Encontro Internacional - Democracias de Alta Densidade: Índia e Brasil
Debate sobre democracia aproxima Brasil e Índia na USP
Rodrigo Dias Gomes
O IEA (Instituto de Estudos Avançados da USP) recebeu, na última terça-feira, dia 26 de junho, professores indianos e expositores de outras universidades brasileiras para o encontro internacional denominado "Democracias de Alta Densidade: Índia e Brasil". O debate comparou questões históricas e contemporâneas dos dois países, expoentes de destaque no grupo dos chamados países emergentes.
O encontro contou com exposições de temas referentes ao passado de ambos os países e o processo de democratização, além de discussões socioeconômicas atuais. "Nós ficamos muito impressionados quando estudamos sobre o Brasil e o quanto podemos aprender uns com os outros", conta Mridula Mukherjee, historiadora do Centro de Estudos Históricos da Universidade Jawaharlal Nehru (JNU), de Nova Délhi, capital da Índia.
A historiadora fez um balanço histórico do processo de independência do país asiático, com foco na conquista da democracia por meios não violentos, sob a liderança de Mahatma Gandhi. Ela destacou como ponto mais importante nessa luta o discurso ideológico infiltrado nos cidadãos indianos, baseado em um forte nacionalismo anti-imperialista, na igualdade e na soberania econômica da Índia. A absorção desses valores pela população foi o fator fundamental para a independência do país em relação à Inglaterra, mesmo em uma sociedade extremamente hierarquizada e com alto índice de analfabetismo.
Apesar da diferença de épocas, a independência do Brasil se deu de maneira muito parecida com a indiana. O professor Pedro Paulo Funari, diretor do Centro de Estudos Avançados da Unicamp, deu uma perspectiva histórica da conquista da democracia no Brasil. Para ele, o momento chave foi a superação de costumes medievais enraizados na tradição ibérica, entre eles as relações patronais e a forte hierarquização de classes, assim como na Índia.
Desafios para a independência e democracia
Apesar da relativa estabilidade política, Funari lembrou de momentos como a oligarquia que governou o país na República Velha, o período autoritário de Vargas e a ditadura militar, e enfatizou o caráter ainda nascente da democracia no país. "Nós estamos numa democracia por um período muito curto", diz o professor.
A liberdade política na Índia e no Brasil não significou independência econômica imediata da Europa em nenhum dos casos. A soberania econômica foi gradativa em ambos, uma vez que houve uma drenagem de recursos naturais por parte dos europeus. Na Índia,o crescimento econômico-industrial foi alavancado pelo governo de Jawaharlal Nehru, primeiro-ministro do país entre 1947 e 1964, período posterior à independência. Nehru fez virtuosos investimentos em indústria de base de bens de capital, que chegaram a cerca de 34% do PIB nacional.
Apesar de bons índices de crescimento econômico, os dois países ainda têm de lidar com questões sociais e desafios para a melhoria na qualidade de vida, o que é fundamental para a manutenção da democracia. Brasil e Índia apresentam números de desigualdade e pobreza negativos em comparação aos países do chamado primeiro mundo. Para superar esses problemas, a discussão de ideias e soluções entre os próprios países é importantíssima. "A integração entre os países do sul, como essa que acontece hoje, é crucial para a independência em relação aos países desenvolvidos", diz Aditya Mukherje, também historiador e diretor do Instituto de Estudos Avançados da JNU.
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