Embelezar o ambiente melhora o bem-estar das pessoas, dizem especialistas no TEDx Butantã

Autor: Dado Nogueira

SaldivaLugares claros, agradáveis e bonitos aumentam os índices de cura e melhora dos pacientes. A afirmação foi feita pelo professor Paulo Saldiva, patologista da Faculdade de Medicina da USP, durante o primeiro TEDx Butantã, no último dia 30 de março, na FEAUSP. Segundo ele, isso não é algo puramente comportamental ou psicológico. Há genes no corpo humano que nos fazem reagir positivamente ao que é belo e agradável. A liberação de cortisol, hormônio que além de controlar o estresse, controla a pressão arterial e auxilia o sistema imunológico, tem uma forte relação com a exposição ao belo, ao prazer.

O TEDx Butantã é um programa de eventos locais, organizados de forma independente, que reúne diferentes pessoas para compartilharem experiências, no formato de uma conferência TED. Promovido pelo PET ADM (Programa de Educação Tutorial do departamento de Administração da FEA), o evento reuniu mais quatro palestrantes: Raquel Rolnik, arquiteta, urbanista e professora da FAU-USP, Rodrigo Lucena, catador de lixo, Benny Goldenberg, empresário, e Daniela Biancardi, atriz e palhaça. Os temas abordados por cada um dos participantes foram diversos, mas convergiram em um ponto: a qualidade de vida das pessoas.

RaquelPaulo Saldiva afirmou que, desde quando começou a crescer e se tornar uma cidade grande, São Paulo colocou como uma de suas prioridades o embelezamento de seus espaços. Por quê? Por que investir em tornar a cidade agradável, bonita, sublime? Não seria isso supérfluo, algo acessório? Não, explica o professor. Segundo ele, o embelezamento da cidade influencia o comportamento e a biologia dos seres que a habitam. O belo acalma, diminui o estresse, diminui as crises de asma e a hipertensão, enfim a exposição ao belo modifica o nosso organismo.

O médico concluiu que a cultura, portanto, é um direito humano. Ao ver o que é belo, sentimos “algo que penetra os corpos e ilumina as almas”, e isso está no nosso DNA. A melhor maneira de se obter longevidade e qualidade de vida seria promover constante exposição de nossos corpos a estas situações bonitas, prazerosas, a manutenção das relações afetivas e sociais nos espaços públicos, “manter o espírito vivo”, como disse Paulo.

Este espaço público de convivência, porém, está cada vez mais sendo ameaçado, segundo a professora da FAU, Raquel Rolnik. Uma “cidade prateleira”, que oferece seus espaços para quem pagar mais, vai contra o ideal da “cidade da vida”. A urbanista afirmou que, atualmente, os espaços privados são sempre oferecidos e ocupados com base na maior rentabilidade, o que já é um grande problema, mas maior problema é quando esta mesma lógica é levada para a instância dos espaços públicos, o que vem se intensificando atualmente em São Paulo. Raquel mostrou como, ao se oferecer os espaços públicos ao mercado pelo maior valor possível, quebra-se o compromisso de promover bem-estar, retira-se dos cidadãos os espaços usados para conviver, descansar, celebrar e existir.

RodrigoUm exemplo disso – acrescentou Rolnik  – é o esvaziamento dos espaços de convivência pública, com a ida dos cinemas de rua para os shopping centers, dos bairros residenciais para os condomínios fechados. Deixa-se de viver as relações sociais no espaço de convívio público, agradável e belo, ou seja, perde-se grande parte da ‘iluminação das almas’, proposta pelo professor Paulo, tão necessária para a qualidade de vida do ser humano.

Catador de lixo humaniza as ruas

Ao falar-se em qualidade de vida nos espaços públicos, o relato de vida de Rodrigo Lucena, catador de lixo, é um exemplo muito forte de como isso está em falta hoje em dia em São Paulo e em muitas outras cidades. Aos 10 anos de idade, Rodrigo passou a morar na rua, catando lixo. O catador enfrentou, além das dificuldades de se morar na rua, o preconceito, como quando levou à delegacia uma recém-nascida encontrada no lixo e foi questionado pelos policiais se havia sequestrado a criança.

Passando de cidade em cidade, contribuindo com a limpeza pública e com a reciclagem, Rodrigo chegou a São Paulo com 16 anos e passou a morar na Praça da Sé, onde recebeu por doação uma carroça para que continuasse a trabalhar. O grande ponto de mudança na história de Rodrigo foi quando conheceu o movimento Pimp my Carroça, que atua para tirar os catadores da invisibilidade, por meio de ações artísticas nas carroças usando o grafitti.

bennyHoje, Rodrigo é catador e possui uma carroça equipada com som de alta qualidade, televisores de LED e sinal por satélite, que transporta para os locais onde há moradores de rua e exibe novelas, jogos de futebol, levando um pouco de prazer e entretenimento para os locais de gente “invisível”, espaços públicos esquecidos, com todo o seu potencial de promover a beleza e o encantamento jogado, justamente, no lixo.

Apesar de tudo, há ações concretas sendo realizadas para contribuir para uma cidade mais bonita, limpa e saudável. Benny Goldenberg é empresário na área da restauração (preparo e comércio de refeições), sócio da chef de cozinha Paola Carosella. É muito grande a quantidade de pessoas envolvidas no setor da restauração. Consequentemente, é grande também o impacto que uma mudança logística no setor dos restaurantes causa na sociedade.

Uma mudança muito importante foi feita num dos restaurantes, decisão tomada em conjunto com a sócia, que consistia em servir apenas pratos feitos com ingredientes orgânicos. Duas grandes dificuldades para isso foram apontadas: fornecedores e coleta de lixo. Não havia produtos suficientes para suprir a demanda do restaurante e os produtores, desacostumados a grandes demandas, não possuíam organização suficiente. Porém, após um ano de estruturação, estudos de mercado, os produtores se adaptando e organizando, criou-se uma cadeia de venda de orgânicos que funciona em São Paulo. Quanto à coleta do lixo, antes da mudança logística, apenas 5 dos 30 sacos diários de lixo eram reciclados, passando a 5 reciclados e 22 compostados por uma empresa de coleta parceira. O problema é que, segundo normas da prefeitura, a coleta de lixo não pode ser feita sem um veículo que prense o lixo, e esse tipo de procedimento impossibilita a compostagem.

DanielaNum segmento tão difícil como é o dos restaurantes, a atitude tomada pode parecer muito arriscada. Por que só utilizar orgânicos? Como isso promove uma mudança benéfica para a sociedade? O agente é o cliente, responde Benny. Se as pessoas passassem a perguntar com frequência a procedência dos alimentos que consomem, os proprietários de restaurantes procurariam cada vez mais oferecer pratos feitos com ingredientes selecionados, de qualidade, orgânicos. Isso mudaria a lógica da restauração, o que beneficiaria toda a cadeia, dos produtores aos consumidores, aumentando a quantidade de produtos orgânicos nos restaurantes, diminuindo seus preços, que hoje são altos pela baixa oferta, e contribuindo para uma cidade mais limpa, que recicla mais e gera menos lixo.

A poluição, em todas as suas instâncias (ar, solo, água, sonora, visual…), é um dos grandes problemas enfrentados hoje pelas grandes cidades, sendo mais um obstáculo para o processo de embelezamento dos espaços públicos de vivência humana. Como patologista, o professor Paulo Saldiva falou também de poluição, a do ar. Disse enxergar um pouco da cidade em cada pulmão que abre para seus estudos. Ressaltou a importância de um ar mais limpo, que, junto a uma cidade bonita e prazerosa, faria de São Paulo um lugar de qualidade de vida muito alta.

“Fazemos parte de uma sociedade dividida”, disse Daniela Biancardi em sua palestra que encerrou o TEDx Butantã. A atriz disse que, assim como o palco não deve ser separado do público, a sociedade não deve se dividir em nenhuma instância, e que uma sociedade e uma cidade melhor viriam da coletividade, e não da segregação, da divisão.

Hoje, a artista dá aulas de teatro para crianças e adolescentes na Fundação Casa. Disse que, em sua experiência com os garotos, aprendeu que não se pode querer regrar o mundo todo da mesma forma - “É bandido porque quer, é pobre porque quer”. É este o tipo de frase, segundo ela, que divide as pessoas, cria fronteiras. Segundo ela, de nada adiantam espaços públicos embelezados, se os seres humanos que o ocupam não se tratam como iguais, se segregam, julgam, apontam o dedo e se discriminam. Daniela disse que o papel do artista nesse cenário é romper barreiras por meio do riso, da atuação. “Crime maior apontar o dedo e não olhar para o ente humano. Crime maior é fazer piada da miséria humana. Crime maior é a gente não varrer essa fronteira… Nós precisamos de artista”, afirma.

Data do Conteúdo: 
quarta-feira, 12 Abril, 2017

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