FEA faz homenagem a ex-alunos formados em 1968

Turma de 1968 - 2019

Foi um momento bastante emocionante. Após 50 anos do término da graduação, eles retornaram à FEAUSP, no dia 11 de março passado, para uma homenagem. A turma de 1968 comemorou seu jubileu. A procura pelos formados naquele ano histórico foi trabalhosa, mas ao final 14 pessoas puderam comparecer à cerimônia. Uma das homenageadas, Tsai Lim Mui, veio do Havaí, onde vive, especialmente para o evento. Dentre os homenageados, também estavam quatro professores da FEA:  Adalberto Fischmann, Adelino de Bortoli Neto, Jacques Marcovitch e Lindolfo Galvão de Albuquerque. 

Antes da cerimônia, os homenageados participaram do seminário “Caminhos, Legados e Perspectivas do Grupo Jacto”, que além de celebrar o cinquentenário da turma de 1968 da FEA, fez uma homenagem ao ex-aluno Chikao Nishimura, mostrando a saga de sua família e de seus descendentes. Os demais ex-alunos que compareceram à comemoração do jubileu foram: Eduardo Krausz, Ibrahin João Elias, Lauro dos Santos Mochão Velasco, Roberto Mário Perosa Júnior, Roxana Maria Moraru, Reinaldo Cavalheiro Marcondes, Roberto Unti e Jorge Ribeiro de Toledo Filho.

Coube ao professor Jacques Marcovitch fazer o discurso em nome da turma de 1968. Ele lembrou os anos difíceis da faculdade em meio à ditadura militar, num período em que o movimento estudantil efervescia em todo o mundo, especialmente na França e na Tchecoslováquia. “Havia a ameaça que pairava sobre o coletivo estudantil. Éramos, em qualquer momento de tensão política, os suspeitos de sempre. Éramos uma comunidade vigiada. Como dirigentes do Centro Acadêmico Visconde de Cairu, naturalmente ficávamos mais expostos à vigilância do inimigo”, afirmou.

A lição que ficou desse período, segundo Marcovitch, foi de que “não há melhor regime do que a democracia”. Segundo ele, a geração de 68 tem mais “clareza sobre a importância da liberdade, exatamente porque sentiu e padeceu mais a falta dela”. Fazendo referência à Batalha da Maria Antônia, confronto ocorrido entre estudantes em outubro de 68, o professor emérito da FEA disse esperar que o episódio fique em seu lugar na história e não se repita. “A batalha, se houver hoje, deve ser nos tribunais, em manifestações pacíficas de rua, iguais nossos posicionamentos democráticos na Universidade, que é a nossa trincheira de ideias e soluções para o Brasil”.

 

Os anos de faculdade na rua Doutor Vila Nova

Jantar da turma de 1968Muitos deles se conheceram já no cursinho preparatório para o vestibular. Era 1964, o ano do golpe militar. O cursinho do Centro Acadêmico Visconde de Cairu ficava na rua Riachuelo, no centro de São Paulo. Quem aspirava entrar na então FCEA, hoje Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEAUSP), sabia que tinha mais chances frequentando as aulas do Visconde de Cairu.

Foi o caso do então estudante Adalberto Fischmann. “O melhor cursinho era esse, porque vários professores da FEA, os mais jovens, eram professores nesse cursinho. Então, a gente já tinha um contato com os docentes. Tinha o professor de Matemática, o Rui Antunes, por exemplo, era um excelente professor. O de história, Klaus, e o de português, o Olavo, uma sumidade”.

A Faculdade, que ficava localizada na rua Doutor Vila Nova, na Vila Buarque, ofereceu naquele vestibular de 1965 um total de 300 vagas, mas apenas 66 passaram na primeira chamada, e 33 na segunda. Fischmann conta que era muito difícil se classificar. O vestibular era composto por 10 exames. Precisava tirar a nota 5 de média. As provas, escritas e orais, eram eliminatórias.   Existia também o artigo 75, que permitia o ingresso de servidores públicos que eram transferidos de cidades.   

Os quatro anos de faculdade foram cursados sob o regime militar. A proximidade com a Universidade Mackenzie, que segundo Fischmann possuía um núcleo do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), tornava o clima nas redondezas, por vezes, explosivo. A rua Maria Antônia ficou conhecida por sua histórica batalha entre os estudantes da USP e do Mackenzie, em outubro de 1968.

O prédio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP se conectava internamente com um dos prédios da FCEA, por meio do pátio. “Nós já estávamos no último ano de faculdade. O clima estava quente. A Oban vinha cercando sindicalistas, estudantes e membros da igreja. Os atritos eram muito frequentes na rua. Garrafas com coquetel molotov eram lançadas de um lado para outro. Como éramos interligados na rua Doutor Vila Nova com o prédio da Filosofia, era um tal de correr das explosões”, lembra Fischmann, que cursava Administração de Empresas.

Por causa do AI-5, decretado em dezembro de 1968, que proibiu reuniões políticas sem autorização da polícia, os formandos da FCEA daquele ano ficaram sem formatura. “Não tivemos colação de grau ou cerimônia de formatura, que foi proibida. Somente a entrega do diploma na sala da diretoria”, recorda-se Danilo Bos Zerwes. Outro colega de Administração, Cláudio Kornfeld, confirma as circunstâncias: “Na época, devido aos tumultos políticos, a formatura bem como as festividades foram canceladas. Nem tivemos fotos de formatura”.

Os formandos de Administração, porém, reuniram-se informalmente num jantar (foto) para comemorar o término da graduação. Entre eles, estavam os atuais professores Adalberto Fischmann, Jacques Marcovitch, Lindolfo Albuquerque e Adelino de Bortoli Neto.   

Gente da FEA - março de 2019
Texto: Cacilda Luna
Fotos: Ismael Belmiro do Rosário

Data do Conteúdo: 
quinta-feira, 14 Março, 2019

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