FEA X FEA - Qualidade e Produtividade na universidade pública

  Conceitos de qualidade como foco no cliente, melhoria contínua e trabalho em equipe têm aplicação em uma universidade pública? Para responder a essa pergunta e analisar os resultados do Programa de Qualidade e Produtividade da USP, que começou a ser implantado em 1996, Olga Maria Zulzke de Miranda, funcionária da USP e doutoranda da FEA, colocou sua observação como participante do processo para fazer a retrospectiva histórica, organizar dados e extrair aprendizados e resultados do projeto.

  Na tese de doutorado Implantação e resultados de programas de qualidade em universidade pública: estudo de caso da Universidade de São Paulo, apresentada no dia 20 de abril, a pesquisadora demonstrou que a qualidade pode ser um elemento de mudança para trazer melhorias à gestão, à universidade pública e ao uso dos recursos públicos, além de impulsionar a formação de uma nova mentalidade e as mudanças organizacionais necessárias para acompanhar o movimento histórico da sociedade. Sua tese, orientada pela professora Ana Cristina Limongi-França, e aprovada com louvor pela comissão formada pelos professores Hélio Nogueira da Cruz, Hélio Janny Teixeira, Luiz Natal Rossi e Terezinha de Jesus Andreoli Pinto, é uma contribuição da FEA para o debate sobre qualidade na universidade pública.

A pesquisa de Olga Maria Zulzke De Miranda foi baseada em duas questões: como um programa de qualidade pode ser implementado em uma universidade pública? E qual a percepção dos atores quanto aos seus resultados na instituição?

  Com essas premissas, além de resgatar o histórico da implantação de uma experiência que carrega elementos inovadores em termos de administração pública, o trabalho elucidou sob uma perspectiva histórica e atual, a implantação do Programa de Qualidade e Produtividade em uma universidade pública e sistematizou os resultados obtidos. Foram analisados também o contexto, o conteúdo, o processo e os resultados dessa experiência, pela percepção dos administradores da instituição.

  “Atualmente, o apelo da Qualidade Total, como forma gerencial, está bastante reduzido. Os princípios já estão internalizados nas organizações. Mais recentemente, pode-se dizer que a Qualidade Total tomou outros matizes, segmentando-se e aparecendo no ambiente organizacional com outras denominações como inovação, gestão do conhecimento, gestão por competências, qualidade de vida no trabalho, responsabilidade social e sustentabilidade socioambiental”, explica Olga.

  No Brasil, o conceito de Qualidade Total foi difundido nas empresas na década de 1970 e ganhou mais força na década de 1990, após a abertura da economia ao comércio internacional. Atingiu também a esfera da gestão pública. Em 1995, o Estado de São Paulo instituiu o programa de qualidade nas organizações públicas estaduais com o objetivo de dar melhor atendimento ao cidadão. Também foi iniciada uma reforma administrativa que incluiu a universidade pública e teve inúmeras e complexas intercorrências. A mais significativa foi o aumento do número de vagas para atender à pressão da sociedade.

  “O Programa de Qualidade e Produtividade da USP fez parte da estratégia que o então Reitor (Flávio Fava de Moraes) queria imprimir à sua gestão. A USP, como autarquia de regime especial, desde 1989 gozava de autonomia acadêmica e administrativa e, nessa condição, tal como outros órgãos públicos, precisava também de uma administração mais eficiente para melhor utilização dos seus recursos”, aponta Olga.

  A pesquisa analisou o período de 1996 a 2006 e se aprofundou em 12 das 40 unidades de ensino e pesquisa, escolhidas pelo critério de maior evidência de trabalhos na área da qualidade. Foram realizadas entrevistas com docentes, ex-dirigentes e funcionários técnico-administrativos em sua maioria com nível superior. “O motivo mais forte que me moveu para o tema foi o desejo de conhecer com maior profundidade a organização em que trabalhei grande parte da minha vida profissional”, diz Olga.

  Para a pesquisadora, a conclusão é de que, apesar de polêmico, o programa foi facilmente absorvido por várias unidades. Em função das características da Universidade, com centralização e grande liberdade de ação para as unidades federadas, ficou evidenciada no levantamento a necessidade de uma diretriz centralizada da alta administração.

  “Os achados da pesquisa mostraram a influência do Programa de Qualidade em aspectos tangíveis e intangíveis da organização. São tangíveis os aumentos das relações alunos por professor e alunos por funcionários, assim como a redução de gastos em utilidades. Nos resultados intangíveis, o Programa foi significativo para a formação de uma nova mentalidade nos funcionários. Em relação a aspectos comportamentais e administrativos, verificamos melhoria na qualificação e profissionalização dos recursos humanos, maior participação, interação e envolvimento dos funcionários e maior atenção a aspectos de qualidade de vida no trabalho”, resume a pesquisadora.

  No geral, o trabalho comprova resistência maior por parte dos docentes e adesão dos funcionários que viram no projeto a possibilidade de usarem seus talentos. Ações implementadas pelo Programa ainda fazem parte do dia a dia como os Programas de Uso Racional da Água (PURA) ou Uso Eficiente da Energia (PURE). A descontinuidade e a desmotivação, porém, são experiências negativas que não puderam ser evitadas. Vale destacar o impacto do programa no planejamento estratégico da instituição com o processo de Avaliação Institucional e o desenvolvimento de Planos e Metas das Universidades e dos Departamentos da USP.

  Como enfatiza a pesquisadora, quem promove a qualidade são as pessoas. “Tem que haver políticas de Recursos Humanos para que elas entendam o processo e abracem a causa. Podemos constatar que houve um bom avanço no campo do Treinamento e do Desenvolvimento. Quando o programa começou, não se sabia o número total de funcionários e a escolaridade. Não se tinha números da evasão de alunos. Em função disso, medidas foram tomadas”, diz ela.

  Familiarizada com o programa e participante do processo, a comissão foi generosa nos elogios ao trabalho. “Sua tese trouxe contribuições para todos nós e para a USP”, enfatizou o professor Hélio Nogueira da Cruz, professor da FEA e vice-reitor da USP.
Se o movimento da qualidade veio para, entre outros objetivos, evitar o desperdício, procurar otimizar e valorizar o potencial humano podia estar entre eles. A nova organização pós-burocrática deverá fazer aflorar e aproveitar mais o potencial dos funcionários.

RETROSPECTIVA DA QUALIDADE NA GESTÃO PÚBLICA DESDE 1990

1990...
Sub Programa da Qualidade e Produtividade na Administração Pública
Gestão de Processos

1996...
QPAP – Programa da Qualidade e Participação na Administração Pública
Gestão de resultados

2000...
PQSP – Programa da Qualidade no Serviço Público
Qualidade do atendimento ao cidadão

2005...
GESPÚBLICA – Programa Nacional de Gestão Pública e Desburocratização
Gestão por resultados orientada para o cidadão

10/05/2010

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