Alice Piffer Canabrava

Foto da professora Alice Canabrava

Alice Piffer Canabrava foi uma mulher de fibra. Ainda menina, rompera com os preceitos recomendados às garotas de sua época. Na maturidade, superou as barreiras do machismo vigente e tornou-se a primeira professora catedrática da Universidade de São Paulo (USP). Foi também diretora da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas (FCEA – hoje, FEA) entre 1954 e 1957. Já aposentada, ascendeu aos títulos de Professora Emérita da Faculdade e sócia honorária da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica (ABPHE).

Alice nasceu em Araras, interior de São Paulo, em 1911. Destemida, após completar os estudos primários nessa cidade, transferiu-se, acompanhada da irmã, para a capital do estado, onde cursou o ginásio como interna do Colégio Stafford e a Escola Normal Caetano de Campos, a conhecida escola da Praça da República.

Após a experiência na cidade grande, regressou ao interior e dedicou-se durante quatro anos ao magistério público primário. A atividade era louvável, porém a privava de seus maiores desejos: realizar estudos em São Paulo e ampliar seus horizontes culturais.

Em 1935, chegou à recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo beneficiada por uma bolsa de estudos oferecida pelo governo do estado aos professores do magistério oficial aprovados em concurso. Deste modo, entre 1935 e 1937, Alice freqüentou os cursos de Geografia e História, dando um novo impulso à sua vida profissional.

No ano de 1942, já na condição de assistente da cadeira de História da América, Alice defendeu sua tese de doutoramento “O comércio português no Rio da Prata”. Tal estudo, elogiado não só no país como no exterior, é considerado pioneiro entre as pesquisas tipicamente acadêmicas em História Econômica do Brasil.

O sucesso desse trabalho habilitou-a a se candidatar à vaga de titular da cadeira de História da América em concurso de 1946. Com a tese “A indústria do açúcar nas ilhas inglesas e francesas das Antilhas, 1696-1755”, inscrita para o concurso, conquistou a livre-docência, mas a cátedra não. Alice foi superada por seu concorrente que já vinha ministrando o curso como professor contratado. Inconformada, uma vez que obteve média mais alta no conjunto das provas, considerou o resultado discriminatório e preconceituoso. E assim, deixou a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.

Para sua sorte, nesse mesmo ano de 1946, inaugurava-se, no âmbito da USP, a Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas. Alice não teve dificuldades para então solicitar ao reitor sua transferência. Desse modo, ingressou na FCEA onde passou a integrar o corpo de pesquisadores do Instituto de Administração (IA). Mais tarde, com a criação da cadeira de História Econômica Geral e Formação Econômica do Brasil, passou a lecionar como professora regente. Finalmente, em 1951, através de concurso de provas e títulos, tornou-se titular dessa cadeira, convertendo-se na primeira professora catedrática da Universidade de São Paulo.

Instalada, passou a ocupar na FCEA importantes cargos: foi diretora entre 1954 e 1957, e como tal, membro do Conselho Universitário; chefe de Departamento de Ciências Culturais de 1960 a 1969; presidente do Conselho Curador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE); membro do Conselho Deliberativo do Instituto de Pesquisas Econômicas (IPE) entre 1966 e 1970; e do Conselho Curador da FIPE por duas ocasiões entre 1974 a 77 e 1980 a 81.

Foi ainda uma das fundadoras da ANPUH (de início Associação Nacional dos Professores Universitários de História, hoje Associação Nacional de História) e da Revista Brasileira de História.

A professora Alice se aposentou em 1981, tendo completado mais de 50 anos de dedicação ao ensino público primário, secundário e superior. Mas isso não a afastou da Universidade. Seguiu desenvolvendo seus projetos de pesquisa histórica, diretriz que a impulsionou profissionalmente desde a licenciatura em 1937.

Em 1986, foi eleita, pelo voto dos colegas de Departamento e da Congregação, Professora Emérita da Universidade de São Paulo.

Também foi homenageada como sócia honorária da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica, ABPHE, praticamente desde sua criação em setembro de 1993.