Generas debate dificuldades da mulher negra no trabalho

Brenda Fernandes da Silva

 

O Núcleo FEA de Gênero, Raça e Sexualidade (Generas) organizou, juntamente com a AMEFEA, o Geledés Instituto da Mulher Negra e a Sempre FEA, o I Encontro de Mulheres Negras no Mercado de Trabalho, em celebração ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (dia 25 de julho). As palestrantes Antonia Quintão, pós-doutoranda na FEAUSP e presidente do Geledés, e Larissa Calixto, gerente de finanças e diversidade, equidade e inclusão no Ensina Brasil e co-fundadora da Associação de Negros Feanos (ANFEA-USP), apresentaram o tema e mediaram a conversa com as convidadas Adriana Alves, professora associada no Instituto de Geociências da USP, Giselle dos Anjos Santos, historiadora e pesquisadora no CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) e Reimy Solange Chagas, psicóloga clínica e social especialista em multiculturalismo, políticas públicas, direitos humanos e sociais.

 

Antonia Quintão e Larissa Calixto começaram explicando um pouco sobre os desafios e violências que as mulheres negras enfrentam no seu dia a dia, tanto em relação ao racismo quanto ao sexismo, que caminham juntos no caso delas. Antonia destacou a importância das políticas afirmativas (como a Lei de Cotas, de 2012) para uma transformação no padrão atual onde, apesar de 56% da população brasileira ser de pessoas negras e 27,8% de mulheres negras, nas 500 maiores empresas do Brasil, apenas 10,6% das vagas em quadro de pessoal e 0,4% do quadro executivo são ocupados por mulheres negras (pesquisa do Instituto Ethos, 2016). Além disso, a maior parte dos trabalhadores em empregos mal pagos ou informais são mulheres negras – mesmo quando estão em um bom cargo, a questão da desigualdade salarial ainda permeia muito o mercado de trabalho, com as mulheres negras recebendo menos até mesmo que mulheres brancas, que já recebem menos que os homens.

 

Segundo a pesquisadora Antonia Quintão, esse cenário se dá, entre outras coisas, por causa da permanência da visão colonial de que a mulher negra é não só a cuidadora da família e da casa dela, mas também empregada e cuidadora da casa dos brancos e ricos. Muitas que assumem esse papel, inclusive, o fazem juntamente com o papel de provedora da casa, se sobrecarregando entre trabalhos precários e trabalho doméstico. Outros diversos estereótipos racistas, como em questão de capacitação, também pesam na hora da busca por cargos compatíveis com sua qualificação e também na ascensão da carreira. 

 

Adriana Alves, do Instituto de Geociências da USP, se juntou à conversa para explicar que, apesar de muitas mulheres negras terem conseguido um lugar na universidade, enfrentando situações de humilhações e agressões, ainda que veladas, e vencidas as dificuldades para permanecer e se formar, elas ainda acabam esbarrando nos “critérios” racistas das empresas e são sempre menos selecionadas, menos promovidas, e tendo bem menos acesso a cargos de liderança. A historiadora Giselle dos Anjos Santos também o mostra numa pesquisa, que aponta o índice de 159% de desigualdade para mulheres negras com a mesma qualificação, formadas nas mesmas universidades que candidatos brancos.

 

Giselle Santos e a psicóloga Reimy Chagas também comentaram sobre as silenciosas, mas não menos graves microagressões no ambiente de trabalho e universitário: a dor que está sempre latente ao fundo, da simples vontade de ser tratada com mais respeito por ser quem é; de ter que se esforçar o dobro para subir de cargo; ou o sentimento de não-pertencimento a lugares elitizados, como uma grande empresa ou a própria USP.

 

Reimy Chagas afirma que é preciso ter mais mulheres negras falando de e para as negras, não brancos “estudados no assunto” falando dos seus problemas e oportunidades, pois elas sabem e podem falar por si. Como psicóloga que trata diretamente desses problemas, ela diz que é preciso conscientizar sempre as pacientes de que isso é algo estrutural, e não culpa da vítima, e revelar para elas que muitos dos erros e desânimos no trabalho têm a ver com o preconceito, que atrapalha o desempenho.

 

“Temos que entender a classe trabalhadora, que não é toda igual porque há os preconceitos minoritários que são estruturais em cada tipo de grupo”, refletiu Giselle Santos, do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades.

 

Data do Conteúdo: 
Quarta-feira, 20 Julho, 2022

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