Covid-19: desafios para o suprimento de respiradores artificiais

 

Profa. Adriana Marotti de Mello

Prof. Alvair Silveira Torres Jr.

(Departamento de Administração - FEAUSP)

 

Quem estuda gestão de operações, sabe que um dos maiores desafios está justamente em se planejar a capacidade de uma operação, ou seja, como organizar os recursos de operação para atender a uma demanda futura, e muitas vezes incerta. E a previsão de demanda é um dado fundamental para o planejamento de recursos de produção, que significa responder às questões: Quanto devo produzir? Quando devo produzir? Como obter os insumos necessários? Quando devo pedir esses insumos?

No atual cenário, com o rápido crescimento dos casos de COVID-19 no Brasil, esse desafio de planejar a capacidade de atendimento é ainda mais crítico. O Ministério da Saúde afirmou em entrevista coletiva em 24/03 que o Brasil está relativamente bem atendido quanto a vagas em UTI. [1] Novas unidades de atendimento estão sendo construídas em esquema de emergência, como na cidade de São Paulo.

Contudo, não são apenas necessárias vagas em uma UTI. A experiência na China e na Itália mostra que a evolução da doença leva à necessidade do uso de respiradores ou ventiladores mecânicos - equipamentos que mantêm a oxigenação quando o pulmão perde sua capacidade respiratória. Baseado em dados da experiência chinesa, publicados no New England Journal of Medicine, estima-se que cerca de 6% dos pacientes hospitalizados com a COVID-19 necessitem do uso desses equipamentos[2].

Dados do Ministério da Saúde apontam que existem no país cerca de 61 mil respiradores/ventiladores em uso (sendo que 43 mil estão na rede pública do SUS). Boa parte desses recursos  já estão sendo utilizados em pacientes graves já em tratamento. O governo anunciou (sem detalhar planos, contudo) a compra de 20.000 desses aparelhos. Para ter uma melhor visão sobre o problema a ser enfrentado, vamos fazer um breve exercício de previsão de demanda a seguir:

Com base em dados extraídos da curva de ascensão dos casos no Brasil, disponibilizada por colegas pesquisadores da plataforma OBSERVATÓRIO COVID-19 BR[3], no último dia 21/03, eram contabilizados 1.128  casos em todo país. No dia anterior eram 904, uma sexta-feira, dia em que algumas autoridades públicas anunciaram medidas de isolamento social.

A progressão de casos na última semana  mostrava crescimento de aproximadamente 25% ao dia. Se esta taxa permanecer estável, com nenhuma medida de achatamento da progressão ou, se não houvesse crescimento - cenário pouco provável na ausência de medidas restritivas -  em 30 dias, a partir daquela data, a previsão seria de termos aproximadamente 55.000 casos graves, necessitando de respirador.

Ora, diante de uma capacidade instalada de 61.000, estaríamos no limite e obviamente já faltando em alguma localidade, uma vez que além da quantidade há desigualdades na  distribuição em um país continental. Não consideramos aqui a dinâmica de renovação dos ocupantes dos leitos com pacientes curados ou entrando em óbito,  uma vez que o período de previsão é curto, de 30 dias, diante uma doença que exige até 21 dias de uso de respiradores. 

Mais recentemente, os dados do Observatório  apontam para uma taxa de progressão de quase 20% ao dia, para os próximos 5 dias. Não se pode ainda assegurar que tal redução se deva às medidas de isolamento que têm sido adotadas após o dia 20 de março e o fim de semana subsequente, mas o fato é que voltando ao exercício de previsão, podemos verificar o grande impacto que uma pequena redução na taxa de progressão diária provoca na demanda.

Em um cenário um pouco mais otimista, considerando o crescimento em taxa 19.7% ao dia e de forma estável para os próximos 30 dias, necessitaríamos de 40.000 ventiladores na última semana de abril, uma redução de 28% na demanda. Por outro lado, em um cenário mais pessimista, por exemplo, dobrando os casos a cada 3 dias com uma taxa de 33% ao dia, em somente 21 dias alcançaríamos o limite de 60.000 casos e, com mais uma semana, 28 dias, a demanda alcançaria catastróficos 400 mil casos graves sem nenhuma condição de capacidade de atendimento (vide gráfico abaixo):

Gráfico: Evolução dos casos e possíveis cenários de evolução de casos graves da COVID-19

Se ainda considerarmos que ainda existirá demanda por respiradores devido a outros problemas de saúde, percebe-se um gargalo crítico em relação a esse equipamento no curto prazo. Em resumo, vide o quadro abaixo:

Número de respiradores disponíveis (SUS + Privados)61.000
Respiradores anunciados pelo governo20.000
Taxa Ocupação média atual dos respiradoresEntre 50-80%
Demanda estimada para COVID-19 em final abril (cenário otimista)40.000

Demanda estimada para COVI-19 em final de abril

(cenário pessimista, sem isolamento social)

400.000

O Governo Federal já está fazendo apropriações desses equipamentos junto a fabricantes e importadores, com base na lei 13.979, de 20/02/20. Secretarias Estaduais e Municipais tentam fazer o mesmo. Fabricantes nacionais e importadores não estão conseguindo suprir a crescente demanda.

Vários atores da sociedade, em diferentes países, estão anunciando projetos para tentar suprir esses respiradores, críticos para a recuperação dos afetados pelo COVID-19. Empresas como Ford, GM e Tesla já anunciaram que pretendem fabricar os equipamentos. Seria apenas uma questão de obter recursos humanos e financeiros, certo? A resposta é não !!! Infelizmente, aumentar rapidamente a produção de equipamentos complexos em tão pouco tempo, na escala que será requerida, nem sempre é possível. Mesmo em um cenário hipotético de recursos financeiros ilimitados, há uma série de obstáculos a serem contornados, como:

-  Projeto de produto desenvolvido e detalhado - com detalhamento de todos os componentes necessários no caso de novos equipamentos que estão sendo desenvolvidos por grupos de pesquisadores e empresas voluntárias.


-  Se o equipamento já é homologado, no caso de uma nova linha de produção para ampliar a capacidade produtiva, é preciso assegurar que o processo e os componentes alcançaram o padrão de homologação. Testes para assegurar que o equipamento funciona perfeitamente em regime de 24X7 são necessários. Um equipamento deste não pode dar defeito na operação.  


-  Necessidade de se obter as peças e materiais necessários para montagem dos componentes - são válvulas, motores e circuitos eletrônicos. Esses componentes são fabricados por diferentes fornecedores que estão atendendo a governos e hospitais privados de todo mundo. Mesmo que haja disponibilidade de capacidade nesses fornecedores, há um tempo necessário para fabricação e entrega dos componentes - muitos deles são importados, o que alonga os prazos de entrega.


-  Montagem e teste dos equipamentos: há a necessidade de desenvolver processo de montagem. Mesmo em empresas que possuem experiência em um determinado tipo de produto, com funcionários experientes, quando um novo produto inicia a produção, há uma curva de aprendizado que levaria, na melhor das hipóteses, semanas até que a capacidade seja plena, e a qualidade do produto final seja a requerida para o uso - o produto não pode apresentar falhas, sob pena de por em risco a vida dos doentes.


-  Por fim há ainda a questão logística de movimentação de componentes entre fábricas e a remessa e instalação dos equipamentos em seus destinatários que também demanda tempo.

 

Diante de tantas ações que podem e devem ser simplificadas e agilizadas, mas não eliminadas, sob pena de produzir um equipamento ineficiente e portanto danoso, torna-se fundamental ganhar tempo para aumentar a capacidade produtiva dos ventiladores.

Portanto, os próximos dias e semanas são críticos. Iniciativas que aumentem a capacidade de produção de equipamentos de ventilação são absolutamente benvindas, assim como o desenvolvimento de soluções alternativas - como o compartilhamento de ventiladores, e uso de equipamentos mais simples para casos menos complexos. Nós, professores do Departamento de Administração da FEAUSP, nos colocamos à disposição para auxiliar a acelerar o ciclo de desenvolvimento e manufatura dessas iniciativas. Contudo, é nosso dever indicar que esse esforço não será possível de ser bem sucedido se a demanda continuar a aumentar sem controle algum. É fundamental aliar a estratégia de isolamento ao diagnóstico preciso dos casos.

A experiência da Itália, que relaxou as medidas de isolamento social bem no momento em que a curva de casos começava a crescer,  demonstra que o aumento rápido do número de casos leva ao colapso dos sistemas de saúde, uma vez que não é possível aumentar a capacidade de atendimento - em termos de recursos humanos e de equipamentos como os respiradores - na mesma velocidade do crescimento.

Como responder a esse desafio?

Reforçamos a necessidade de “achatar a curva” do crescimento de casos através das medidas de isolamento social e confinamento, conjugada com testes de diagnóstico e isolamento dos casos conhecidos. Só através da desaceleração no crescimento dos casos seria possível ter tempo suficiente para aumentar a capacidade de produção dos equipamentos (e outros insumos) críticos para o tratamento dos doentes. A experiência na Alemanha, indica que esse é o caminho a seguir. Os esforços devem estar direcionados, prioritariamente, para a detecção e isolamento dos casos. Reduzir a demanda, em primeiro lugar.

Negar as evidências apresentadas por dados é adotar um caminho leviano, que arrisca a vida de milhares de cidadãos.

 

[1] https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/brasil-esta-preparado-par...

[2] Fonte: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2002032

[3] https://covid19br.github.io

 

 

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 6 Abril, 2020

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