Impacto 2.5 fomenta o debate sobre negócios com preocupação social

Reportagem: Beatriz Arruda e Dado Nogueira

Com o objetivo de fomentar a discussão acerca do impacto social e desempenho financeiro de empresas, a FEA Social, organização sem fins lucrativos gerida por alunos da FEAUSP, realizou a 4ª edição do evento Impacto 2.5, nos dias 31 de maio e 01 de junho. O setor 2.5, em crescimento ao redor do mundo, se afirma como um modelo híbrido, já que se preocupa em resolver os problemas sociais, como as organizações do terceiro setor, mas que empresta as estruturas de empresas tradicionais do segundo setor. Através de palestras, o evento se propôs a debater e apresentar empresas financeiramente sustentáveis, inovadoras e que têm como intuito principal gerar impacto.

Ex-Feanos no Terceiro Setor

A Fundação Lehmann foi criada por Jorge Paulo Lehmann em 2002 e tem a missão de colaborar com pessoas e instituições em iniciativas de grande impacto que contribuem para a educação, além de formar líderes preocupados com os problemas sociais do país. Segundo Victoria Giroto, Trainee da Fundação, eles acreditam muito em dois pilares da educação: excelência e equidade: “Acreditamos que a educação só vai mudar através da educação pública”, afirma.

Reflexo do crescimento desse setor, a participação de feanos na área aumenta. Victoria Giroto, por exemplo, estudou Ciências Contábeis na FEA e até tentou seguir carreira na área financeira. No entanto, sentiu falta de um contato mais direto com iniciativas que visem mudar, de alguma forma, a situação do Brasil. Viu na educação e na Fundação Lehmann uma oportunidade: “Muito mais do que ganhar dinheiro, eu queria fazer algo com propósito. Educação muda as pessoas e o mundo, e era isso que eu estava procurando”.

Fernanda Patriota Salles Ribeiro, formada em Ciências Econômicas, por outro lado, sempre gostou da área de políticas públicas e procurou seguir nessa área na graduação, estagiando no Centro de Políticas Públicas do Insper, que, segundo ela, tinha um viés de contribuir para o debate público com pesquisas que ajudassem a entender as políticas públicas que realmente causavam impactos e traziam melhorias sociais positivas para a sociedade. Decidiu testar outras frentes de trabalho, mas também viu que o terceiro setor era a área em que realmente gostaria de atuar.

“Existem muitos caminhos além das tradicionais carreiras em banco e consultoria que nós escutamos nas faculdades”, afirmou Cristina Castellan, também formada em Ciências Econômicas. Egressa de escola pública, teve a oportunidade de participar de um projeto social no terceiro ano do ensino médio que a ajudou a ingressar na universidade, sendo, então, impactada pelo terceiro setor. Durante a graduação, como retribuição, engajou-se no cursinho popular FEAUSP e presidiu a entidade no ano de 2014. Como Victoria e Fernanda, também tentou carreira em outras áreas, mas viu que não era o que queria. Porém não deixa de salientar: “Eu estou no terceiro setor porque se encaixa melhor para mim, não significa que outras pessoas têm trabalhos menos nobres do que o meu.”

Contribuindo para uma sociedade mais justa

Para Fabiana Dias, sócia no Vivei.ro, espaço de eventos e coworking na cidade de São Paulo, o necessário para que o negócio se sustente e cause benefícios sociais é prestar um bom serviço, com empatia, centrado no ser humano, que agregue memórias prazerosas às partes envolvidas. Para ela, o pensamento “eu resolvo e entrego” não é a solução, mas sim uma lógica colaborativa de “nós resolvemos juntos”.

Cássio Aoqui, cofundador e CEO da ponteAponte, mostrou partilhar desse pensamento ao afirmar que a ideia do empreendedor social como herói solitário que resolverá as coisas está ficando para trás. Para o empresário, cada vez mais, a lógica colaborativa e lideranças compartilhadas vêm fazendo a diferença. Cássio apontou como os negócios sociais atuais vão contra a divisão clássica “governo, empresas e ONGs”. A ponteAponte, por exemplo, é uma empresa que visa o lucro e também promove impacto social, atuando em quatro campos: avaliação e premiação, comunicação, desenvolvimento e gestão de redes e parcerias.

O empresário também colocou as contraposições que ainda existem no campo dos negócios sociais. As ONGs, por um lado, vivem a problemática de dependerem de doações e não possuírem autonomia para automanutenção. Os negócios sociais, por outro lado, são ditos problemáticos por reproduzirem e utilizarem modelos que já não deram certo, socialmente falando: o de empresas ligadas ao capital financeiro. Para Cássio, o debate é válido e necessário, mas a solução seria o impacto coletivo, ou seja, todos unidos pelo diálogo com uma causa comum: melhorias sociais. Com o modelo de mercado atual, faz-se necessário o apoio do poder público. Nenhum “herói solitário” será capaz de promover grandes melhorias na sociedade. “Se apaixonem pelos problemas, e não pelas soluções”, diz Fabiana Dias. O objetivo comum é que os problemas sejam solucionados e que o impacto social seja gerado. “Devemos construir mais pontes e menos muros”, completa Cássio, colocando essa frase como um lema da ponteAponte

A intenção como protagonista

Fábio F. Meyer Kestenbaum, da Positive Ventures, acredita que o impacto está muito ligado à intenção do empreendedor e do time de gerar um benefício social e ambiental com escala e retorno financeiro. Para ele, é essencial que se avalie o impacto gerado a partir de cada investimento, de cada ação e de cada decisão que se toma. E é isso o que visa a Positive Ventures, empresa que investe em negócios inovadores e que geram impacto positivo - combinando propósito, retorno financeiro e escala.

Segundo Fábio, a sociedade vive uma época de fragmentação da vida pessoal e profissional, em que não temos mais a noção do nosso lugar na cadeia produtiva. “A grande causa é a falta de consciência. Não sabemos qual é o nosso impacto na cadeia, se ela é ou não sustentável e, por isso, não nos sentimos responsáveis pelos desastres que acontecem.” Tragédias como o desmoronamento de uma fábrica têxtil em Bangladesh e o desastre de Mariana, no Brasil, são efeitos desse distanciamento e falta de consciência dos nossos impactos na sociedade. “O denominador comum é que existe uma cadeia em volta de qualquer negócio e nós, enquanto cidadãos, somos parte dessa cadeia. Então nós pecamos por omissão ou em ações equivocadas. Clientes, fornecedores e poder público têm sua parcela de culpa ou sua parcela de contribuição positiva”.

Para ele, a força dos negócios pode ser muito importante para mudar esse cenário e trazer transformações positivas para todos. Os negócios têm sua própria função, mas também podem ter significado e propósito, visando o impacto positivo que leve em consideração questões sociais, ambientais e econômicas. “O sonho é que os negócios incorporem valores positivos, éticos, responsáveis, sociais e ambientais. Com essa nova geração e com esse novo conjunto de valores, naturalmente o consumidor irá pagar mais por um produto que ele conhece e valoriza a cadeia”.

Data do Conteúdo: 
quarta-feira, 7 Junho, 2017

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