Economistas discutem caminhos para atuação do Banco Central durante a crise

 

João Mello

 

O Brasil experienciava, antes da pandemia do novo coronavírus, um cenário econômico difícil, que foi bastante agravado desde março. Para conter a atual crise, o Banco Central declarou que prefere esgotar instrumentos tradicionais de política monetária antes de utilizar outros métodos. Se esses mecanismos, junto aos juros baixos, não forem suficientes, pode-se fazer uso da PEC do Orçamento de Guerra ou promover reformas econômicas. 

 

Para comentar essas possibilidades de atuação do BC, a Liga de Mercado Financeiro FEA-USP convidou para o Economia na Mesa dois ex-presidentes da instituição: Ilan Goldfajn, presidente do conselho do Credit Suisse Brasil, e Armínio Fraga, sócio-fundador da Gávea Investimentos. 

 

Armínio Fraga apontou que "entramos na pandemia saindo da UTI" e previsões dizem que a dívida pode chegar até a 90% do valor do PIB. Ele concorda com a postura do Banco Central em optar por instrumentos tradicionais, porque políticas monetárias diferentes foram usadas em partes do mundo nas quais atingiram-se juros zero ou negativos, que não podem ser vislumbrados no Brasil devido a um alto nível de incerteza. Apesar dos juros e da inflação baixos e de um pressuposto do mercado de que a pandemia vai acabar, os investimentos seguem em baixa no país. 

 

Essa incerteza pode ser representada pela volatilidade da moeda. Segundo Fraga, o Real representa um espelho da realidade na medida em que suas oscilações constantes ocorrem em um cenário no qual o Brasil passa por ruídos na área política e por uma sucessão de crises. "Não há país que consiga crescer com uma crise a cada 5 anos. A política monetária é importante, mas não resolve nossa educação, nosso crescimento."

 

Ilan Goldfajn concorda com Armínio Fraga ao dizer que no Brasil os juros não chegam a zero porque há um balanço de riscos no mercado que não aposta em uma estabilidade futura no país. Ele também não acredita na emissão monetária como solução para a crise, que ela não é um "financiamento mágico", porque dívida, gastos e carga tributária subiram e todo esse cenário depende dos juros.

 

As reformas que vêm sendo realizadas desde o Governo Michel Temer, na visão dos economistas, foram importantes para dar segurança fiscal, mas a crise pode exigir uma agenda de reformas ainda mais difíceis, como a tributária.

 

Para além dos instrumentos monetários tradicionais, o Banco Central também pode comprar títulos públicos ou privados, segundo estabelece a PEC do Orçamento de Guerra. O que Goldfajn destaca é que esse recurso só seria utilizado caso fossem exauridas as funções tradicionais, por conta de falta de liquidez ou mal funcionamento do mercado, mas ainda não é possível prever se esse mecanismo será necessário. 

 

Goldfajn ainda destacou que tanto a queda quanto a retomada econômica terão seu ritmo determinado pela pandemia. O economista questiona se o Brasil será capaz de resolver a crise em termos de crescimento. "E se um dia precisar subir os juros? O que acontece com o resto?"

 

 

Data do Conteúdo: 
quarta-feira, 29 Julho, 2020

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