Inteligência artificial é motor de inovações para empresas

Por Bruno Carbinatto

A busca pela inovação é uma tendência global no mercado. Os desdobramentos da quarta revolução industrial, porém, têm tornado o processo de inovação complexo e imprevisível, com novas tecnologias surgindo a todo momento e alterando radicalmente a dinâmica de mercado. A FEAUSP recebeu, no dia 14/06, o evento “Permissionless innovation: das neurociências às novas fronteiras de negócios para a inteligência artificial”, que buscou debater a interdisciplinaridade e as várias facetas desse processo nos negócios.

Na abertura das palestras, o professor titular da FEAUSP Guilherme Ary Plonski lembrou que a inovação sempre foi objeto de controvérsia na história. “Isso mudou, porém, com o utilitarismo e a ideia de progresso, que ganharam força no século 19”, explicou. Hoje, o interesse pela inovação é compartilhado com todos os países do mundo, sendo inclusive uma ponte entre eles, mas ainda é objeto de tensões, principalmente no que é relacionado à regulação estatal. “Até que ponto a inovação deve ser regulada? E, se for, deve ser anteriormente ou posteriormente [da prática]?”, questiona Plonski.

Por sua vez, o chefe do Departamento de Administração da FEAUSP, professor Moacir de Miranda Oliveira, lembrou a todos que é cada vez mais importante que a ciência se encontre no mercado, visto que “mudanças dramáticas estão acontecendo em uma velocidade espantosa”.  Segundo ele, isso acarreta em “desafios éticos e de planejamento, tanto para empresas quanto para o Estado em si”, e, por isso, é imprescindível discutir o encontro da ciência com o mercado o quanto antes.

A inovação disruptiva — como é chamado o processo em que a novidade é responsável por alterar drasticamente o mercado, geralmente através de uma simplificação — também traz outros problemas e questões a serem pensadas. Como ficam, por exemplo, os Conselhos Administrativos diante tudo isso? É o que indagou o professor da FEAUSP no painel Extreme makeover no andar de cima: assertividade dos conselhos em contextos disruptivos, “os conselhos administrativos estão preparados para lidar com essa inovação?”. Para ele, é preciso que os profissionais da área se capacitem para enfrentar o cenário da mudança de forma mais adequada.

E na prática?

Não basta ficar só na teoria: a inovação tecnológica já chegou no mercado, e se manifesta de maneiras práticas e palpáveis. O neurocientista e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Álvaro Machado Dias contou como a neurociência e suas tecnologias podem ser aplicadas em empresas, inclusive impactando diretamente o processo decisório, área central na linha de pesquisa do professor. Utilizando o chamado “EEG social”, é possível sintonizar um time de profissionais, por exemplo, otimizando suas ideias e decisões. A sua fala inicial contou também com um experimento prático, em que espectadores foram convidados ao palco para medir as respectivas atividades cerebrais e detectar a sintonia do grupo em questão.

No setor imobiliário, as inovações através de uso de tecnologias também ganham espaço.  Na mesa Como tornar o mercado imobiliário mais eficiente, justo e dinâmico por meio da inteligência artificial aplicada à gestão de riscos, o professor e empreendedor Rafael Sasso e os profissionais da área Leandro Abreu e Mauro Meinberg comentaram como as mudanças vêm impactando um dos mercados mais cristalizados do capitalismo atual. Sasso lembrou das chamadas fintechs: startups focadas em prestar serviços financeiros a fim de simplificar a burocracia. Essas empresas, inicialmente focadas no mercado financeiro, passam a abarcar também o setor imobiliário, além de agregar tecnologias como o uso da inteligência artificial, resultando nas chamadas “AI-based real estate fintechs” (fintechs de imóveis baseadas em inteligência artificial). Apesar do nome difícil, essas tecnologias buscam simplificar a nossa relação com o mercado imobiliário. Leandro Abreu cita, por exemplo, o processo de precificação de imóveis (que depende de vários fatores); a pesquisa de preços (muitas vezes incômoda para o consumidor) e o financiamento imobiliário (complicado e burocrático). Nesse sentido, os robôs se saem melhores que a gente. “A inteligência artificial (IA) é mais eficiente que os humanos em atividades estruturadas e repetitivas”, completou Sasso.

Homem x máquina?

Na última mesa, Novas tendências em machine learning e o futuro dos negócios, foi pautada a relação do humano com a máquina e como a inovação disruptiva vai afetar o que conhecemos por empreendedorismo atualmente. O matemático e professor Eduardo Oda lembrou que a inteligência artificial ainda esbarra em problemas e obstáculos, como “a abundância de dados, os ajustes complexos e interpretação de variados modelos”. Para ele, a melhor solução é o estabelecimento de uma parceria entre máquinas e humanos. As máquinas possuem melhores modelos e dados, enquanto os humanos entram com a subjetividade e ética, capazes de corrigir as pequenas distorções dos modelos matemáticos da inteligência artificial, gerando, assim, melhores resultados.

Em sua segunda fala da noite, Álvaro Machado Dias ressalta que a relação entre humano e máquina pode ser cada vez mais benéfica. “A inteligência artificial não substitui o humano, mas pode somar em áreas como criação e execução”. Ele cita os exemplos da IA do Google, que derrotou o campeão mundial em uma partida de Go!, jogo de tabuleiro e estratégia com uma quantidade imensa de movimentos possíveis. Além disso, a inteligência artificial pode ajudar em processos terapêuticos e psicológicos, como a prevenção de suicídios e o estabelecimento de uma interação com os pacientes, a fim de facilitar o trabalho dos terapeutas.

 

Data do Conteúdo: 
quarta-feira, 20 Junho, 2018

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