Pioneiros empreendedores e a construção do século XXI

Fotos dos Palestrantes do primeiro dia do evento

O curso de difusão cultural ‘Pioneirismo Empresarial e a Construção do Século XXI: O Brasil reencontra os pioneiros de São Paulo’, realizado na FEAUSP nos dias 29 e 30 de julho, reuniu mais de uma centena de pessoas para estudar e discutir as trajetórias empresariais de pioneiros como os Ermírio de Moraes, Ramos de Azevedo e Luiz de Queiroz. O professor Jacques Marcovitch, coordenador do programa, destacou o objetivo de apresentar a carreira dos pioneiros em sua realidade: “Tentaremos evitar a sacralização e também a demonização dos personagens. Para incentivar o empreendedorismo, temos que pensar, com respeito, nas vitórias e também nos fracassos”. Para ele, estudar essas figuras seria uma forma de “subir nos ombros dos grandes homens para superar crises e olhar para o futuro”.

André Ermírio de Moraes Macedo, pertencente à quarta geração da família detentora do Grupo Votorantim, apresentou a trajetória empreendedora de José e Antônio Ermírio de Moraes, seu bisavô e seu avô, respectivamente; além de Antônio Pereira Ignácio, sogro de José e responsável por lhe vender as ações da fábrica que daria origem ao conglomerado. André Macedo apontou o que são, segundo ele, as bases do espírito empreendedor: paixão e propósito de vida; persistência; capacidade de inspirar e motivar. “O empreendedor acredita que pode fazer melhor, que pode mudar a realidade. Ele deve ter um grande sonho, mas não pode se acomodar, deve trabalhar duro”.

De acordo com André Macedo, o grande objetivo de José e Antônio era desenvolver o país. José focou na industrialização, almejava que o país não mais dependesse de importações e, para isso, “reformou” e ampliou as áreas de atuação de seu negócio. Antônio foi desafiado por seu pai “a se provar em um ano”, demonstrando ser capaz de empreender e gerir empresas. Construiu assim uma fábrica de alumínio, que se expandiu e se tornou a maior fábrica integrada do mundo, a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA). O empreendedor precisaria também de visão de longo prazo e flexibilidade, adaptando-se às mudanças da sociedade. André lembra que Antônio dizia que sua maior frustração é que sua vida fosse muito curta em relação à do Brasil, não podendo cumprir assim todas as suas ambições em relação ao desenvolvimento do país.

Equipe

Segundo André Macedo, o empreendedor deve ser capacitado a motivar e inspirar sua equipe: “Um empreendedor, sozinho, não consegue conquistar seus objetivos, por isso ele precisa de um time engajado. Ele deve dividir seu sonho”. André lembrou que uma das habilidades de Antônio Ermírio de Moraes era dialogar com seus funcionários, de todos os níveis hierárquicos, questionando como poderia ajudá-los a executar suas funções. Ele afirmou ainda que Antônio Pereira Ignácio, responsável pela fábrica que originaria o Grupo Votorantim, estabeleceu que homens e mulheres deveriam ter salários equiparados em suas indústrias.

A professora da FAUUSP Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno expôs a trajetória do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo, frisando o papel que a equipe de seu escritório teve no desenvolvimento de sua carreira e das obras que, mais tarde, seriam conhecidas como de sua autoria. Ela acredita que, frequentemente, a “figura Ramos obscurece uma equipe”, mas não descarta a destreza do arquiteto em congregar seus parceiros e fortalecer a equipe. De acordo com a professora, as obras eram entregues com o carimbo do Escritório Técnico Ramos de Azevedo, Severo e Villares, contemplando os vários funcionários que constituíam o time do pioneiro Ramos de Azevedo.

Fundado por ele, o escritório atuou entre 1886 e 1980, projetando obras que seriam, hoje, nossa referência histórica, como afirmou a professora Beatriz Bueno. Nos primeiros anos de sua carreira, Ramos de Azevedo assinou diversas construções matrizes na cidade de Campinas, contribuindo para um processo de modernização urbanística que continuaria a ser empreendido com sua mudança para São Paulo, transformando “a São Paulo caipira em uma São Paulo moderna”. Essa mudança foi financiada pelo Conde de Parnaíba, grande entusiasta do talento e da competência de Ramos.

A professora da FAU explicou que Ramos de Azevedo se envolvia em todos os elos da cadeia produtiva das obras, “sem perder o compromisso com a cidade, de redesenho e modernidade”. Ele pensava na dimensão urbanística que as construções arquitetônicas teriam, no entorno abarcado por elas. Além disso, incentivou a formação de novos engenheiros e arquitetos na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Uma característica bastante peculiar de Ramos de Azevedo é que ele apreciava marcar presença nas obras, tendo instalado uma sala para despachar do canteiro de obras do que seria o Teatro Municipal de São Paulo. O escritório de Ramos introduziu uma “cadeia taylorista” de construção, subdividindo as funções e orquestrando o tempo de modo a ser capaz de produzir diversas obras simultaneamente, havendo grande rigor no detalhamento e na perfeição da execução. Todas as obras finalizadas eram devidamente fotografadas e documentadas, apresentando as diversas etapas de seu desenvolvimento.

Operários

Uma outra marca urbanística decorrente da atuação de empreendedores foi instalação de vilas operárias em regiões próximas às fábricas, onde os trabalhadores eram acomodados juntamente com suas famílias. Essa característica marcou o entorno das indústrias do Grupo Votorantim e de diversas outras empresas no estado de São Paulo entre as décadas de 1880 e 1940. A professora Telma de Barros Correia, do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP São Carlos, explicou que aparatos como escolas, hospitais, igrejas, clubes e cinemas eram instalados nas vilas – geralmente desconcentradas dos núcleos urbanos – para atrair os trabalhadores e também isolá-los das movimentações operárias que aconteciam nas cidades. A adaptação e a formação de mão de obra também eram preocupações dos empresários ao instalar as vilas, já que um dos principais desafios dos empreendedores pioneiros era a disponibilidade de mão de obra qualificada.

Algumas dessas vilas desapareceram, outras viraram bairros e até mesmo cidades, com a permanência ou não dos estabelecimentos fabris na região. A aglomeração da vila operária da CBA acabou por dar origem à cidade de Alumínio, no interior de São Paulo. Fenômeno semelhante ocorreu com o município de Votorantim, inicialmente vila integrada às indústrias de cimento do Grupo Votorantim. Jacques Marcovitch ressaltou a importância do planejamento de como as vilas irão se manter após o fim do ciclo da atividade empresarial, de modo que não entrem em decadência.

Fracasso

Diante de tantos relatos em empreendimentos de sucesso, a professora Marly Perecin, da Academia Piracicabana de Letras (APL), trouxe a contradição de que os pioneiros, por mais brilhantes que sejam, muitas vezes têm projetos que não deram certo. Ela contou a trajetória do agrônomo Luiz Vicente de Souza Queiroz, com foco em sua intenção de criar uma escola de educação agronômica no Brasil, que, enquanto era vivo, acabou falhando. A professora aponta a mentalidade escravista e a falta de incentivo ao estudo de ciências na sociedade da época como fatores para o projeto de Luiz de Queiroz não ter sido levado a cabo.

Luiz de Queiroz foi, segundo ela, “um empreendedor de sucesso absoluto”, criando indústrias, linhas telefônicas, iluminação a partir de eletricidade. Tudo isso antes de pensarem em implantar ideias como essas no Brasil. Ele era um radical republicano e abolicionista, defensor do ensino agronômico, observador do que era produzido na Europa. Chegou na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo, para receber a herança de um engenho. A partir daí, deu início a novos empreendimentos, como a inauguração da tecelagem Santa Francisca, em 1874, dialogando sempre com questões modernas. Marly Perecin diz que, “por não ter pregas na língua”, o agrônomo fez vários inimigos, entre a elite e os próprios republicanos, o que pode ter contribuído para que seu projeto naufragasse.

A escola criada por ele, Agricultural College, foi fundada em 1891 e tinha os jovens da elite como público-alvo. Tentou manter a escola, mas não conseguiu apoio para continuar com suas atividades. Por meio de um acordo político, que incluiu uma doação monetária de sua parte, o empreendedor recebeu, dez anos mais tarde, uma escola fraca e decadente, muito distante do seu sonho. A escola seria reerguida e um novo e grandioso prédio seria construído em 1907, anos após a morte de Luiz de Queiroz, sob a alcunha de Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), atualmente pertencente à USP.

A professora Marly Perecin acredita que o fracasso inicial de Queiroz acabou resultando em um grande projeto, sendo ele um semeador. Jacques Marcovitch comentou que o pioneirismo de Luiz de Queiroz é de uma espécie que se concretiza após a vida, sendo lembrado, ainda assim, como parte fundamental de sua obra.

Ensino de empreendedorismo

Marina Toledo, que promove ações educativas no Museu da Língua Portuguesa, defendeu o papel do estudo de casos de fracasso no aprendizado de empreendedorismo, analisando trajetórias para pensar no presente. Ela acredita que habilidades essenciais ao empreendedor, como capacidade de antecipação, avaliação de impactos sociais, percepção de tendências e inovação podem ser desenvolvidas a partir de ações educativas direcionadas por professores. Além disso, é importante também agir e experimentar ideias, construindo projetos ligados à realidade de cada indivíduo. “Nem todos são pioneiros, mas todos podem ser empreendedores”, afirmou.

Tais ações seriam uma forma de “transformar o expectador em ator”, como afirmou o professor Marcovitch. Seria uma forma de fazer com que o sujeito intervenha, sendo, assim, um empreendedor. O professor fez uma ressalva, no entanto, afirmando que ser empreendedor não é, como alguns podem acreditar, alternativa a um emprego. “Para os empreendedores, a riqueza é um meio de viabilizar um sonho, não objetivo final”.

Veja mais fotos do evento.

Autora: Letícia Paiva
Fotos: Guilherme Queiroz

Data do Conteúdo: 
terça-feira, 4 Agosto, 2015

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