Empreendedorismo pode sim conciliar lucro com impacto social

Entrar na faculdade, abrir a própria empresa e enriquecer. Esse pensamento é comum entre os jovens universitários, quase como uma fórmula de sucesso. O mercado, porém, vem passando por mudanças e o tradicional dá lugar a caminhos alternativos e novos modelos de empreendedorismo. A preocupação com o impacto social não é mais mero luxo altruísta de empresas, mas peça fundamental para construção de negócios modernos e rentáveis.

Pensando em explorar esse ramo em ascensão, a FEA Social promoveu, nos dias 16 e 17 de maio, a quinta edição do Impacto 2.5. Contando com palestras, debates e até mesmo workshops, o evento desmistificou a área de impacto social e mostrou que o setor está mais do que presente na dinâmica atual.

O que é, afinal, o setor 2.5?

Mantendo modelos tradicionais de empresas, mas se preocupando principalmente com as questões sociais: é assim que o setor 2.5 se estrutura. Seu nome se refere ao meio termo entre segundo setor (privado com fins privados) e o terceiro setor (privado com fins públicos), ou seja, uma empresa que concilia a busca financeira objetivando também um impacto social. Como explicou Cristina de Moura João, doutoranda em Administração pela FEAUSP, na mesa “Responsabilidade Social Corporativa & Ações Sociais do Terceiro Setor”, esse setor é relativamente recente na história brasileira, decorrendo do crescimento do terceiro setor pós-ditadura militar. A acadêmica ressaltou que esses modelos híbridos e multissetoriais são extremamente importantes para a sociedade em geral, podendo, inclusive, a levar ao desenvolvimento de políticas públicas e mudanças estruturais no contexto socioeconômico brasileiro.

Na mesma mesa, a associação Litro de Luz (veja vídeo abaixo) se apresentou como um exemplo de sucesso do empreendedorismo social. Atualmente presidido pela ex-aluna da FEA Laís Higashi, o projeto leva iluminação solar para pessoas e comunidades que não tem acesso à iluminação pública e energia elétrica no Brasil. Com uso de materiais de baixo custo e buscando a emancipação das comunidades, a associação já impactou mais de sete mil pessoas nas cinco regiões do país.

 

 

Outra iniciativa em prol da ação social foi apresentada pelo Instituto Votorantim, núcleo de inteligência social das empresas investidas da Votorantim. O instituto age como um centro de soluções para as empresas associadas, oferecendo estudos, diagnósticos e planejamentos para otimizar o impacto social, tanto dos trabalhadores da própria empresa quanto para a sociedade em geral. Essa iniciativa reforça a crescente tendência de preocupação social de grandes empresas, que não se limitam a apenas atos de caridade pontuais, mas agem a partir de planos de ação organizados, focando na sinergia entre os atores e objetivando resultados concretos.

Ao contrário do que o senso comum pode pensar, o setor 2.5 possui um amplo mercado de trabalho em diversas áreas. Na mesa “Mercado de Trabalho no setor 2.5 e 3º setor”, a FEA Social reuniu representantes do Complexo Pequeno Príncipe, Instituto Quintessa, Yunus e Fundação Estudar para discutir as oportunidades de trabalho na área social, inclusive para jovens talentos. A partir de diversas formas de financiamento e captação de recursos, essas empresas se mantêm estáveis economicamente ao mesmo tempo que impactam positivamente a sociedade.

Empreender em um negócio 2.5

Investir em um negócio do setor 2.5 também é uma opção para quem quer ingressar nesse meio e unir lucro com sustentabilidade. Gilberto Ribeiro, da VOX Capital, Denis Nakahara, da MOV Investimentos e Frederico Rizzo, da Kria mostraram como é empreender sem deixar de lado o viés social e ainda ter um negócio de sucesso na área no debate: Dinâmica dos investimentos de impacto.

A discussão, de forma bastante informal, visou responder diversas questões a respeito desse novo movimento que surge no Brasil. O movimento do setor 2.5 ainda não tem regulamentação no Brasil e não apresenta numerosas opções para quem quer empreender com algum retorno social.

A principal pergunta que gira, então, em torno desse negócio é: como empreender de forma sustentável e ainda assim obter lucro? Como priorizar o impacto em relação ao retorno financeiro? Frederico explica: “Vai depender do perfil do investidor alguns tendem, em suas teses, priorizar mais o impacto, outros priorizam mais o resultado, tem métricas, expectativas de retorno que são importantes de serem cumpridas”.

E Gilberto completa: “Negócios sociais não são a resposta para todos os problemas da sociedade. Existem muitos problemas que você não vai conseguir resolver em uma lógica de mercado. A nossa escolha como organização é buscar empresas cujo impacto social esteja no pró-business e que não haja ou que haja o mínimo de trade-off [conflito de escolha] possível entre o sucesso financeiro daquele negócio e o retorno social que ele se propõe a trazer. Então, quando você procura fazer pro-ativamente essas escolhas, de empresas que só vão ser bem sucedidas financeiramente se servirem ao seu propósito, esse trade-off desaparece. Quanto mais lucrativa a empresa, quanto mais rentável, quanto mais crescer em teoria, maior o impacto que ela vai estar gerando”.

Quanto aos cases, por menos numerosos que sejam, os empreendedores acreditam que são, sim, exemplos para que outros empresários olhem para o setor 2.5 como uma alternativa de lucro e sucesso social. Porém, ainda representam uma parcela pequena e não contam com grandes visibilidades. Denis Nakahara afirmou que as indicações dos negócios são boas, assim como os exemplos, mas que o grandes cases ainda não vieram.

TED Alike

A FEA Social trouxe, ainda, cinco cases de empreendedorismo no setor 2.5 para ilustrar e fechar o ciclo de atividades do evento. As empresas apresentadas foram Dr. Consulta, 4You2, Muda Meu Mundo, Umcomum e Hand Talk, e buscaram demonstrar o que é trabalhar na área e como é possível fazer o negócio dar certo.

O famoso formato americano de pequenas palestras chamado TED Alike é baseado em relevância, objetividade e inovação. Com cerca de 18 minutos cada, elas carregam o conceito de ideias que merecem ter visibilidade e ser disseminadas.

Através de seu sucesso, os empreendimentos falaram sobre ação, solidariedade, sustentabilidade e, é claro, dinheiro. João Vitor Bogas, da Hand Talk, trouxe o case do simpático Hugo. O personagem é parte de um aplicativo de tradução português - libras e tem ajudado milhões de pessoas. João reiterou que mais de 10 milhões de brasileiros são deficientes auditivos e que 90% destes são filhos de pais ouvintes, dados que permitem identificar que a dificuldade de comunicação começa em casa.

“O Hugo faz justamente a tradução do português para libras. O aplicativo da Hand Talk já tem hoje mais de 2 milhões de downloads e foi lançado em 2012. É legal notar que desde a criação até ela vir ser concebida, como coisa material, foram 4 anos e desde então a gente tem ganhado muitos prêmios. Em 2013 fomos premiados pela ONU como melhor aplicativo social do mundo”, explicou João.

E não é só com tecnologia que se pode agregar nos negócios de impacto. A força dos movimentos que se parecem menos com startups e mais com ONGs também demonstraram obter sucesso nas suas atuações como modelo de negócio. Esse é o exemplo da Muda Meu Mundo, empresa das irmãs Priscila e Débora Veras, que visa trazer uma alimentação de qualidade livre de agrotóxicos, transgênicos e que não seja resultado de exploração para centenas de famílias do Nordeste. O projeto ainda incentiva o comércio local, já que promove uma feira para a venda da produção das famílias assistidas, dando autonomia e maior renda aos agricultores da região.

“Inovação para mim é fazer com que o período que a gente viveu e ainda vive [de seca no Nordeste] possa se transformar em agrofestas, em plantações, em um ambiente sustentável que, além do reflorestamento para a região, traga comida. Pegamos algo que era vital aqui e transformamos em um negócio de impacto”, completou Priscila.  

Segundo Júlia Nicida, diretora de eventos da Fea Social, a quinta edição do Impacto 2.5 inovou no formato das atividades. “Além da realização de palestras, tivemos um workshop em parceria com o NEU (Núcleo de Empreendedorismo da USP)” e completou dizendo que o evento é importante para o “setor 2.5” e para seus integrantes, tendo em vista que esse meio é muito novo e vem ganhando força e visibilidade nos últimos anos.

 

Autoria: Bruna Arimathea e Bruno Carbinatto

Data do Conteúdo: 
quinta-feira, 24 Maio, 2018

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