Fundador do Doutores da Alegria fala de bem-estar na FEA

Por Bruno Carbinatto

 

Não foi uma aula convencional: ao invés de livros e tabelas, tradicionais na FEA, o público do auditório Safra recebeu piadas e até uma dinâmica de atividade corporal. Foi uma palhaçada — literalmente. Wellington Nogueira, palhaço e fundador do Doutores da Alegria, veio à FEA para palestrar sobre sua experiência e seus estudos na área de bem-estar, com foco em um novo mindset, que ele considera disruptivo: o da brincadeira.

 

O evento foi parte integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Gestão da Qualidade de Vida no Trabalho, coordenado pela professora Ana Cristina Limongi-França, da qual Wellington é aluno especial.

 

Wellington é fundador do Doutores da Alegria, ONG que leva diversas formas de arte — como circo, música e teatro — a pacientes hospitalares, com intuito de humanizar o atendimento e melhorar o ambiente. O grupo existe há quase 30 anos, e faz parte de um movimento global de ONGs que realizam esse trabalho, nascido nos EUA. “A primeira reação que tive quando vi um palhaço no hospital foi: ‘estou olhando para o futuro’”, conta Wellington, que, na época, passou três anos atuando na Clown Care Unit, em Nova Iorque (EUA), antes de voltar para o Brasil e fundar sua própria iniciativa.

 

Além de palhaço, Welligton também é pesquisador, desde que recebeu uma bolsa do Institute for the Future (IFTF) para gerar conhecimento sobre a atuação de artistas performáticos em hospitais. Seus resultados mostram que o palhaço é um elemento disruptivo em ambientes chamados de V.U.C.A (Vulnerabilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, em inglês) — isso porque os palhaços não tentam consertar esse ambiente, e sim dialogar com ele, através de uma linguagem totalmente diferente da normal: a da brincadeira.

 

“Um palhaço é um profissional treinado para enxergar possibilidades onde ninguém mais consegue ver”, explica. Uma cadeira de rodas, por exemplo, se transforma em um veículo de corrida nas mãos dele, e uma faixa de “Não ultrapasse” se torna uma linha de chegada, enquanto o paciente é um competidor, um motorista. Aqueles elementos, que poderiam ser considerados traumáticos e negativos, se transformam em ferramentas de alegria.

 

Nesse sentido, os profissionais do Doutores da Alegria trabalham com a cocriação, ou seja, diálogo direto com os pacientes, dando-lhes a oportunidade de ser atores ativos em um ambiente muito restritivo.  Nada é roteirizado ou pronto, tudo é construído em conjunto com a plateia. Em termos acadêmicos, essa dinâmica é chamada de Patient centered care (“Tratamento centrado no paciente”).

 

Para o palhaço, no entanto, esse mindset da brincadeira não deve se restringir somente ao ambiente médico, e sim se expandir para como lidamos com o trabalho. “Hoje, não sabemos mais onde começa e termina o hospital. Estamos cultivando uma série de doenças, com a expectativa de curá-las com medicamentos. A boa notícia é que a cura existe: é a mudança do mindset e da forma de ver o mundo”, comenta.

Desse modo, três elementos seriam essenciais para repensarmos nossa relação com o trabalho, geralmente associado a sofrimento e obrigação: presença, simplicidade e playfulness, ou seja, pensar no presente, de forma simples, e com capacidade de abstrair e sair da caixinha, brincando. A brincadeira é, portanto, “o futuro do trabalho”.

Data do Conteúdo: 
quinta-feira, 2 Maio, 2019

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