Pequeno agricultor é tema de discussão entre FEA e St. Gallen

Público da mesa redondaA agricultura sustentável foi tema de evento ocorrido no dia 2 de junho, reunindo pesquisadores da FEA, do Centro Latinoamericano-Suiço da Universidade de St. Gallen, e representantes da cooperativa Cooxupé e da empresa Nestlé. Eles debateram sobre como promover maior responsabilidade e maior espírito empreendedor para os pequenos produtores.

O evento, realizado pelo CORS, com a coordenação da professora Maria Sylvia Macchione Saes, aconteceu em sequência à conferência Nescafé Farming Forward, realizada em novembro 2013 na Universidade de St.Gallen, na qual diversos formadores de opinião sobre o tema da criação de valor compartilhado foram convidados para trazerem seus pontos de vista.

Ivete Sánchez, pesquisadora da St. Gallen, ressaltou a importância da formação de agroempresários, ou seja, agricultores que além do trabalho do campo também cuidam da parte comercial de suas produções. Para ela, a sobrevivência e a competitividade dependem do conhecimento tecnológico e da manutenção dos jovens no setor, que atualmente está envelhecido devido ao êxodo rural.

Como exemplo de iniciativa que promove esses valores, a pesquisadora citou o projeto Escola Nescafé, desenvolvido pela empresa Nestlé, que visa desenvolver as competências empresariais dos cafeicultores por meio do treinamento vocacional, formação técnica, gestão e transferência de conhecimento entre gerações. A pesquisadora afirmou que “o pequeno produtor deve perceber sua atividade e o risco dela, como uma empresa”.

Entre os desafios, ela citou a necessidade de reduzir a exposição dos produtores às variações de preços das commodities, além de outros fatores que levam à volatilidade dos preços, como variações climáticas, pragas e mudanças de preferência do consumidor.

Maurício Ribeiro, da cooperativa Cooxupé, relatou que a companhia oferece assistência aos cafeicultores, além de promover meios educativos para mudar a consciência ambiental e a técnica, pois aumentar a produtividade e reduzir custos é fundamental. A instituição também investe em armazenamento, um dos principais gargalos da produção brasileira. Conforme descreveu, é um investimento que não gera lucro, mas que é essencial para evitar a perda da produção e o roubo de sacas das fazendas. Com isso, além da segurança, a cooperativa proporciona independência ao produtor. Como o valor da commoditie oscila muito, o agricultor escolhe quando quer vender.

Ele também lembrou que a qualidade define sensivelmente o preço final do produto. Por isso, as etapas e os meios da produção foram o foco da pesquisa comentada por Sylvia Saes, do CORS-FEAUSP. Esse projeto buscava identificar a propensão dos cafeicultores à adoção de certificação ambiental. A avaliação envolvia quesitos como a utilização de pesticidas e a otimização de recursos locais: “algumas das coisas que jogamos fora e viram veneno poderiam ser usadas na produção”, lembrou.

Nesse processo, 80% dos produtores não possuíam certificado ambiental, e para obtê-los teriam que fazer escolhas envolvendo custos e benefícios, ou seja, para serem favorecidos, teriam de cumprir certas exigências. Conforme Saes exemplificou, se obedecessem à legislação (trabalhista e ambiental), receberiam assistência técnica e contrato de 3 anos com preço estabelecido.

No final desse processo de escolhas, verificou-se que eles não aceitavam as opções que propunham erradicar o uso de pesticidas, independente dos benefícios, e a pesquisadora acredita que seja por medo de perder a produção. Notou-se também que muitos escolhiam opções com assistência técnica, e que optavam pela independência nas negociações ao invés de terem valores de venda e compradores fixos. Saes afirmou que essa independência os expõe a riscos de desvalorização do produto, e que os que mais investem em suas produções são os que possuem contrato, por poderem prever melhor seus ganhos.

A temática é de extrema relevância, pois conforme afirmou Orlando Garcia, da Nestlé Brasil, produzimos entre 35 e 40% da produção mundial de café, além de sermos o segundo maior consumidor. Ele acredita que em 4 ou 5 anos seremos o principal consumidor do mundo, e ressaltou que a sustentabilidade econômica dos produtores nacionais é muito superior a de outras partes do mundo.

Autora: Thaís do Valle

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 15 Junho, 2015

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