Os desafios do atuário no novo panorama previdenciário

Não é fácil ser atuário no Brasil. Agir e sofrer hoje para construir um futuro melhor ou articular o curto prazo e negligenciar o futuro, o que escolhemos? Resposta recorrente que fizemos nos últimos séculos: louvamos o curto prazo pensando muito pouco, quase nada, no amanhã. 

Ledo engano supor que as escolhas menos conflituosas não geraram sofrimento. O sofrimento será maior, mas será amanhã. Esse autoengano anestesia e emburrece. As estatísticas de crimes, balas perdidas, doenças infectocontagiosas, morte e invalidez no trânsito, milhões morando em aglomerados urbanos caóticos e tantos outros etceteras provam estatisticamente nossa displicência com o futuro, com os riscos, com os encadeamentos lógicos de causas e consequências. Há em Atuária e nas sociedades um debate implícito entre prêmios, reservas e indenizações; entre perdas, riscos e severidades; entre formigas e cigarras.

Atuários respiram probabilidades, portanto, não sabemos o que acontecerá, mas sabemos calcular suas probabilidades. Sabemos calcular as probabilidades e as severidades das escolhas e seus encadeamentos. Sabemos que se não fizermos grandes e profundos sacrifícios agora (inclusive nas aposentadorias do funcionalismo público), teremos altíssima probabilidade de um futuro tenebroso, crise fiscal em larga escala, tal qual a que o Rio de Janeiro vivencia hoje, aumento exorbitante de impostos, catatonia terminal dos sistemas públicos de saúde e educação e etceteras. A força gravitacional dos gastos previdênciários será o equivalente fiscal de um buraco negro galáctico.

Os atuários têm profundo ferramental técnico para estimar a amplitude, alcance e sequelas nacionais que serão geradas. Os entes públicos (prefeituras, estados, união, autarquias, estatais etc) têm dados cadastrais dos atuais e dos futuros aposentados. Com essas informações, com tábuas atuariais adequadas e hipóteses aderentes à realidade brasileira, todos os atuários, em particular da FEAUSP, poderão projetar o enorme peso que recairá sobre as próximas gerações. Essas projeções são fundamentais para deixarmos claro para os 210 milhões de brasileiros a amplitude do desafio. Atuária, em previdência, além de ser uma área do conhecimento que quantifica, também é uma área que deixa as perspectivas de futuro transparentes. Essa transparência é fundamental para que os eleitores possam decidir com consciência e sobriedade.

Há na nossa cultura latino-americana uma predominância de festividade, displicência e irresponsabilidade. Desde as capitanias hereditárias quem governa pensa pouco no futuro, prioriza seus amigos e parentes, usurpa e deteriora a coisa pública. Declaramos a República, mas não educamos republicanos. 

Temos que ter atuários nas prefeituras, nos governos estaduais, nas médias e grandes corporações, no congresso, nas assembleias legislativas e câmaras de vereadores. Atuária é um ingrediente vital, amargo e inevitável num país que precisa de especialistas que sabem agir hoje mirando o futuro. Atuária no Brasil atingirá a mesma relevância e importância que tem no mundo, mas, haverá sofrimento de curto prazo, por exemplo: aprofundar a base quantitativa (Matemática, Estatística, Teoria Econômica e Computação) das novas gerações de atuários. Não há futuro próspero sem algum sofrimento imediato.

Luiz Jurandir Simões
Professor do Dep. de Contabilidade e Atuária da FEAUSP

Gente da FEA - agosto de 2017

 

Data do Conteúdo: 
terça-feira, 8 Agosto, 2017

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