Goldemberg e a ciência


Ciência, tecnologia e desenvolvimento. Três palavras intrinsecamente ligadas e que fazem parte do cotidiano dos pesquisadores brasileiros. Foi o tema escolhido para a Aula Magna da FEAUSP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP), realizada em 5 de março. Por cerca de 40 minutos, o presidente da Fapesp e ex-reitor da USP,  José Goldemberg, envolveu o público com suas ideias.

Físico nuclear de formação, “cientista praticante”, Goldemberg foi presidente da Sociedade Brasileira de Física e presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). Tornou-se posteriormente especialista em energia, área que dedicou inúmeros estudos e cujo assunto permeou a maior parte de sua palestra. O Gente da FEA destaca alguns dos pensamentos do mestre Goldemberg apresentados na Aula Magna: 

“De vez em quando eu abro o jornal e descubro que tem uma universidade no Espírito Santo que aparece maior do que a USP. Eu acredito que deve ser um erro do editor “  (risos)

“Temos que entender que indicadores internacionais são esses, avaliar o que é necessário para publicarmos em revistas de maior reputação. E o valor da contribuição é um grande problema. Daí a necessidade de termos pessoas competentes aqui para saber o que está se passando no mundo e escolher inclusive o que vamos produzir”

“Os cientistas naturais adotam definições muito mais restritas sobre ciência, como é o meu caso. Ciência é a procura de relações de causa e efeito nos fenômenos que ocorrem em torno de nós”

 “O primeiro trabalho que eu fiz, logo que me formei na USP, era uma tentativa de verificar quão precisa era a lei da gravitação universal. Até hoje não se encontrou nenhum desvio dessa lei até a décima quarta decimal”

“Países que não são muito grandes ou têm limitações de produtos naturais, acabam virando colônias do ponto de vista tecnológico. Eles compram os produtos que precisam, fora”

“Eu duvido que o Burundi precise de muita ciência e tecnologia. Praticamente tudo que a gente encontra lá vem da Inglaterra ou da França. Mas um país muito grande não pode ficar dependendo disso (produtos importados). Daí a necessidade da ciência e tecnologia”

“Estou dando aqui um exemplo de como a ciência acaba se ligando com a tecnologia e o desenvolvimento. Eu acho que o problema do etanol no Brasil é um ótimo exemplo para vocês”

“Nas décadas de 70 e 80, a produção de etanol era movida unicamente por interesses econômicos. Como o preço do açúcar estava caindo, os usineiros resolveram fazer etanol. Era efetivamente caro e o governo subsidiava. Foram 30 bilhões de dólares de subsídios por mais de 20 anos”

“Meu grupo de pesquisa analisou a tecnologia utilizada na produção do etanol e verificou que havia uma curva de aprendizagem. O preço de produção da gasolina variou pouco ao longo do tempo, e o custo do etanol foi caindo, caindo, até que finalmente em 2004 cruzou com o custo da gasolina”

“Para se produzir etanol gasta-se muita energia. Será então que vale a pena? Em 1995, eu e meus colegas fizemos um balanço das energias produzidas. Definimos um indicador que é a energia que sai comparada com a energia que entra. No caso do etanol, a gente ganha 10 vezes. Ele é praticamente renovável, usa pouca energia fóssil”

“Dependendo da safra, a quantidade de etanol na gasolina varia: às vezes é 18%, às vezes 25%. Recentemente, um estudo tentou comparar a quantidade de etanol com a qualidade do ar na cidade de São Paulo. Bingo! Quanto mais etanol, menos poluição” 

“Os prefeitos das grandes cidades, como Paris, Hong Kong e Beijim, estão desesperados em acabar com a poluição, banindo o uso de automóveis. Querem colocar carros elétricos. Acontece que a eletricidade é produzida em algum lugar, longe da cidade, e polui extraordinariamente. Pra mim isso é trocar seis por meia dúzia”

“A inteligência artificial está começando a ocupar um espaço grande na literatura. E as pessoas acham que não vai precisar mais de motorista nos automóveis. Não acho que eles vão conseguir. Guiar tem um significado muito superior ao fato da Google ficar guiando seu carro. Eles vão tirar o significado que o automóvel tem na sociedade moderna, que é a liberdade de ir e vir”

“A revista do MIT está completamente dominada por uns fanáticos de inteligência artificial. Isso é ótimo para identificar faces. So what? Reconhecer faces é realmente uma contribuição muito pequena em relação ao que a gente entende por viver numa sociedade”

 

Autora: Cacilda Luna

Gente da FEA - março de 2018

 

Data do Conteúdo: 
quarta-feira, 21 Março, 2018

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