Ex-alunos da FEA se aproximam do terceiro setor

Combinando empreendedorismo com a vontade de buscar soluções para problemas reais, os chamados negócios sociais crescem cada vez mais no cenário brasileiro. Empresas, startups e ONGs realizam diversos trabalhos a fim de propiciar benefícios sociais, mas ainda se utilizando de técnicas de mercado.

Nesse contexto, profissionais formados pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP têm se destacado em iniciativas de grande impacto social. Conheça três histórias de ex-feanos e suas trajetórias nesse tipo de negócio.


Mariane Tonello (Ensina Brasil)

Não é recente a vontade de Mariane Tonello de fazer ações com impacto social. “Quando eu tinha 10 anos, cheguei a escrever uma redação em que dizia que queria ser presidente do Brasil para poder ajudar as pessoas”, conta ela. Economista formada pela FEAUSP, Mariane é uma das co-fundadoras do Ensina Brasil, juntamente com Erica Butow, administradora e também ex-feana. O Ensina é um programa que seleciona e capacita jovens talentos para dar aulas, alocando-os em escolas públicas por dois anos em regime remunerado e integral. A ONG faz parte de uma rede global, a Teach For All, composta de organizações independentes em mais de 45 países ao redor do mundo.

Inicialmente, na graduação, Mariane acabou seguindo o caminho mais tradicional para a profissão: trabalhar em bancos de investimentos e setores de bens de consumo. Isso, no entanto, não durou muito. “Decidi fazer um estágio de verão no Grameen Bank, em Bangladesh, um banco de microcrédito ganhador do Nobel da Paz. Essa experiência foi essencial para eu voltar a querer trabalhar com algo de impacto social, necessariamente em educação”, conta. Voltando ao Brasil, Mariane conheceu Erica e se envolveu com a fundação do Ensina Brasil, onde hoje é Líder de Recrutamento e Seleção.

Desde sua criação, a organização já recebeu mais de 12 mil inscritos, selecionando e alocando 130 professores em 40 escolas nas cinco regiões do país. Dos Ensinas — como são chamados os professores selecionados —, mais de 80% vieram de faculdades públicas de qualidade e metade deles são os primeiros da família a ingressar no ensino superior. Mariane conta que esse fato tem um impacto direto também nos estudantes: “[O aluno],  que antes não sabia sequer que a USP era uma universidade pública e gratuita, olha para o seu professor, formado na USP e primeiro da sua família a cursar universidade, e pensa: ‘eu posso chegar lá também’”.

Na graduação, Mariane percebeu a necessidade de mais negócios sociais no país: “Foi na FEA que eu fui entendendo que não adianta esperar que o Brasil seja uma potência econômica se estamos deixando de lado a educação básica de boa parte da nossa população”. Ela ressalta a importância das possibilidades que a USP oferece, seja por meio do ensino, da extensão ou pesquisa, mas lembra que, no final, cada um trilha seu próprio caminho. “O mais importante é saber que os anos de FEA passam muito rápido e que nós precisamos ter esse senso de urgência de tomar proveito de absolutamente todas oportunidades, mesmo que, inicialmente, pareçam não ter nada a ver conosco”, aconselha.

 

Gustavo Fuga (4you2)

Logo no primeiro ano de FEA, em 2011, Gustavo já sabia que queria empreender em negócios sociais. A ideia de criar uma solução para o ensino de inglês mais acessível veio também de uma dificuldade pessoal: por não ter conhecimento da língua, o economista sentia dificuldade em sua graduação. Foi convivendo com estrangeiros no ambiente acadêmico e hospedando-os em sua própria casa que ele teve a ideia: “Tem muito estrangeiro querendo vir para o Brasil, e eu aprendi inglês assim. Não paguei nada. E foi aí que eu liguei os pontos”, conta ele. Dessa experiência, nasceu a 4you2, startup que leva estrangeiros para dar aulas para jovens de periferias, a custos bem abaixo da linha de mercado. Como todos os professores são estrangeiros, a experiência é um verdadeiro intercâmbio cultural para os alunos e também para os docentes.

Graduado em 2017, um grande desafio para Gustavo foi conciliar os negócios com os estudos ao mesmo tempo. Mesmo assim, ele reconhece esse cenário como uma grande experiência profissional e pessoal: “Grande parte do que eu faço é para retribuir o que a sociedade investiu — e investiu caro — na minha educação”. Ele ainda ressalta que é preciso incentivar mais esse lado da profissão na graduação, e lembra que é esse o momento essencial para se pensar em alternativas: “A USP te dá espaço para você construir a sua narrativa da maneira que você quiser”, analisa.

Olhando para o cenário de empreendedorismo social no Brasil, Gustavo é otimista, apesar das dificuldades, como os impostos e a burocracia: “O nosso país tem, infelizmente, muitos problemas sociais. Ao mesmo tempo, comparado com outros países na mesma situação, temos um nível institucional e mercados bem desenvolvidos, o que cria um ambiente bem propício para negócios de impacto surgirem”. Exemplo disso é a própria 4you2, que, há 7 anos, sobrevive às adversidades e leva o ensino de inglês para milhares de pessoas de baixa renda.

 


Itali Collini (Incluser, Genera e 500 Startups)

Mulheres são apenas 16% dos cargos de CEO no Brasil. Pessoas negras ocupam menos de 5% dos cargos executivos — o número cai para 0,6% quando se pensa em mulheres negras. Ao mesmo tempo, 61% dos profissionais LGBTQ+ não se sentem à vontade para se assumir no ambiente do trabalho. Quando pensamos em pessoas com deficiência, menos de 1% desse grupo está inserido no mercado de trabalho brasileiro.

Os dados são significativos e escancaram a desigualdade que persiste no ambiente de trabalho do Brasil, principalmente nas áreas executivas e empresariais. E é tentando reverter esse cenário que, em 2017, nasce a Incluser — plataforma que tem como objetivo aumentar a diversidade e a inclusão de minorias no mercado de trabalho.

Entre os nomes que pensaram a iniciativa, está Itali Pedroni Collini, economista, empreendedora e feminista. Formada pela FEAUSP, Itali teve suas primeiras experiências sociais na graduação: participou do Bandeira Científica, projeto de extensão da USP, em que desenvolveu atividades para cooperativas rurais em Pedra Azul - MG. No mesmo ano, foi uma das fundadoras do Genera - Núcleo FEAUSP de Pesquisa em Gênero e Raça, onde também organizou grupos de discussões de textos, simpósios e parcerias com organizações, como a ONU Mulheres e a multinacional KPMG. “Essas interações me mostraram que era possível tornar a academia mais acessível para o resto da sociedade”, conta.

Despertando seu interesse ainda na faculdade, Itali avalia que ainda há um longo caminho para as universidades trilharem quanto aos negócios sociais, especialmente no que se refere ao ensino: “A docência precisa estar com a mente aberta para interagir com os alunos. As melhores experiências acadêmicas que tive foram com docentes que se permitiam aprender e não somente ensinar a partir de uma posição de poder”, relembra. Para ela, é essencial discutir isso também no ambiente acadêmico, já que lidar com negócios sociais no Brasil não é fácil: as dificuldades vão desde montar um plano de negócios viável economicamente à falta de conhecimento sobre o setor: “A mentalidade tradicional ainda conecta impacto social com, necessariamente, filantropia”, avalia. “Por isso temos que ativamente explicar as diferenças e vantagens de cada abordagem.”

Recentemente, Itali também foi anunciada como diretora nacional de operações da 500 Startups, fundo acelerador de startups promissoras. No Brasil, a iniciativa já soma mais de 35 investimentos de empresas, bem como mentorias.


Gente da FEA - setembro de 2018
Autor: Bruno Carbinatto

Data do Conteúdo: 
sexta-feira, 24 Agosto, 2018

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