FEA realiza oficinas para discutir o futuro do país

Elaine Marcial _ IpeaQue caminho o Brasil poderá trilhar até 2035 para que tenhamos um país desenvolvido com uma sociedade mais livre, justa e solidária? Essa questão foi levantada na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, no último dia 20 de abril, durante a apresentação do projeto Brasil 2035, que é coordenado pelo Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) com o objetivo identificar elementos que subsidiem a formulação de estratégias de desenvolvimento para o Brasil, tendo 2035 como horizonte temporal. Intitulado “Plataforma Brasil 2100 – Construindo hoje o país de amanhã”, o evento foi realizado em parceria com o Núcleo de Apoio à Pesquisa de Longo Prazo (NAPLP) da FEAUSP, vinculado à Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, que coordenou o seminário prospectivo do projeto e as oficinas com a participação de agentes sociais.  

O projeto Brasil 2035 surgiu no ano passado com a proposta de discutir ideias para a construção de visões estratégicas para o futuro do país. Coordenadora da equipe técnica do projeto, Elaine Coutinho Marcial (Ipea) disse durante sua apresentação na FEA que a concepção inicial do projeto foi elaborada dentro da Assecor (Associação Nacional dos Servidores de Carreira de Planejamento e Orçamento) e que, depois, o IPEA e o Centro de Altos Estudos Brasil Século XXI se juntaram para coordenar os trabalhos. Já foram realizadas até o momento 12 oficinas no país, incluindo o evento realizado na FEAUSP. Em fevereiro deste ano, o NAPLP definiu sua participação no projeto Brasil 2035, que consiste em planejar e executar processos prospectivos participativos.

Ao todo, o projeto Brasil 2035 é dividido em nove etapas: concepção do projeto e busca de parceiros; definição da questão orientadora e do sistema de cenarização; análise retrospectiva e da situação atual e identificação das sementes do futuro; definição dos condicionantes de futuro; geração dos cenários; testes de consistência e ajustes; análise dos cenários e definição de estratégias; sinalização de questões para monitoramente do ambiente; e divulgação dos resultados. Segundo Elaine Marcial, o projeto se encontra na etapa de “definição dos condicionantes do futuro” e deve encerrar a última etapa em dezembro deste ano. As informações atualizadas sobre o processo podem ser conferidas no portal da plataforma Brasil 2100 (www.brasil2100.com.br).

Elaine Marcial disse que as oficinas com a participação de agentes sociais convergem para responder à questão sobre o caminho que o Brasil deve percorrer para chegar ao desenvolvimento pleno. “Para isso nós temos que começar hoje, independente de estarmos vivendo uma crise ou não”. Segundo ela, existe uma necessidade de se criar uma cultura do planejamento de longo prazo no Brasil e que o debate sobre o futuro deve envolver toda a sociedade. O projeto trabalha com quatro dimensões - social, econômica, territorial e político-institucional – além das dimensões transversais água, meio ambiente, ciência e tecnologia, e inovação, temas considerados fundamentais para o desenvolvimento do país e que perpassam cada uma das dimensões.   

Processo prospectivo

Responsável pela coordenação e orientação técnica das oficinas realizadas na FEAUSP, o Prof. Dr. Antonio Luís Aulicino, do Núcleo de Apoio à Pesquisa de Longo Prazo, explicou aos participantes a metodologia utilizada no processo prospectivo. Segundo ele, a palavra-chave desse processo é “apropriação”. “Não adianta pensar em 2100 se a sociedade não tiver apropriação, a apropriação do conhecimento e o comprometimento”. De acordo com ele, as oficinas têm como finalidade “verificar o que foi plantado no passado e o que está se colhendo hoje, e a partir daí definir o que vamos plantar no presente para colher no futuro”.

Antônio Luís Aulicino disse que a importância da elaboração do processo prospectivo “é integrar os diversos agentes sociais para construir a visão estratégica do futuro desejado, minimizar os riscos, reduzir os desperdícios nos investimentos tanto de infraestrutura quanto sociais e de outras dimensões, como também apoiar tomadas de decisão e formulação de ações e de políticas públicas”. Nesses encontros, segundo ele, os participantes são familiarizados com os métodos e as ferramentas da prospectiva estratégica para identificar e hierarquizar os principais desafios do futuro sobre o desenvolvimento do Brasil e identificar pistas para a ação.

Oficinas

Foram realizadas na FEAUSP quatro oficinas com a participação de 39 pessoas, entre estudantes, empresário, pesquisador, associados de ONGs, cidadãos que prestam serviços de cidadania, funcionários de economia mista, militar, professor de ensino superior, funcionário público e sindicalista. Aulicino disse que a diversificação das áreas dos agentes proporciona um “resultado equilibrado na varredura do ambiente Brasil 2035, com a identificação das variáveis-chave que delimitarão o escopo do projeto”.

A primeira oficina consistiu em fazer um inventário das ideias recebidas e dos consensos dominantes, que circulam no âmbito do Desenvolvimento Brasil 2035, seu ambiente hoje e no futuro. A segunda identificou as mudanças pressentidas, almejadas ou temidas para o desenvolvimento, além das implicações dos fatores referidos e potenciais ações para remediar ou fortalecer tais fatores. Na terceira oficina, os participantes fizeram um inventário de freios e inércias, que poderão prejudicar ou retardar o desenvolvimento. Na quarta, os agentes sociais construíram três árvores – do passado, do presente e do futuro, contendo raízes (valores, competências e pessoas, recursos financeiros, recursos tecnológicos, comerciais, produtivos); tronco (processo, organização); e ramos (linhas de produto – mercado, serviço).

Ao final do evento, os grupos que participaram das oficinas compartilharam suas reflexões e, a partir dos resultados obtidos, foi elaborada uma síntese, que retrata a identificação das possíveis variáveis-chave (ao todo 43). Entre as variáveis-chave, estão: promover políticas públicas de inclusão social de acordo com a vontade e competência; criação de parques tecnológicos de indústria de defesa; redimensionar e organizar os serviços de saúde; reforma política – sistema político representativo e responsivo; envelhecimento da população e mudanças nas regras da aposentadoria; a violência chega a níveis sem precedentes; valorização do planejamento governamental de longo prazo; superpopulação nas grandes cidades; mudança modal transporte; mídia democratizada; participação social engajada localmente; inversão da pirâmide intelectual do Brasil; baixo investimento em educação; formulação, monitoramento e implementação mais eficiente de políticas públicas; política industrial; gestão ineficiente do Estado – Pacto Federativo; dependência tecnológica; infraestrutura deficitária; e corrupção generalizada, entre outras.

De acordo com Aulicino, as próximas etapas são distribuir as 43 variáveis-chave para aprofundamento, o que deverá demorar cerca de seis meses, e realizar a oficina “Das mudanças críticas aos atores”, com o objetivo de identificar os atores dominantes deste processo. A próxima reunião para distribuir as variáveis-chave entre os participantes para iniciar o aprofundamento está marcada para o dia 6 de maio, na FEAUSP.

Matéria: Cacilda Luna
Foto: Mayra Onishi

Data do Conteúdo: 
sexta-feira, 29 Abril, 2016

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