"Guerras híbridas e a democracia" é tema de debate na FEAUSP

Breno Queiroz

 

Quem nunca ouviu que “a guerra é a continuação da política por outros meios”? Essa célebre afirmação foi proposta por um dos mais referenciados teóricos da guerra, desde o século XVII, Carl von Clausewitz. Ele foi citado durante o evento “Guerras Híbridas e Democracia: Interferência nas redes”, organizado pelo CAVC (Centro Acadêmico Visconde de Cairu) e pelo Grêmio Politécnico.

 

Para falar do assunto em pauta, era natural a presença de especialistas das relações internacionais. Esse espaço foi ocupado pelo mestrando do IRI-USP (Instituto de Relações Internacionais), Victor Veloso, que pesquisa sobre a guerra cibernética entre Estados Unidos e China. Ele também já fez parte da equipe de “direitos digitais” do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor). 

 

Outro componente da mesa, também da área, foi Alcides Peron, com mestrado e doutorado em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp, e autor do livro “American Way of War: Guerra Cirúrgica e o emprego de Drones Armados em Conflitos Internacionais”.

 

Embora estivesse com a presença confirmada, o terceiro integrante da mesa, o jornalista Breno Altman, não pode comparecer. Quem veio em seu lugar foi Artur Araújo, consultor em gestão pública e privada da FNE (Federação Nacional dos Engenheiros).

 

A herança dos conceitos elaborados por Clausewitz está no cerne daquilo que os militares atualmente chamam de guerra híbrida. A trindade — um triângulo envolvendo os três atores principais de um conflito: sociedade, forças armadas e Estado — pensada pelo general prussiano, é usada para escamotear a política e evidenciar a estratégia.

 

“Em um conflito tradicional, temos dois triângulos, com as forças armadas de um país disputando contra as forças armadas de outro, pelo controle do Estado”, afirmou Alcides, como esse sendo o ponto de partida para a nova formulação. No entanto, segundo ele, as ideias de guerras híbridas pretendem que, ou as forças armadas de um país, ou a sociedade — incluindo universidades, empresas privadas e outras organizações — podem influenciar na sociedade de outro, para obter o controle do Estado.

 

Como é comum na academia, o termo é desqualificado pela sua imprecisão e intencionalidade. “Vários autores vão colocar que a guerra exige esse movimento sobre a moral das pessoas”, disse Alcides. E ainda deu exemplo da cena inicial do filme Dunkirk (2017), do diretor Christopher Nolan, quando soldados ingleses são retratados recebendo uma chuva de folhetos. Jogados por aviões alemães, os folhetos diziam “We surround you” (Nós te cercamos), com um mapa inteiro coberto de vermelho, a não ser pela praia de Dunkirk, onde os aliados faziam sua retirada da França.   

 

Victor lembrou que as guerras híbridas têm a ver com a construção da informação. E foi completado por Artur, descrevendo que o cenário de expansão da comunicação em rede é propício para que os conflitos não necessariamente assumam uma forma violenta para disputa do controle. Segundo ele, “quando transpomos o conceito de guerra híbrida, do mecanismo militar, para a arte de influenciar pessoas pelo valor das suas ideias ou pela desvalorização das ideias do oponente, tem grandes chances que estamos falando de política.”  

 

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 2 Setembro, 2019

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