FEA Sustentabilidade - Rio+20: O Futuro que Queremos

"O maior legado talvez seja a consciência ambiental e os valores morais e éticos dos jovens desta geração pós-Rio92 e que ingressam na FEA a cada ano."

Foto evento Rio+20A menos de 100 dias da Rio+20, temas e problemas para serem debatidos se acumulam e sobram críticas para o draft zero da declaração "O Futuro que Queremos", rascunho do documento oficial que será apresentado pela Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, no seu final.

Por essa razão, é fundamental que a sociedade civil participe, opine e encaminhe sugestões. Esse foi o ponto de partida do encontro promovido pelo Centro Acadêmico Visconde de Cairu (CAVC) e a Comissão FEA Recicla & Sustentabilidade, na FEA, no dia 14 de março, e que reuniu palestrantes de diferentes áreas: professores Ricardo Abramovay (Departamento de Economia) e José Roberto Kassai (Departamento de Contabilidade e Atuária), Maria Christina Motta Gueorguiev (advogada e integrante da Sociedade Brasileira de Direito Internacional do Meio Ambiente) e Daniela Chiaretti (repórter especial de ambiente do jornal Valor Econômico).

A Rio92 reuniu líderes de 109 países e cerca de 30 mil pessoas. Produziu três tratados ambientais - a Convenção do Clima, a da Biodiversidade e a do Combate à Desertificação -, mas os resultados concretos deixaram a desejar. Não houve avanço na mudança climática, na proteção da biodiversidade e as regiões áridas passaram a registrar secas cada vez mais fortes. Para a Rio+20 são esperadas mais de 50 mil pessoas de mais de 150 países e a proposta é debater a chamada Economia Verde.

"Os resultados podem parecer pequenos diante das mudanças que necessitamos para construir uma sociedade equitativa e sustentável, ou diante da magnitude dos desafios socioambientais de nossa civilização. Mas, por outro lado, o maior legado talvez seja a consciência ambiental e os valores morais e éticos dos jovens desta geração pós-Rio92 e que ingressam na FEA a cada ano", comenta professor Kassai, que preside a Comissão FEA Recicla & Sustentabilidade.

Para Maria Christina Motta Gueorguiev, debater amplamente as questões ambientais é hoje crucial. "Até a Rio92, só se falava de contaminação, o legado da indústria química. O encontro despertou a atenção da sociedade e lançou desafios. Agora, na Rio+20, em que o tema é Economia Verde, virão novos desafios. O dia seguinte será o mais importante. Novos parâmetros nortearão o nosso trabalho, assim como os compromissos firmados exigirão capacitação humana e transferência de tecnologia", coloca a advogada.

Rio+20O formato da Rio+20 é diferenciado e o momento é outro. "As conferências das Nações Unidas são encontros de governos. Na Rio92, a discussão começou bem antes e foi intensa a negociação para se chegar às convenções apresentadas no final. Agora, às vésperas da Rio+20, o que se sabe é que não faltam coisas urgentes para serem debatidas. Vejo esse encontro mais como o início de um novo processo de discussão. Acredito que não haverá um documento de peso nos moldes de uma convenção ou um protocolo, por exemplo. Mas poderão ser dados passos fundamentais sobre economia verde, indicar como se chega lá. Como fazer uma economia que emita menos carbono. A Rio+20 pode promover objetivos sustentáveis para as próximas duas décadas e isto vai repercutir nas emissões. Também se discute a criação de uma agência internacional de desenvolvimento sustentável (como quer o Brasil) ou de meio ambiente (como quer a Europa) ou nada disso (como parece ser a posição dos Estados Unidos). Ter uma espécie de Organização Mundial do Comércio na área ambiental não é pouca coisa," afirma a jornalista Daniela Chiaretti.

Um histórico de compromissos descumpridos, mitos em relação à utilização de energia renovável e as desigualdades no uso dos recursos ecossistêmicos para preencher as demandas que começam a se tornar gritantes são os aspectos que nos levam para um cenário preocupante, na análise do professor Ricardo Abramovay. "A meta da Rio+20 é estabelecer até 2015 o que será possível até 2020. É inegável que houve avanço significativo na eficência energética e material. Isso está sendo feito no âmbito da responsabilidade corporativa. Mas estudos mostram que se o consumo dos recursos materiais continuar igual, é ir direto de cabeça para o rochedo, como a própria ONU diz. Fala-se em economia verde, mas, na verdade, o sistema econômico não tem a menor ideia de como lidar com o desafio da finitude de nossos recursos e da desigualdade que se alastra pelo planeta. Esses deveriam ser os dois temas centrais da conferência", aponta o professor Abramovay.

Outras questões apontadas pelo professor são os mitos que cercam o debate sobre desenvolvimento sustentável. "O consumo de combustível fóssil continuará dominante no século XXI. A transição para as energias renováveis é fundamental, mas isso pressupõe profundas transformações tecnológicas. Não se trata mais de transferência, mas de cooperação internacional, da informação em rede, um verdadeiro patrimônio da humanidade. É ilusório também imaginar que é possível melhorar a vida dos mais pobres sem mexer no topo da pirâmide social", afirma.

Por isso, os participantes do encontro foram unânimes em afirmar que só a participação e a pressão da sociedade civil, influenciando os governos, é que pode fazer a diferença na conferência Rio+20.

PARTICIPAÇÃO

O rascunho inicial ou zero draft (19 páginas) "O Futuro que Queremos" é uma peça de grande importância que focalizará as negociações e, após aprovação, deverá se tornar referência para as políticas e práticas de sustentabilidade nos próximos anos. Por isso, este documento precisa ser calibrado para tornar-se uma ferramenta politicamente viável no âmbito da ONU e capaz de induzir mudanças em torno das questões que estão em pauta: segurança alimentar, água potável e limpa, energia sustentável, cidades e comunidades fortes e sustentáveis, oceanos e mares, desastres naturais, mudanças climáticas como o maior desafio de nosso tempo, florestas e biodiversidade, degradação e desertificação, acompanhamento dos químicos e resíduos em todo o ciclo de vida, importância das montanhas, consumo e a produção, educação e igualdade de gêneros. 

"A sociedade civil brasileira e internacional tem nos próximos meses a importante missão - e a singular oportunidade - de influir decisivamente nos resultados da Rio+20, tanto no processo oficial como fora dele. O mundo é muito mais que a soma dos países. É hora de ousar e de propor. De acreditar que o futuro que queremos está presente, agora", enfatiza professor Kassai.

Os alunos da FEA que quiserem manifestar-se em relação ao tema podem postar minivídeos de até um minuto diretamente no site da ONU e/ou enviar para o e-mail: jrkassai@usp.br.

Para mais informações, acesse: hotsite.mma.gov.br/rio20 e/ou www.rio20.info.


Data do Conteúdo: 
terça-feira, 3 Abril, 2012

Departamento:

Sugira uma notícia