O mercado de trabalho para quem tem mais de 50 anos

Breno Queiroz

 

Desemprego, reforma trabalhista e reforma previdenciária aparecem constantemente nos cadernos econômicos de alguns anos para cá. A relação entre essas variáveis causa grandes preocupações para quem compete no mercado de trabalho atual. De um lado, o aumento no tempo de contribuição previdenciária pode empurrar os mais velhos de volta à ativa. Do outro, o desemprego e a flexibilidade da reforma trabalhista “empurram” os jovens para fora do mercado de trabalho formal. Com mais competição, as empresas optam pelos mais experientes. Assim, o mercado de trabalho brasileiro vem envelhecendo. O professor Wilson Amorim, docente do departamento de administração da FEA e especialista em gestão de pessoas, demonstrou essas e outras tendências em aula para o programa USP Aberta à Terceira Idade.

 

Amorim explicou como são definidas as classificações da população em idade de trabalhar (14 anos ou mais). O IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística teve recentemente sua metodologia criticada pelo presidente Jair Bolsonaro. Nela são excluídos da conta do desemprego os chamados desalentados, que tem idade para trabalhar, mas que não procuraram emprego nos últimos 30 dias anteriores à pesquisa. Portanto, o termo desempregado, ao contrário do senso comum, não é simplesmente quem não possui um emprego.

 

Amorim evidenciou as tendências demográficas do Brasil. O período de bônus demográfico, quando a população em idade economicamente ativa é maior do que a população não produtiva (idosos e crianças), está próximo do fim. “É um período propício para o desenvolvimento do país”, afirma o docente referindo-se ao bônus demográfico, no qual a contribuição previdenciária é maior e a pressão sobre os gastos com educação é menor.

 

Desde de 2014, o aproveitamento do bônus tem sido atrapalhado pela crise. O fechamento desse ciclo significa o envelhecimento da população em idade ativa, e a crescente incorporação de trabalhadores na faixa de 50 anos ou mais -- fatores que são acelerados pelo grande contingente de desempregados, na maioria jovens. Dos desocupados contados pelo IBGE, mais de 25% estão entre 18 e 25 anos. A competitividade também faz com que a entrada no mercado de trabalho seja adiada para se alcançar maior escolaridade e especializações.

 

Outro índice citado por Amorim e que se relaciona com o desemprego é a razão de dependência. Ela equivale à razão entre as pessoas economicamente dependentes, e as economicamente ativas; e tende a aumentar, criando um cenário de centralização do sustento da família. Complementando-se com os dados de envelhecimento da mão de obra, podemos afirmar que essa centralidade será ocupada pelos membros mais velhos da família.

 

Para encerrar sua análise, o professor expôs uma pesquisa feita pela FIA (Fundação Instituto de Administração) em parceria com a editora Abril, que analisou um conjunto de 150 empresas potencialmente melhores para se trabalhar. Os dados além de confirmarem a tendência de envelhecimento, também mostram como a divisão de gênero faz parte da disputa no mercado de trabalho. Os homens são mais contratados em relação às mulheres. Tudo indica a retração para um modelo de família com um provedor masculino.

      

 

Data do Conteúdo: 
Quarta-feira, 24 Abril, 2019

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