino remoto. “Faz parte da Seção Técnica de Informática o Laboratório de Aprendizagem e Ensino (LAE), cuja principal atribuição é trabalhar com a temática de tecnologias aplicadas na educação, possibilitando interação entre professores, alunos e de graduação e pós-graduação por meio do Moodle” explica o profissional.

Para as aulas, a FEA adotou o software Zoom para ministrá-las. Na primeira semana, houve a necessidade de adaptação de toda comunidade com o software, mas de acordo com Luiz, esta etapa já foi superada. E caso os funcionários tenham alguma dúvida, qualquer um pode entrar em contato através dos canais oficiais, seja telefone, sistema de chamados ou e-mail.

Luiz contou uma das formas de ajuda dadas aos profissionais da FEA: “com objetivo de dar suporte às atividades de ensino e auxiliar a comunidade no esclarecimento das dúvidas, uma equipe composta por mim e pelos funcionários Fabiano Carlos Ruel (STI-STSP), Jonas Lui Reinhardt (STI-STR) e Andrea Ximenes (STI-LAE) foi criada para desenvolver os tutoriais de como usar o Zoom que atualmente estão disponíveis na página da FEA”.

Luiz compartilhou o link do tutorial de como utilizar a ferramenta Zoom: https://www.fea.usp.br/fea/sti/tutoriais/zoom. Com relação ao Moodle, os tutoriais já haviam sido produzidos e disponibilizados pelo STI-LAE. O técnico também disponibilizou através do endereço https://www.fea.usp.br/fea/sti/laboratorio-de-aprendizagem-e-ensino/Moodle.

Apesar de sentir saudades de encontrar com as pessoas no ambiente de trabalho, Luiz destaca como um fator bom não ter que encarar trânsito todos os dias, além de sentir que melhorou sua alimentação.

A visão dos docentes
 

 Profa. Adriana Backx
 

Primeiro ponto destacado pelos professores foi: não é certo generalizar como um momento de Ensino a Distância, o popular EAD. “É importante diferenciar o ensino remoto da educação a distância” começa a explicar a docente Adriana Backx.

Basicamente, de acordo com a professora, o ensino remoto considera que as atividades presenciais, como as aulas, são reportadas para o processo a distância e síncrono. Edgard deixa claro que há “múltiplas interpretações do termo EAD”, enquanto Rosana destaca: “a situação atual não é EAD. Estamos utilizando as ferramentas de internet para apresentar o conteúdo de aulas”. 

Num primeiro momento, quando foi decretado a suspensão das aulas, já havia um planejamento mais geral da FEA para os professores. Adriana conta sobre um que estava em andamento, ainda antes da pandemia e que não tinha relação com a pandemia.

Um ensino híbrido de presencial com virtual, conhecido como Blended Learning, vem em desenvolvimento na FEA, com a utilização do e-disciplinas, mais especificamente do Moodle. “O ensino híbrido utiliza das tecnologias educacionais, principalmente dos ambientes virtuais de aprendizagem e consideram encontros presenciais, para desenvolvimento de atividades, sendo que ambos os processos se complementam”, explica a docente. 
 

 Prof. Edgard
  Cornacchione
 

Mesmo assim, foi preciso uma rápida adaptação dos professores. Edgard lembra que logo no início da transição estavam sendo dadas orientações. “Os professores foram sendo agregados naturalmente no processo. Houve reuniões e capacitações. Muito rapidamente a unidade disponibilizou um plano”. 

Durante essa transição, alguns funcionários tiveram mais facilidade que outros, como no caso dos três entrevistados, que já tinham experiência com essa tecnologia. Mas, mesmo os que não tiveram contato no passado, puderam contar com auxílio dos profissionais da FEA. 

Adriana vê como um o ponto principal essa contribuição de quem já tinha conhecimento da área: “a ajuda da Andrea Ximenes (LAE/STI), com a utilização do Moodle (diversas ferramentas e metodologias) e desenvolvimento de vídeo-aulas, e do Luiz Iadocicco no contexto da infraestrutura para utilização do Zoom e outras atividades foram fundamentais”. E Rosana ainda destaca “Não teria sido possível sem as orientações e ajuda da STI e dos professores já experientes com essas ferramentas de internet”.

Apesar de todo auxílio, existem certas dificuldades da transformação do ensino presencial para um ensino remoto, que foram enfrentadas e estão sendo superadas.
 

 Profa. Rosana Tavares

Adriana destacou que existem desafios para aplicar teorias do EAD à realidade prática; é preciso uma mudança na cultura e uma infraestrutura física e tecnológica para tornar isso possível.
Mas, mesmo com esses problemas, Edgard olhou de uma forma mais positiva, afirmando que a experiência coletiva da faculdade ajudou a realizar essa transição. “A FEA é uma unidade que há tempos vêm refletindo sobre educação, que procurou refletir sobre como essas tecnologias, como o processo de educação, como esses elementos de avanço poderiam ser desafios e  oportunidades”, explicou. 

Também ocorreu preocupações quanto aos métodos avaliativos. Os professores da FEA tiveram liberdade de abordar da forma que achassem mais eficaz. Adriana acredita que seria melhor seguir um caminho de processo formativo, o qual o processo de ensino-aprendizagem deveria ser mais considerado. “Sem a utilização de avaliação formativa e apenas considerar avaliação somativa, o processo de avaliação na educação a distância pode ficar prejudicado” conta a docente. 

 Edgard também não enxerga o método somativo como o mais adequado. De acordo com o professor, ele respeita o modelo de provas, que pede dados, fatos e regras, mas há a necessidade de rever isso. “Uma coisa é desenvolver nossa capacidade cognitiva e usar ferramentas de avaliação que tem determinados rigores de cobrança que fomentam esse desenvolvimento. Outra é fazer isso por fazer, sem conhecimento de outras alternativas” justifica o docente.

E pensando a longo prazo, os professores crêem que existem grandes chances de o ensino não voltar a ser como antes, pelo menos não no curto prazo. Mesmo não retornado à forma antiga, Rosana vê como ponto positivo o fato de os professores terem um pouco mais de tempo para preparar a adaptação do conteúdo do próximo semestre, sem a pressão imediata que a pandemia trouxe. Os outros dois buscam ver mais possibilidades de mudanças efetivas. 

Edgard acredita que a educação está avançando: “nós estamos vivendo uma mudança sob pressão. Eu entendo que coletivamente devemos aprender com essa situação”. Ele explica que, para diferentes objetivos de aprendizagem, diferentes metas educacionais serão alcançadas. “Não há apenas uma solução única”, se referindo ao ensino presencial. Adriana segue uma linha

   Aula online da Profa. Liliana Vasconcellos
   do Dep. de Administração - FEAUSP

parecida, reforçando o ensino híbrido.
 

A professora diz que o futuro é ter um conhecimento amplo do processo de ensino-aprendizagem para o mundo digital, dentro do contexto do ensino híbrido. “Desenvolver habilidades e conhecimentos para estruturar cursos dentro do contexto de educação a distância ou ainda utilizando as tecnologias educacionais digitais é fundamental e, portanto, dará sustentabilidade para as aulas a distância”, disse. No entanto, ela alerta que isso deve ser feito com muito planejamento e utilizando-se das estratégias certas. “Penso que essa experiência se bem conduzida poderá ser um caminho sem volta para o totalmente presencial” conclui Adriana.


Autor: César Costa
Gente da FEA - junho de 2020

Data do Conteúdo: 
Segunda-feira, 15 Junho, 2020

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