II Fórum de Qualidade de Vida da FEA discute a intolerância

Por Bruno Carbinatto 

 

O ambiente universitário é, historicamente, um ambiente de livre debate de ideias e posições. Correntes opostas se colocam na discussão, resultando em novas mudanças. Mas tudo isso só é possível por conta de um fator: tolerância. O respeito à diversidade e a pluralidade sempre foram características da Academia, mas podem ser abaladas por episódios de intolerância, especialmente em épocas de polarização política.

A diretoria da FEA, composta pelos professores Fábio Frezatti e José Afonso Mazzon, está disposta a discutir democraticamente o tema com sua comunidade e promoveu o II Fórum de Qualidade de Vida, focando na questão da tolerância. O evento é o segundo de uma série de palestras e discussões a respeito do bem-estar no ambiente feano – o primeiro focou em saúde mental.

A mesa, composta por duas docentes, duas alunas e duas funcionárias, foi mediada pela Prof.ª Ana Cristina Limongi-França, psicóloga e pesquisadora na área de bem-estar profissional. Ela comentou que a motivação para a temática foi “pensar questões da diversidade e do fervor ideológico dentro da Universidade, especialmente em épocas eleitorais”.

Márcia Bispo, assistente administrativa da FEA, lembrou que o assunto é lembrado nesse momento de eleições, mas que não deve se restringir somente a ele, e sim se perpetuar no imaginário acadêmico. “É importante que tenhamos o ambiente acadêmico destinado a reflexão e debate, que pode levar a convergência ou divergência, mas jamais deve resultar em discriminação.”

Representando os alunos de pós-graduação, Clara Brenck, aluna do Mestrado em Economia, ressaltou que, apesar de a questão surgir em momento eleitoral, não se trata de política, mas de valores básicos, como a igualdade, a tolerância e a diversidade. Ela ainda incita que o diálogo deve transcender os limites acadêmicos e englobar a sociedade como um todo: “Sabemos dialogar, mas ainda precisamos ouvir muito”.

Laura Valladão de Mattos, docente do Departamento de Economia, trouxe também contribuições teóricas para a discussão. Pesquisadora especializada na obra de John Stuart Mill, um dos maiores economistas liberais do século 19, Laura ressaltou que a diversidade e a individualidade também são importantes para o desenvolvimento e o progresso humano. Portanto, pensamentos contraditórios devem ser ouvidos, e a minoria deve ser protegida da maioria, para que haja sempre esse debate.


Quanto à diversidade na FEA, Margarida Maria de Sousa, chefe técnica da Biblioteca da faculdade, lembrou que o respeito deve sempre ser colocado acima de tudo. Filha de baianos, Margarida venceu todos os preconceitos e se doutorou pela USP. “Eu acredito em uma Universidade com igualdade de oportunidades e acesso para todo mundo, e no respeito mútuo.”

As minorias na FEA, porém, não são apenas sociais, mas também numéricas, como lembrou Beatrice Fontenelle-Weber, aluna do terceiro ano de graduação em Economia e representante do Centro Acadêmico Visconde de Cairu. As mulheres, por exemplo, representaram 30% dos alunos de graduação em 2017 e apenas 24% das docentes da Faculdade. Nesse sentido, medidas institucionais de preservação dessas minorias se fazem mais do que necessárias.

O professor Frezzatti finalizou o Fórum convidando a todos ao diálogo para a construção coletiva de melhorias, como vem pregando em sua gestão. Veja os depoimentos de alguns feanos:

 

Lucas Herzog - aluno de Economia

“Discutir a questão da tolerância é importante porque a FEA, historicamente, no curso de Economia, é uma das faculdades mais plurais do Brasil. Eventualmente, algumas visões e teses ficam mais predominantes, mas aqui sempre houve espaço para o debate. Sempre tivemos professores de diversas matrizes teóricas e isso é um valor muito importante, e que só é possível porque há espaço de debate que se reflete também na questão acadêmica. Então, proteger o espaço de discussão e boa convivência é também proteger essa característica tão importante do curso de Economia da FEA, que a fez ser tão importante e de ponta que ela é no Brasil e no mundo. O autoritarismo sempre vai tentar sufocar as pessoas em espaços cada vez mais reduzidos. No domingo [dia da eleição], pela primeira vez em muito tempo, eu estava efetivamente com medo de andar na rua. Eu estava com adesivo do meu candidato, e sentia que pela primeira vez em muito tempo eu poderia ser reprimido por aquilo. Aqui [na FEA], sempre me senti muito tranquilo. Acho que isso está em jogo.”

 

François Boris - aluno de Economia

“Em um momento desse que o Brasil entra em uma época de extremismo, e os extremos não se toleram, é muito importante que a gente consiga não trazer isso para a Universidade e mantê-la um ambiente de debate. Claro que tem coisas que passam desse ponto. A partir do momento que chegamos em violência ou ameaça à integridade física de qualquer pessoa, eu acho que é uma coisa que tem que ser cortada e lidada institucionalmente, como vem sendo feito na FEA e espero que continue sendo.”

 

Cássio - aluno de Administração

“Eu entrei na FEA e era parte do Movimento Brasil Livre, fui um dos fundadores. Assim como hoje a gente fala de empatia – e isso é uma autocrítica para todos nós –, a gente tem que ser empáticos também com quem pensa de maneira distinta. Quando eu entrei na FEA, eu não senti empatia nenhuma por aqueles que pensavam de maneira diferente de mim. Foi a partir do segundo ano que isso começou a mudar, comecei a atuar em uma linha que eu não atuava antes e até repudiava anteriormente. Isso foi de fato uma transformação na minha vida, e isso só foi possível porque tiveram alguns amigos meus, liberais, que tiveram sensibilidade comigo para conversar e falar ‘você está percebendo que esse caminho que você está tomando não é o melhor caminho para aquilo que você mesmo pensa?’.”

 

Ivan Francisco de Sousa - Funcionário da Tesouraria

“Quando há o radicalismo, fica difícil de convencer a pessoa a pensar o contrário. Eu convivi durante dois anos no Sindicato da USP e nós tivemos uma luta muito grande a favor dos LGBT, contato com feministas, machistas em desconstrução como eu, porque querendo ou não você faz certas coisas que você não nota que o machismo tá embutido ali. E, conforme você está com pessoas que tem um comportamento inadequado, cabe a nós alertamos que ela está equivocada. A questão de desconstruir é o nosso trabalho”.

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 12 Novembro, 2018

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