Estudar ou ser Atleta?

Por Bruna Arimathea

Em um país como o Brasil, caracterizado ainda pelas dificuldades do esporte como um meio de ganhar a vida, o atleta encontra, em algum momento de sua trajetória, a decisão de continuar competindo ou de seguir outra carreira. Discutindo essa e outras questões do processo de escolha, a FEA Sport Business promoveu o evento “Esporte x Estudo: Decisão dos Atletas”, e trouxe Kátia Rubio (Professora EEFE-USP), Vivian Morimoto (Seleção brasileira de Softbol), Camila Kurebayashi (2SV Sports), Luis Assunção (Santé Coaching) e Rodrigo Mergulhão (S.E. Palmeiras) para conversar sobre o tema em uma mesa redonda interativa.

Com grande dificuldade para conciliar os estudos e o esporte, boa parte dos atletas brasileiros não possui ensino superior justamente por esse contraponto, e desistem de uma formação acadêmica por conta da rotina intensa de treinamentos e competições. Embora seja em relação ao ensino universitário que se observe as menores taxas de formação, as questões acerca desse impasse aparecem desde a infância, nas categorias de base dos esportes.

Segundo Rodrigo Mergulhão, coordenador de Serviço Social do Centro de Formação de Atletas do Palmeiras, nas menores faixas etárias – ou seja, entre crianças e jovens que treinam alguma modalidade – existe a fase de querer alcançar um sonho, ser profissional e construir uma carreira futura baseada no esporte. Por viver essa euforia, muitos jovens se esquecem de articular um “plano B”, caso a vida de atleta não dê certo, realidade muito comum em escolinhas de futebol e clubes de outras modalidades.

A falta de espaço para o esporte competitivo na universidade também que colabora para que atletas optem por não ingressar no ensino superior. Com ênfase somente nos estudos, com a graduação completamente focada na formação da carreira, não existem aberturas para que a prática esportiva seja instituída como um programa do próprio curso, ou como agenda da faculdade para estimular que os atletas possam ter um bom rendimento tanto acadêmico quanto esportivo.

Assim, atletas que desejam ser profissionais não encontram na universidade a oportunidade de desenvolver o seu talento, ou ainda, os que já são profissionais não possuem apoio da instituição para tratar da sua vida esportiva. A professora Kátia Rubio cita que na Escola de Educação Física e Esportes (EEFE USP) vários alunos já desistiram da graduação, pois precisavam viajar para competições e não conseguiam repor aulas e provas, levando-os a serem reprovados nas matérias, sem nenhum outro tipo de avaliação especial para o aluno atleta nessas condições.

Essa situação poderia ser diferente, como é nos Estados Unidos, por exemplo. O modelo americano de universidade oferece aos alunos até mesmo a oportunidade de conseguir uma bolsa de valor integral, para que o estudante possa ser atleta e competir pela faculdade. A Associação Atlética Universitária Nacional (NCAA) é um órgão de competição importante no país, e contempla justamente os atletas em nível universitário das mais diversas modalidades, se caracterizando como o principal campeonato juvenil, de onde todos os anos saem atletas para as ligas profissionais dos Estados Unidos.

Vivian Morimoto e Camila Kurebayashi, que estudaram nos EUA com bolsa esportiva, afirmam que apesar do foco no esporte, a cobrança nos estudos é grande. Uma das condições da bolsa envolve o bom rendimento acadêmico, que precisa ser mantido durante todo o curso. Equilibrar esses dois lados foi essencial para que elas conseguissem bom desempenho em seu esporte e continuar a trajetória da formação universitária.

Por fim, quando perguntados se é possível conciliar a prática esportiva com o estudo, todos os convidados responderam que sim, mas a um custo: a dedicação e a força de vontade precisam ser imensas, a estrutura precisa ser um aliado do atleta e ele precisa estar ciente de que, mais cedo ou mais tarde a escolha de carreira é necessária.

 

Data do Conteúdo: 
sexta-feira, 27 Outubro, 2017

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