Painel - As políticas que fazem o investimento crescer

“A curto prazo, o remédio para a economia brasileira é o aperto fiscal, que abre caminho para o corte da carga tributária e para que o resto das coisas comece a dar certo de forma natural.”

    IMPULSIONADA PELO BOM DESEMPENHO DAS EXPORTAÇÕES E DO MERCADO INTERNO, ESTE ALAVANCADO PELO AUMENTO DO EMPREGO E DA MASSA SALARIAL, PELA EXPANSÃO DO CRÉDITO, PELAS TRANSFERÊNCIAS DE RENDA E PELOS GASTOS GOVERNAMENTAIS, A ECONOMIA BRASILEIRA COMEÇOU A VIVER OS PROBLEMAS TÍPICOS DE UMA ELEVADA UTILIZAÇÃO DA CAPACIDADE INSTALADA. Pressões inflacionárias começaram a surgir, particularmente no setor industrial, às quais se somaram o impacto interno das altas de preços do petróleo, dos alimentos e de outras commodities no mercado internacional.

    Num esforço para reverter as expectativas e reduzir a demanda interna, o Banco Central iniciou novo ciclo de aumento da taxa básica de juros, justamente no momento em que se espera uma expansão do investimento privado, a fim de garantir o crescimento da economia nos próximos anos. Acredita-se que 2008 fechará com uma taxa de investimento entre 18,5% e 19% do PIB, considerada insuficiente para que o PIB cresça entre 4,5% e 5% nos próximos anos. Para discutir essa questão, o jornal Gente da FEA ouviu os professores Fábio Kanczuk, Carlos Eduardo Soares Gonçalves e Leda Paulani. Veja abaixo o que eles pensam sobre o assunto.

FÁBIO KANCZUK

    “Não é só o investimento que é importante para o crescimento. Acredito que o investimento virá sozinho. O que falta é ganho de produtividade. Se isso acontecer, o investimento aparece. O aumento da produtividade, por sua vez, depende de quatro fatores. Em primeiro lugar, a abertura da economia. É preciso parar com esse negócio de proteger certos setores, como aconteceu com a reserva de mercado para as empresas brasileiras de informática. O segundo fator é o capital humano. Se houver gente educada, é possível utilizar melhor o capital físico. Outro ponto fundamental é a redução da carga tributária, porque não adianta ter máquinas modernas e pessoas qualificadas para usá-las se o governo der uma mordida no que a empresa produzir e diminuir a taxa de retorno do investimento. O governo pode ainda ajudar se oferecer um marco regulatório decente. Por exemplo, há empresas interessadas em investir no setor de energia, mas a falta de um marco regulatório adequado inibe os investimentos.

    O quarto fator que pode facilitar o investimento e os ganhos de produtividade é a queda dos juros. No momento atual, o Banco Central está correto quando aumenta os juros para conter a inflação, mas essa política machuca o investimento. A curto prazo, o remédio para a economia brasileira é o aperto fiscal, que vai abrir caminho para o corte da carga tributária (hoje em torno de 37% do PIB) e para que o resto das coisas comece a dar certo de forma natural. O melhor setor para investimento é o que oferece a melhor taxa de retorno. Os empresários vão decidir qual é o melhor investimento.”

CARLOS EDUARDO SOARES GONÇALVES

    “A visão antiga da questão do investimento se baseava mais ou menos na idéia de que poupança alta fazia a economia crescer. Essa é uma visão dos anos 1960, 1970. A partir da metade dos anos 1990, a evidência internacional mostra que o crescimento do PIB precede o investimento. Parece que é mais um fator de produtividade, de eficiência na economia.

    Por exemplo, o estoque de máquinas e equipamentos não mudou, não mudou o investimento nem o capital humano. Mas passa uma lei de falências, por exemplo, e a economia se torna mais eficiente, o que gera mais transações econômicas e mais PIB. Dessa forma, como fica mais rentável investir nessa economia, o investimento cresce a reboque e a poupança doméstica ou externa também acaba vindo de algum lugar para financiar. Não é mais o governo que toca o processo de desenvolvimento. Portanto, o setor privado precisa ser motivado. E para ser motivado precisa de produtividade.

    A demanda da economia está crescendo bem. Bateu na capacidade de oferta potencial e isso começa a pressionar os preços. Por outro lado, já estamos vendo um crescimento bastante significativo da produção de bens de capital. Acredito que essa pressão vá arrefecer ao longo do tempo por causa do investimento que está crescendo porque a economia está melhor mesmo. Falta ainda fazer reformas decentes, tributária e fiscal, para alavancar a produtividade. Não dá para reduzir imposto sem cortar gastos.”

LEDA PAULANI

    “É possível adotar políticas de estímulo aos investimentos, mas elas somente terão efeito no aumento efetivo da capacidade de produção com o tempo. O que acontece agora é conseqüência da política econômica praticada já há algum tempo. Sou muito crítica em relação a isso e sempre apontei para essa questão. Falava-se que faltava poupança na economia, depois que o crescimento era sustentável e agora, quando cresce um pouquinho, não há fôlego para ir adiante. Na realidade, houve um grande esforço em termos de superávit primário, uma política monetária super rigorosa, mas o estoque de capital produtivo do país não cresceu. 

    A política monetária é o maior inibidor do investimento, porque faz com que o retorno de qualquer projeto tenha de ser muito elevado para estimular os empresários a investir. Se você facilita a vida empresarial e eventualmente reduz a carga tributária, isso funciona, mas não é o fundamental. Para a retomada do investimento, é essencial a existência de boas expectativas, que o retorno do investimento seja bom. Há igualmente a influência da política monetária que define a taxa de juros. Em última instância, combinado com as expectativas, é o que determina a decisão do empresário de investir ou não. O governo teve espaço e condições para reduzir as taxas de juros e deixá-las num patamar bem civilizado, mas não fez isso. Agora, com a ameaça da volta da inflação, o mercado financeiro impede que elas sejam reduzidas.”

Data do Conteúdo: 
sexta-feira, 1 Agosto, 2008

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