Stress pode levar alunos à medicação, alertam especialistas

Bruna Arimathea

A pauta da saúde mental nunca se fez tão necessária na Universidade de São Paulo como nos dias atuais. A comunidade universitária percebeu a urgência de olhar para as questões psicológicas e mover ações que pudessem dar suporte aos estudantes. Assim, iniciativas começam a ser formadas e pautas discutidas dentro Universidade, como a  II Semana de Saúde Mental (SSM), coordenada pela Frente Universitária de Saúde Mental - FUSM, que aconteceu no último mês de agosto, em vários institutos da USP.

A FUSM foi criada para dar apoio e promover atividades que tivessem cuidado com as questões psicológicas do aluno. O grupo é uma iniciativa dos alunos dos cursos de Direito, Medicina Santa Casa, Medicina USP, Escola Politécnica e Psicologia.

 A semana, realizada pela segunda vez, teve como objetivo informar e trazer à tona a discussão sobre o cuidado psicológico. O foco do evento é alertar sobre os problemas enfrentados - e muitas vezes ignorados - pelos estudantes, e a propagação de meios de diagnósticos das diversas dificuldades psicológicas encontradas durante a vida universitária.

Uma das principais pautas do cuidado com a saúde mental é o estresse no período de estudos. Para lidar com a carga horária de aulas, tarefas e outros deveres da graduação, estudantes recorrem, cada vez mais, ao uso de drogas desenvolvidas para uso psicológico, como uma alternativa de aumentar a performance ou tempo de vigília, ou seja, a capacidade de permanecer muitas horas acordado sem sentir sono.

A psiquiatra Lúcia Maria Argollo Maciel, ressaltou, em palestra na FEAUSP, parte do cronograma previsto para a Semana de Saúde Mental, que o estresse é um ponto determinante na decisão de partir para métodos sintéticos de melhoria de desempenho. Segundo ela, os transtornos mentais desencadeiam psicoses, transtornos de humor e de ansiedade, e a situação de estresse é um estímulo para o surgimento desses problemas.

“Temos como fator de risco principal o stress: físico, psicológico ou emocional. Então, quando a gente fala de 5,8% de depressão na população geral, estamos falando do todo. Se a gente vier para a população acadêmica universitária, isso provavelmente, pelo menos, dobra ou triplica”, explicou a especialista.

Flávio Guimarães Fernandes, psiquiatra do HC-USP falou sobre os perigos dos usos desses medicamentos para fins acadêmicos. Ele afirma que os alunos buscam alguma intervenção para o funcionamento mental, principalmente para aumentar a atenção, em uma rotina que demanda um grande volume de coisas a serem estudadas e pouco tempo para, de fato, estudar o conteúdo.

A pressão de uma carreira, como a medicina ou o direito, e a rotina da graduação também são gatilhos para o uso das substâncias, sobretudo em períodos de maior tensão, como época de provas ou trabalhos, caracterizando maior stress por parte dos alunos.

Cerca 81% dos usuários relataram, em pesquisa apresentada pelo Dr. Flávio Guimarães, que perceberam melhora na concentração diante dos estudos, mas o levantamento entre pacientes psiquiátricos não corroboram com os depoimentos. Além disso, os efeitos testados na população geral se apresentaram modestos em relação à alta porcentagem apresentada pelos estudantes.  Dessa forma, o que pode ser observado é que o efeito motivacional é o principal fator para o uso desses medicamentos. A satisfação com as ações nas tarefas diárias levam ao uso contínuo, na maioria dos casos, mais pela sensação psicológica do que pelo efeito real.

“Quando se faz testes nesses indivíduos para atestar melhora, percebemos é que não há. Pode ser que um indivíduo especificamente se beneficie, mas para o grupo de indivíduos não tem diferença praticamente nenhuma. O que se observa de fato é que há um aumento da motivação e do ânimo e uma maior satisfação obtida, ou seja, o efeito motivacional é mais importante que o efeito real. Então, isso é muito similar, por exemplo, ao uso de qualquer droga, por exemplo, o uso de cocaína: eu começo a achar que eu sou muito bom, começo a me sentir super bem em relação a mim mesmo e eu acho que eu estou aproveitando muito mais aquela situação, mas a verdade é que isso é só um mascaramento de uma situação na qual eu continuo sendo eu mesmo”, esclareceu Flávio.

Os efeitos colaterais dessas drogas são diversos, como taquicardia, insônia, ansiedade e depressão. Esses medicamentos potencializam o estado de stress e causam dependência química e psicológica nos usuários. O aconselhamento dos profissionais é buscar alternativas para a intervenção no uso desses medicamentos em algumas áreas. Quanto a nutrição, o Dr. Flávio destacou a ingestão de café e doces como uma forma de obter efeitos estimulantes para as horas de estudo ou trabalho, sempre com muita moderação nas quantidades e na frequência de ingestão.

Outra alternativa é o exercício físico. Sua eficácia atua na melhora da atenção, função executiva e memória, a curto e longo prazo. Um aliado importante é uma boa noite de sono, fundamental para a retenção e atenção nas informações. Até mesmo pequenos cochilos, de até seis minutos durante o dia, podem fazer diferença e trazer benefícios para as atividades cognitivas.


 

Data do Conteúdo: 
quinta-feira, 6 Setembro, 2018

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