Economia na Mesa: CEOs e economistas debatem futuro do país

Por Bruno Carbinatto

 

Todos os anos, a Liga de Mercado Financeiro realiza uma mesa redonda com grandes nomes do mercado financeiro e especialistas em economia brasileira para debater os rumos do país. Em edições passadas, já passaram pela FEA nomes de peso, como Delfim Netto, José Olympio Pereira, Marcos Lisboa, Pérsio Arida, André Lara Resende, Luiz Carlos Trabuco e Ilan Goldfajn. Em 2019, cinco outros profissionais compartilharam suas perspectivas sobre o país, em um debate que ficou marcado principalmente pelo maior tema econômico do novo governo: a Reforma da Previdência.

Dia dos CEOs

Três grandes CEOs das maiores instituições financeiras do Brasil reunidos para debater o futuro do Brasil: o resultado é um debate liberal, pró-reforma da Previdência, mas ainda com críticas ao governo e visões moderadas sobre o otimismo econômico. Roberto Sallouti, CEO e membro do conselho do Banco BTG Pactual, Sergio Rial, CEO do Banco Santander, e Patrice Etlin, Managing Partner da Advent marcaram presença no primeiro dia do Economia na Mesa. Em uma conversa amigável, os três concordaram: a Reforma da Previdência é necessária e benéfica para o país.

Roberto Sallouti argumentou que o Brasil, desde o Plano Real, têm se livrado de diversos problemas, como o da hiperinflação e da dívida indexada em dólar. “No entanto, nós ainda temos dois problemas: um problema fiscal e um de produtividade. E o problema fiscal só vai ser endereçado se fizermos essa reforma da Previdência”, diz. Após a reforma, ele acredita que o próximo passo necessário é o de liberalizar mais a economia — algo que, para o CEO, parece promissor no discurso do novo governo. Mesmo assim, ele se mostrou preocupado com as outras agendas do Estado, como a de educação e a de costumes, que podem afetar a oportunidade de fazer o país crescer.

Patrice Etlin também concordou com a importância da Reforma, mas ponderou que só ela não é suficiente. “A Previdência começa a fazer efeito só lá para o ano doze. Olhando para essa questão do longo prazo, o que machuca muito agora é a questão da educação”. Ele critica fortemente a agenda do Ministério da Educação no novo governo, considerada bastante conservadora. “Tantos problemas e o MEC discutindo se vai cantar o hino nas escolas. É desastroso. Não estabelece as prioridades do país.”

Sergio Rial lembrou que o Brasil está inserido em um contexto global que apresenta tendências bastante significantes. “A primeira tendência é a desconstrução de modelos de negócios de uma maneira e uma velocidade nunca vistas antes”, explica. Ele lembra que até mesmo setores mais conservadores, como o bancário, automobilístico e de varejo já estão passando por profundas mudanças devido às mudanças tecnológicas.“A revolução tecnológica é muito mais que a criação de tecnologia em s. É ela se tornar barata, acessível e equalizar todos no planeta para competir entre si”, explica.

Outra tendência mundial citada por Rial, é a influência do risco político na economia. O caso do Brexit — referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Européia — é exemplo disso. Segundo o CEO, as pessoas votaram sem ter consciência reais dos impactos econômicos que o processo viria a ter. “O mercado ainda está aprendendo a precificar esse risco político”, diz.

Dia dos economistas

“Por que a economia não melhora?”. Essa é a “pergunta de um milhão de dólares” que os economistas Zeina Latif e Samuel Pessôa tentaram responder no segundo dia do Economia na Mesa. Zeina é doutora em Economia pela FEAUSP e economista-chefe da XP Investimentos, e Samuel é pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro, sócio e economista-chefe da gestora Reliance em São Paulo e colunista do jornal Folha de S. Paulo.

Um dos motivos para a lenta recuperação, segundo Zeina, é que, na verdade, a crise ainda tem resquícios. “A grave recessão que tivemos ainda não foi totalmente superada, o que faz o setor produtivo muito fragilizado, principalmente as médias empresas que não tem acesso ao mercado de capitais”, argumenta.

Outro lado, mais preocupante, é que o potencial de crescimento do Brasil está muito baixo. Os motivos? “Tremenda má alocação de recursos no passado — investiu-se no lugar errado —, muito invencionismo estatal, que prejudicou a produtividade, e também um problema seríssimo de capital humano: nossos jovens não sabem matemática e não têm formação”, avalia Zeina.

Samuel também concorda, e acrescenta que, apesar de não parecer, a crise de agora é mais grave e mais extensa que aquela vivida pelo país na década de 90, inclusive em termos de crescimento de PIB nominal. Para ele, a crise está associada a uma escolha de formulação de política pública, que priorizou uma intervenção estatal, aumento de impostos, gasto público em um sistema que almejava ser de bem-estar social, de uma forma desregulada que resultou na queda de investimento. “A característica mais marcante dessa crise é que o investimento privado caiu 32% do PIB, e não vamos superar essa crise se o investimento não volta”.

Data do Conteúdo: 
terça-feira, 26 Março, 2019

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