Novas visões e possibilidades na II Semana de Economia

Por Bruna Arimathea e Ingrid Luiza

Para aprofundar a discussão sobre o curso de Economia e levantar novas visões a respeito das diversas áreas de atuação, o Centro Acadêmico Visconde de Cairu (CAVC) promoveu, de 9 a 11 de outubro, a II Semana da Economia, realizada na FEAUSP. O evento teve três encontros que abordaram diferentes vertentes do curso e proporcionou uma oportunidade para os alunos de terem contato com professores, pesquisadores e com outros alunos.

A Semana, que teve sua primeira edição no ano passado, é uma tentativa de trazer um espaço para a discussão do curso, da FEA e da realidade brasileira para o cotidiano do aluno. Para Manuela Magalhães, uma das organizadoras, a importância de aprofundar a visão sobre a graduação está no conhecimento das diversas opções que ela oferece: “Na FEA, encontramos um ambiente ainda bastante plural, no qual os alunos conseguem ter contato com muitas áreas da Economia, o que não acontece em todas as faculdades. Aprofundar a visão sobre o curso é essencial para que os alunos possam desenvolver um espírito crítico sobre o ensino de Economia e compreender as diferentes escolas de pensamento existentes na Ciência Econômica.”

Além da Manuela, a organização contou com o apoio de diversos alunos, Rodrigo Alonso, Fernanda Correa, Heloísa de Paula, Felipe Leite e Julia Kopf.

Economia Comportamental

Assunto muito discutido ultimamente, ainda mais após o economista Richard Thaler, estudioso da área, ter ganhado o prêmio Nobel de economia em 2017, Economia Comportamental é um campo que cresce internacionalmente. A abertura da II Semana de Economia contou com a professora Ana Maria Bianchi (FEAUSP) e com Roberta Muramatsu (MPECON – Mackenzie) falando sobre o tema, no dia 9 de outubro, na FEAUSP.

Ana Maria Bianchi explicou que, em sua origem, a Economia Comportamental é inspirada na psicologia cognitiva, e, atualmente, faz parte das ciências comportamentais. Um de seus aspectos mais importantes é a dimensão de ciência aplicada muito presente, servindo para orientar políticas públicas, governamentais e outras. A professora Roberta Muramatsu justificou a incorporação da psicologia à análise econômica, afirmando que é válido investir em estratégias de formulação de políticas públicas baseadas em como o ser humano realmente pode agir, não em pressupostos “simplistas” sobre as escolhas humanas. Para ela, muitos ditos econômicos não levam em conta a interferência do contexto, a ação impulsiva da população, e isso muda os rumos que a economia pode tomar. A professora citou a criação, pelo presidente dos EUA Barack Obama, em setembro de 2015, do Social and Behavioral Sciences Team (SBST), um grupo de pesquisadores preocupados com a ineficácia de políticas públicas inspiradas em modelos que não são reais, subestimando efeitos de contexto e outros pontos relevantes para as ações humanas. O governo desenhou esse grupo com o objetivo de levar em conta características comportamentais, não apenas na economia, mas em tudo que a subjetividade possa interferir.

Relacionando psicologia com análise econômica, para entender a economia comportamental é essencial entender um pouco sobre o funcionamento do cérebro humano. Roberta Matsumoto cita o teórico Daniel Kahneman para afirmar que nosso cérebro evoluiu com dois tipos de processamento: o sistema 1, chamado de emocional, automático, que é responsável por respostas rápidas; e o sistema 2, cognitivo, reflexivo, que demora mais para responder, mas o faz com uma análise maior. Bianchi ressalta que a economia tradicional trabalha através de políticas regulatórias, baseando-se geralmente em preço, oferecendo propostas e subsídios, isenção de impostos, sempre lidando com externalidades e com o uso do sistema 2; já a economia comportamental lida com internalidades, vieses do pensamento, contexto de escolhas, e está associada ao sistema 1. Entendendo melhor como nosso cérebro funciona, pode-se aplicar medidas mais efetivas na economia.

Um dos principais meios de ação da economia comportamental são os chamados nudges, pequenos estímulos, intervenções que podem promover mudanças de comportamento, explica Ana Maria Bianchi. O objetivo de muitos nudges é tornar a vida mais simples, segura e fácil. Um exemplo simples é o da seta na direção de uma escada comum, mesmo tendo uma escada rolante ao lado. Cada pessoa pode escolher a forma como vai subir, mas o pequeno estímulo para que se suba pela escada normal está lá, procurando contribuir para o bem-estar. O governo emprega nudges quando usa alertas sobre os perigos do cigarro nas próprias embalagens do produto, por exemplo. A professora explicou que isso está relacionado ao que chamam de “paternalismo libertário”, ou seja, um paternalismo que norteia a população a se comportar de determinada forma, a tomar certa atitude, mas não impõe nada, não subtrai a liberdade de escolha dos indivíduos.

Ana Maria Bianchi também ressaltou que esses conhecimentos podem ser usados para diversos fins; estudiosos do marketing estão utilizando elementos da economia comportamental para tentar intensificar vendas, mas esse não é o objetivo primordial dessas informações. Quando se fala na aplicação em políticas públicas, o real objetivo é a busca por melhorias para a sociedade como um todo.

Possibilidades de curso e pluralidade no ensino

O segundo dia da Semana de Economia tratou sobre a interação entre as diferentes faculdades de Economia, principalmente de São Paulo. Com a presença de entidades diversas, como CACE - UFABC, CA Leão XIII - FEA PUC, CAVC - FEA USP, Diretório Acadêmico Insper, e FENECO - Federação Nacional dos Estudantes de Economia, a discussão ilustrou bem o que cada formação pode trazer ao aluno e como as diferentes formas de abordar a graduação se completam no mercado de trabalho.

Segundo Manuela Magalhães, do Centro Acadêmico Visconde de Cairu, “eventos como esse são fundamentais para que os alunos conheçam mais das outras faculdades e do que pensam as demais organizações estudantis. O diálogo entre alunos é imprescindível para que se possa pensar em um ensino de Economia que abranja as diferentes demandas. Além disso, é muito interessante para poder conhecer mais do perfil do estudante de Economia, entender quais as semelhanças entre eles, assim como entender quais as diferenças entre os vários centros de ensino de Economia.”

História Econômica Brasileira

Seman_historia econômica

No terceiro dia da II Semana da Economia, os professores Alexandre Saes e Guilherme Grandi abriram uma série de encontros, que acontecerá todas as quartas-feiras,  em comemoração aos 25 anos da ABPHE – Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica. O projeto  a troca de conhecimentos sobre  o que os professores estão produzindo nessa área.“Esse esforço é bem-vindo, porque mostra o que estamos produzindo”, afirma o professor Alexandre Saes ao comentar que a área da História Econômica possui temas muito variados, como os setores da agricultura ou da indústria, e que precisa ser mais bem trabalhado no meio acadêmico.

A História Econômica faz parte do estudo da Economia, porém não é muito difundida no país, pois ainda há a visão de que o método econômico precisaria ser quantitativo ou se valer da econometria. Assim, essa área de estudos, que encontra em países como Estados Unidos e Inglaterra um grande apelo nos seus estudos, no Brasil ainda vê poucas iniciativas na produção, em relação a outras áreas da Economia.

Dividindo o estudo da História Econômica em gerações -  pioneiros, os primeiros trabalhos de pesquisa, que se caracterizam pela contribuição importante para a formação do assunto; pesquisas da pós-graduação, movimento posterior que questiona interpretações presentes nas grandes sínteses; e uma possível geração que se apresenta hoje, sendo a produção atual realizada em modelos mais modernos de pesquisa -  os professores levantaram o questionamento sobre o que a atual geração poderia mudar nesse aspecto, e se os pesquisadores de hoje são, realmente, relevantes para caracterizar uma nova leva de trabalhos.

Balanço

Manuela Magalhães acredita que os debates foram de grande aprendizado para os alunos e ressalta a relevância de se ter esse tipo de discussão dentro da faculdade: “espero que os alunos saiam do evento como sujeitos com uma maior facilidade em elaborar suas demandas, podendo, a partir do que conhecem dos outros cursos, identificar o que acham que deveria ser diferente em suas próprias faculdades e universidades, assim como valorizar os pontos que consideram positivos.”

Data do Conteúdo: 
quarta-feira, 1 Novembro, 2017

Departamento:

Sugira uma notícia