Governança e gestão de pessoas como fatores essenciais

César Costa

 

No dia 26 de maio, a última roda de conversa do livro Negócios de Impacto Socioambiental no Brasil abordou os dois capítulos finais. Novamente, o evento contou com a presença dos coordenadores da obra Graziella Comini, Edgard Barki e Haroldo Torres, além de outros autores convidados: Rosa Maria Fischer e Valentim Biazzoti, que junto com outros pesquisadores escreveram o capítulo 15, e Flavia Oliveira e Marcel Fukayama, autores do capítulo 16.

Diferente dos outros encontros, nesse a discussão com pouco mais de 50 participantes começou pelo capítulo 16 e não o seu antecessor. O capítulo 15 tratava de negócios de impacto e gestão de pessoas e o último sobre governança e estrutura jurídica. 

Governança e estrutura jurídica para negócios de impacto 

A primeira exposição de ideia foi dividida em duas partes: a primeira abordando questões mais jurídicas com a Flavia Regina, e a segunda mais focada em governança com Marcel Fukayama.           

Flavia é advogada e destaca bastante os problemas futuros se os requisitos jurídicos não forem tratados com o devido cuidado. Ela afirma: “o objetivo do capítulo nessa parte mais jurídica era mostrar aos leitores que os negócios do impacto, apesarem de serem comprometidos com causas, não tem nenhuma diferença de qualquer outro”.

Não seguir de forma adequada as normas jurídicas podem ter consequências graves para o negócio. De acordo com a pesquisadora, os riscos não compensam. É possível sofrer questões trabalhistas, perder investidores, entre outros problemas. 

Ela defende no artigo que a estrutura jurídica, e de governança também, quando são estrategicamente compreendidas, podem auxiliar e impulsionar atividades, alavancar o negócio, dando maior sustentabilidade. “Quando não se cuida dessa questão jurídica, no médio/longo prazo pode haver inviabilização de ações de investimentos e, consequentemente, engessar as atividades”, alerta Flavia. 

Embora haja toda essa preocupação, ela também faz ressalvas. Mesmo sendo necessário estabelecer boas práticas de governança e jurídicas desde o momento inicial, nem sempre é possível cumprir tudo isso com perfeição. As medidas devem ser adequadas ao tamanho da organização e, eventualmente, adotar alguns padrões mínimos de governança e de conformidade legal. “À medida que o negócio melhora, os padrões são aprimorados” explica. 

No fim de sua fala, a advogada coloca importantes pensamentos para se refletir em tempos de estruturação jurídica. Em primeiro lugar, ela conta que é preciso pensar na transparência, em especial com os stakeholders.  Além disso, avisa que não é errado pensar em opções de uma estrutura complexa logo do começo, mas que é possível também depender das publicidades de pequenas empresas, ter uma divulgação simples, e isso já conta como uma forma de ser transparente.

Em continuidade a fala de Flavia, Marcel abordou governança como um aspecto imprescindível para as empresas, independente de tamanho e porte. “Empreendedor precisa entender que a governança é para ele, não só para empresas gigantes. Isso ajuda a tratar todos stakeholders e consumidores melhores” explica o pesquisador.

Dentro da temática, ele alerta que não existem negócios bons com pessoas ruins. E a governança ajuda justamente a tratar dessa questão. O palestrante exemplifica: hipoteticamente, dois empreendedores têm uma excelente ideia de negócio, mas por falta de governança, não há um alinhamento básico num contrato social, e essa passa a ser uma dimensão negligenciada.

Marcel também trouxe uma pesquisa para reforçar suas ideias. Depois da consulta à 400 investidores, foi visto a governança como principal fator que mitiga risco nos momentos de maior perigo do empreendimento. “Muitas vezes no vale da morte há uma relação assimétrica. E pode não haver consciência que a ausência de governança pode acabar com o negócio”, finaliza o pesquisador. 

Reinventando a forma de gerir pessoas

Graziella Comini, mediadora das rodas de conversa, também é autora do livro. Ela escreveu o capítulo 15 junto com Rosa Fischer, Mauro Romano e Valentim Biazzoti. Nessa parte, dois pontos de vistas foram misturados: duas visões mais acadêmicas de Rosa e Graziella, e outras duas mais empreendedoras e práticas de Mauro e Valentim.

Esse é um capítulo que foca na questão das pessoas. Graziella vê que a jornada do empreendedor costuma ser bem sucedida quando são trazidas pessoas imbuídas dos mesmos princípios e valores.

De acordo com a pesquisadora, há uma busca incessante de profissionais híbridos e as dificuldades de encontrar tal perfil levam a frustração. “Nem todo mundo já transitou entre impacto e lucro” explica.

E, fechando a visão mais geral do capítulo, ela destaca como elementos chaves a criação de uma cultura de aprendizado, de transparência e de repensar formas de ir além dos incentivos financeiros. Ou seja, pensar em alternativas de recompensas, que não costumam ser trabalhadas em outras organizações.

Rosa Fischer dá continuidade a fala de Graziella. Primeiro, ressalta que sua experiência sempre a alertou para o fato de que o empreendedor deixa a gestão de mudança como uma questão marginal. Também relembra que existem grandes dificuldades em competir no mercado para trazer talentos ou mesmo achá-los e os negócios em geral não tem a capacidade financeira de competir com os padrões do mercado.

No entanto, seu destaque fica para questão da liderança. “É muito claro que a liderança é processo, não é pessoa. É bastante difícil explicar isso na prática, porque existe uma mitificação do líder, como se fosse alguém que nasce com essa vocação” começa explicando a pesquisadora.

Na sua visão, os empreendedores têm dificuldades de estimular liderança na sua empresa. Esse processo de liderar deveria ser disseminado em todos os componentes da equipe. No negócio de impacto, isso é importantíssimo. 

Rosa conta: “não existe um negócio perfeito, é preciso um processo de desenvolvimento e experimentação. É necessário que as pessoas se sintam empoderadas para experimentar e para contribuir com o desenvolvimento do negócio”.

E nessa questão, a pesquisadora vê uma relação com transparência. Quando há procedimentos e critérios transparentes com sua equipe, nos seus valores cultivados, o resultado são equipes bem integradas, que são coesas na ação. Não existe um herói.

Para complementar as falas, Valentim trouxe a perspectiva de empreendedor. Primeiro, ele ressalta que a carreira de um empreendedor passar por um acúmulo de perspectivas ao longo do tempo. Depois, quando fala sobre pessoa que opta por entrar no negócio social, afirma que é muito comum acontecer uma identificação com o propósito da empresa.

Além disso, destaca a importância de entender especialização e generalização. “Quando os empreendedores estão em ambientes menores, de início, é comum navegarem por muitas áreas” exemplifica. No entanto, conforme uma organização cresce, e a passagem da generalização para especialização acontece, pode vir a ser uma experiência traumática.

E, por optar por um negócio de impacto, Valentim diz que a identidade organizacional e conexão minha empresa são pontos a se levarem em consideração. É importante para quem entrar nesse universo entender a movimentação que ocorre dentro da organização. E entender as movimentações que a organização possa vir a fazer. 

Graziella ainda complementou a fala mencionando que o capítulo contribui para desconstruir a ideia de carreira vertical, como se fosse uma subir uma escada. “É mais um engrandecimento. E os negócios de impacto permitem” explica.

É comum haver a desconstrução do pensamento nas empresas dessa área. É natural também ser passageiro as pessoas dentro da organização. O fato de sair não significa uma péssima gestão de pessoas. A pesquisadora conclui dizendo que nem sempre naquele locus o profissional é preenchido e pode estar precisando sair em busca de novos desafios.

 

 

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 8 Junho, 2020

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