Tese analisa conflito das mulheres na pós em Contabilidade

Por Cacilda Luna

 

O número de mulheres que cursam Contabilidade tem aumentado no Brasil. Desde 2005, o percentual de mulheres matriculadas na graduação em Ciências Contábeis vem superando o dos homens. Mas quando chega na pós-graduação, o percentual diminui, assim como na carreira docente. Interessada em descobrir o que ocorre durante esse caminho, a professora de graduação em Ciências Contábeis e Administração da Faculdade Pitágoras, de Uberlândia (MG), Camilla Soueneta Nascimento Nganga, realizou uma pesquisa com 13 doutorandas de 8 diferentes programas de pós-graduação no país. O estudo embasou sua tese de doutorado, defendida no último dia 3 de maio na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEAUSP).

 

Com o título “Abrindo caminhos: a construção das identidades docentes de mulheres pelas trilhas, pontes e muros da pós-graduação em Contabilidade”, o trabalho buscou analisar as experiências de mulheres em um ambiente masculinizado como é o da Contabilidade e “que as excluem na medida em que elas avançam em sua trajetória profissional acadêmica”. Segundo Camilla Nganga, a tese contribui com a discussão sobre identidades docentes na área de Contabilidade a partir de uma perspectiva de gênero, tendo por vertente epistemológica o “construcionismo social” e como posicionamento teórico o pós-estruturalismo feminista, utilizando uma abordagem qualitativa. 

 

“Os processos de socialização vivenciados pelas mulheres em programas de pós-graduação em Contabilidade terão um papel fundamental em suas experiências, então isso vai constituindo, moldando o seu desenvolvimento profissional docente em aspectos que são constituintes de suas identidades profissionais”, justificou Camilla Nganga durante a defesa. A professora revelou que os programas de pós-graduação da área de Ciências Contábeis são caracterizados pela baixa oferta de ações relacionadas à formação para o ensino, pelo foco em publicações científicas e por constituírem ambientes masculinizados. 

 

De acordo com a pesquisadora, o desenvolvimento das identidades das 13 mulheres entrevistadas foi marcado pelo caminho que percorreram na pós-graduação, por meio de alguns aspectos principais. Entre esses aspectos, ela citou a socialização profissional em um ambiente de estresse, pressões e predominantemente masculino; a formação docente mediante a disponibilidade de exemplos, negativos e positivos, sobre como atuar como docentes; a pressão intensa por publicações; a difícil relação entre maternidade e academia; a resiliência em persistir; e a proposição de uma atuação docente mais humanizada e empática que contribua para a construção de um conhecimento contábil crítico e atualizado.

 

As entrevistadas citaram que as pressões durante a socialização “já eram esperadas”, porém ressaltaram que elas não são consideradas naturais ou normais, admitindo que o estresse e a ansiedade impactaram negativamente em suas trajetórias. “Cabe refletir se o ambiente acadêmico precisa ser construído dessa forma ou se há alternativas. Além disso, percebi que as doutorandas ainda precisam lidar com outras pressões: o fato de haver poucas mulheres como alunas e como professoras; as piadas e preconceitos direcionados às mulheres, inclusive vindos de professores; pressões adicionais para as que não estão trabalhando com abordagens quantitativas de pesquisas; sentimento de desvalorização das pesquisas qualitativas; e, não menos importante, o conflito com a vida pessoal, principalmente para aquelas que são mães”, concluiu Camilla Soueneta Nascimento Nganga.

 

A tese foi indicada por unanimidade pela banca examinadora para concorrer ao prêmio de melhor tese da linha de pesquisa. A banca foi presidida pelo professor da FEA, Lucas Ayres Barreira de Campos Barros, e composta pela orientadora da tese, a professora Silvia Pereira de Castro Casa Nova (FEA), além das professoras Simone Bernardes Voese, Sandra Maria Cerqueira da Silva e Cláudia Pereira Vianna.

 

Data do Conteúdo: 
terça-feira, 7 Maio, 2019

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