Especialista da Fiesp comentou processo de desindustrialização no Brasil

O Sr. Paulo Francini, Vice-Presidente do Conselho Superior de Economia da Fiesp, visitou a FEA no dia 24 de junho a convite dos professores Fábio Lotti Oliva e Celso Cláudio de Hildebrand e Grisi. Ele explicou os motivos que levaram à crise da indústria brasileira e citou as medidas necessárias para superá-la. O setor mais atingido foi o de transformação, nome dado ao conjunto de atividades que converte a matéria-prima em novos produtos com maior valor agregado. Atualmente ele representa somente 13% do PIB, tendo sofrido uma queda significativa desde 2004, quando representava 19%.

A diminuição da participação da indústria no PIB é um fenômeno mundial, pois o desenvolvimento da tecnologia e aumento da produtividade reduziram o valor dos produtos. O Brasil também vivenciou essa mudança, mas Francini afirmou que o nosso processo de desindustrialização começou em 1980.

Nas três últimas décadas, a representatividade da indústria no PIB brasileiro caiu de 20 para 10%. Com a diminuição da produção e fechamento de postos de trabalho, muitos operários migraram de setor. Conforme Francini explicou, cada empregado da indústria de transformação gera 43 mil reais ao ano, enquanto um funcionário na área de serviços gera 20 mil. Assim, cada trabalhador que sai da indústria e vai para a área de serviços está gerando menos da metade da riqueza que produzia anteriormente para o país.

Segundo ele, ao diminuir produtividade, “o Brasil abandou a tarefa que a indústria faz em todos os países: é ela quem leva o país ao desenvolvimento”. A desindustrialização ocorre quando a renda per capta da população chega a cerca de US$ 14 mil dólares ao ano. No nosso caso, isso aconteceu precocemente, pois a renda per capta atual é de US$ 11.800. Esse processo impactou diretamente a balança comercial brasileira. Houve aumento das importações, de forma que mais de 40% da demanda de consumo atual é atendida por produtos estrangeiros. Além disso, a exportação de produtos manufaturados (com tecnologia agregada e portanto com maior valor) caiu de 61% para menos de 40%.

Diversos fatores levaram à crise . Conforme estudo do Departamento de Competitividade e Tecnologia (DECOMTEC), um produto fabricado aqui é 34% mais caro do que um importado. Esse “custo Brasil resulta de fatores externos e internos. A concorrência dos Tigres Asiáticos e da China, que produzem em larga escala e a baixo custo, dificulta a competitividade nacional. Porém, os maiores entraves são os fatores internos, como deficiências na educação e na infraestrutura, ineficiência do sistema tributário e defasagem tecnológica na indústria.

Francini citou que o resultado do Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (PISA) melhorou, com crescimento do nível de escolaridade, porém ainda muito abaixo dos índices dos outros países Sul-Americanos. Quanto à infraestrutura portuária, rodoviária e ferroviária, afirmou que “estão em estado lastimável, impedindo o crescimento e o desenvolvimento brasileiro”. Criticou também o excesso de burocracia, pois aqui as empresas levam cerca de 2.600 horas por ano para calcular os tributos que devem pagar, sendo o maior índice do mundo (é mais do que o dobro da Bolívia, o segundo colocado).

Para mudar esses entraves é necessário um alto investimento estatal, o que contradiz a política de corte de gastos do Reajuste Fiscal. Francini, porém, defende a urgência da pauta: “Sem indústria de transformação o país não vai para frente. Ou vai com a indústria ou não vai”. Isso porque “a indústria de transformação é o setor com maior capacidade de entregar alto valor adicionado”, sendo portanto fundamental para o desenvolvimento da economia brasileira.

Autor: Thais do Vale

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 29 Junho, 2015

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