Pensa: conectando a agricultura ao mundo dos negócios


A partir desta edição, o Gente da FEA lança uma série de reportagens sobre os núcleos de pesquisa da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEAUSP), começando pelo Pensa, um centro avançado de conhecimentos em agronegócios vinculado ao departamento de Administração, cujo foco de análise é o estudo dos sistemas agroindustriais, particularmente as relações de coordenação dos agentes envolvidos na produção, processamento e distribuição dos produtos originados na agricultura e na pecuária.

Todo conceito e a essência do que é hoje o Pensa foram desenvolvidos pelo professor Decio Zylbersztajn. No início dos anos 90, inspirado no modelo de Harvard, o economista agrícola teve a iniciativa de criar um núcleo de estudos com uma nova abordagem de entendimento do sistema agroindustrial. Naquela época, quase não se falava em “agribusiness”, muito menos na academia. Zylbersztajn conheceu o termo e toda sua fundamentação teórica nos seminários do professor Ray Goldberg. “Ele fazia os seminários anuais com case studies de várias empresas, conectando o mundo acadêmico ao mundo dos negócios”. 

Por 11 anos, usando como modelo os seminários de Harvard, o Pensa realizou os famosos seminários anuais que reuniam em média 300 empresários do setor de agronegócios para discutir estudos de caso. Um dos mais emblemáticos foi o da Cooperativa de Cotia, que faliu em 1994, provocando um grande choque na comunidade nipo-brasileira. “Nos estudos de caso, a gente enxergava os problemas, que geravam teses e dissertações. Nesses 27 anos, o Pensa fez o que a universidade nos pede que é olhar o mundo real, fazer pesquisas aplicadas que resolvam, que procurem melhorar a condição do foco da pesquisa, no nosso caso a agricultura e a sua conexão com a sociedade”. 

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Cadastrado no CNPq como grupo de pesquisa, o Pensa – Centro de Conhecimentos em Agronegócios atua em três frentes: pesquisa, educação continuada e projetos aplicados. A pesquisa é desenvolvida no âmbito da Universidade de São Paulo e em parceria com outras instituições de ensino e pesquisa. Estruturado na forma de rede, o Pensa envolve, além de pesquisadores, executivos, industriais e produtores rurais. A rede internacional é estabelecida por meio da participação dos pesquisadores em atividades científicas e convênios de cooperação acadêmica com universidades estrangeiras.

Atualmente, o núcleo possui 12 pesquisadores diretos, tendo como temas de pesquisas e projetos: coordenação de sistemas agroindustriais, contratos nos agronegócios, gestão estratégica das organizações, planejamento e gestão de marketing, alianças estratégicas, governança corporativa e responsabilidade social, marketing aplicado, competitividade de sistemas agroindustriais, mapeamento e mensuração de sistemas agroindustriais, análises setoriais e sistemas de produção de agroenergia. 

 O coordenador do Pensa, professor Cláudio Antonio Pinheiro Machado Filho disse que as atividades do núcleo incluem, no plano acadêmico, a orientação de alunos de mestrado e doutorado. Nessa frente, destaca-se também a chamada “Oficina Pensa” destinada à realização de debates tendo como foco os trabalhos dos pesquisadores ligados ao programa de pós-graduação, mas também aberto à comunidade da FEA e de toda a USP. 

Treinamento de executivos

O Pensa acumula uma ampla experiência no treinamento de executivos, empresários, consultores, pesquisadores e outros profissionais que atuam nas diferentes atividades e setores do agronegócio. As aulas do Programa de Formação de Lideranças no Agronegócio (Pensa-Lideragro) consistem na construção de conhecimento e disseminação de técnicas inovadoras. Em seus cursos abertos, o núcleo já treinou mais de 5 mil profissionais. 

São oferecidos diversos cursos temáticos com carga horária de curta e média duração, cursos no formato EAD (ensino a distância) e na modalidade “in company”. Os temas abordados são “Governança e Desenvolvimento de Sucessores em Empresas de Controle Familiar”, “Marketing e Vendas no Agronegócio”, “Finanças no Agronegócio” e “Inteligência de Mercado no Agronegócio”. Os cursos são direcionados para empresas, propriedades rurais, cooperativas, bancos, agências governamentais e associações de representação. 

Uma das principais parcerias internacionais do Pensa é com a Universidade Illycaffè. O Pensa coordena as ações da universidade no Brasil, tendo à frente o professor Decio Zylbersztajn. “Todo ano, identificamos um tema de estudo e a Illy banca a pesquisa, que tem participação de nossos alunos”. A Universidade tem ainda programas de treinamento para os produtores, além de educação a distância. 

Economia das Organizações

O grande foco do Pensa é o estudo dos sistemas agroindustriais (SAGs), especialmente as relações de coordenação dos agentes envolvidos na produção, processamento e distribuição dos produtos agropecuários. Para tanto, o núcleo desenvolveu uma metodologia baseada em três conceitos: estrutura do mercado dos segmentos, economia em custos de transação com base nas características das transações entre os agentes do sistema, e ambiente industrial relevante para o negócio.

A abordagem metodológica do Pensa, introduzida pelo professor Decio Zylbersztajn, conquistou credibilidade em função do seu pioneirismo e dos resultados obtidos com sua aplicação em organizações de diferentes setores do agronegócio. Além dos famosos seminários com empresários que debatiam todos os anos cinco ou seis estudos de caso, nos mesmos moldes dos seminários do professor Ray Goldberg (Harvard), o Pensa também inovou em outra frente.  

 Outro avanço foi ter trazido para o Brasil, e principalmente para a FEAUSP, a linha da chamada Economia das Organizações, baseada no trabalho de dois prêmios Nobel de Economia - Ronald Coase (1991) e Oliver Williamson (2009). “Sempre dei importância à boa teoria, aquela que você usa para resolver os problemas do mundo real. A teoria da Economia Aplicada veio deles (Coase e Williamson). O Pensa estudou a vida toda as cadeias produtivas do agro, como melhorar os sistemas agroindustriais, onde estão as ‘patologias’, como conectar a agricultura com o resto da economia, de que forma evitar problemas como o escândalo da Carne Fraca, enfim, como lidar com essas questões”, afirmou Zylbersztajn. 
Com a introdução dentro da sala de aula dessa nova visão da economia, diferente dos modelos econômicos neoclássicos tradicionais, os alunos da FEAUSP ganharam em conhecimento e prática. “Por anos e anos, os meus alunos foram lá no Ronald Coase Institute tomar um banho de método de pesquisa em cima do mundo real. Então, o que a Economia das Organizações trouxe é a análise da firma do mundo real, diferente da firma vista na Economia. Mas não a microeconomia dos mercados puros, a firma contratual funcionando. É a economia aplicada ao mundo real das organizações, que têm custos de transação positivos”. 

Segundo o professor Claudio Pinheiro Machado Filho, que sucedeu Decio Zylbersztajn na coordenação executiva do Pensa no ano passado, o grande diferencial que Coase e Williamson trouxeram para a teoria econômica é a visão de que existem custos escondidos dentro do ambiente de negócios, os chamados custos transacionais, que impactam na forma como os agentes econômicos se relacionam dentro da sociedade. São custos que, muitas vezes, são definidores da potencialidade de um negócio. Uma visão que não se encontra nos livros de Economia, mas sim nos de Administração.
 
Ao cursar a pós-graduação na FEAUSP, na década de 90, orientado pelo professor Decio Zylbersztajn, Pinheiro Machado tornou-se um dos primeiros egressos das escolas de agronomia a ter contato com essa abordagem, mais focada na parte estratégica, da gestão do negócio, do que propriamente técnica. Assim como Pinheiro Machado, muitas lideranças que hoje trabalham com a temática do agronegócio passaram pela FEAUSP. Entre eles, o ex-presidente da Unica (União da Indústria da Cana de Açúcar) Marcos Jank, o professor da FEARP-USP Marcos Fava Neves, o professor do Insper Sérgio Lazzarini, o ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura André Nassar, o presidente do Conselho Administrativo da Amata S.A. Roberto Waack (hoje preside a fundação criada para resolver os problemas ambientais de Mariana-MG), o professor da FIA Samuel Giordano, e o professor do Insper e da Universidade de Missouri Fábio Chaddad, falecido no ano passado. 

Desde o início, o Pensa teve uma interface com o departamento de Economia da FEAUSP. “Devo muito à professora Elizabeth Farina”, disse o professor Decio Zylbersztajn, referindo-se à ex-chefe do EAE e atual presidente da Unica (União da Indústria da Cana de Açúcar). Alguns filhotes também foram gerados pelo Pensa. O Centro de Conhecimentos em Agronegócios apoiou a criação de outros programas dentro da Faculdade como, por exemplo, o Cors (Centro de Estudos das Organizações), coordenado pela professora Maria Sylvia Saes. 

Gente da FEA - Junho de 2017
Autora: Cacilda Luna

Data do Conteúdo: 
terça-feira, 13 Junho, 2017

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