A contribuição da academia na questão do desmatamento

Por Cacilda Luna

 

A polêmica em torno da divulgação dos números do desmatamento na Amazônia Legal, que provocou a troca de comando no Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), órgão vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, lançou luz sobre a questão ambiental e sobre as políticas do novo governo para a preservação da floresta amazônica e de combate ao aquecimento global.

Autor dos livros “A Gestão da Amazônia” e “Pioneirismo e Sustentabilidade na Amazônia”, e organizador da revista Dossiê Bioma Amazônia, o professor Jacques Marcovitch, do departamento de Administração da FEAUSP, é um estudioso em sustentabilidade ambiental e nas políticas de implantação da Convenção do Clima, com ênfase na redução dos gases do efeito estufa na atmosfera.

Segundo ele, a principal prioridade hoje é disseminar a ideia de que é possível se desenvolver e aumentar a produção agrícola para alimentar as 7 bilhões de pessoas no planeta sem precisar desmatar as florestas. “Defender a floresta, dizer que ela é importante, isso todo mundo já sabe. Mas o que está se argumentando no Brasil, e em alguns lugares do mundo, é que para poder alimentar toda a população em crescimento no mundo é necessário destruir florestas para produzir alimentos. Isso é uma ideia falsa”.

Jacques Marcovitch afirmou que a preservação do meio ambiente e a produção de alimentos “são complementares e não conflitantes”. Essa foi a principal conclusão de uma discussão promovida no dia 14 de agosto, com especialistas da Esalq-USP, Inpe, Faculdade de Direito da USP e da própria FEA (foto). Organizado por Marcovitch, responsável pela disciplina Governança Ambiental, o encontro foi o primeiro a debater se o Brasil conseguirá, e em que condições, cumprir sua meta assumida no âmbito do Acordo de Paris de reflorestar 12 milhões de hectares de florestas até 2030.

De acordo com o professor, esses encontros servirão como subsídio para a 25ª Conferência do Clima (COP25), que acontecerá em dezembro próximo, em Santiago (Chile). “A nossa ideia é identificar grupos de pesquisas na USP que estão trabalhando a questão da implementação da CND, documento que registra os compromissos e contribuições do país para o acordo do clima. Pretendemos trazê-los para essa discussão com a seguinte pergunta: quais as pré-condições para o Brasil cumprir com as contribuições assumidas e quais as recomendações que devem ser feitas?”.

​Agricultura sustentável

Professor do departamento de Ciências Florestais da Esalq, Pedro Brancalion acredita ser viável cumprir a meta de regenerar 12 milhões de hectares de áreas de florestas até 2030, mas que isso necessariamente não resolverá o problema climático. Além de integrar o grupo de trabalho técnico-científico do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica (Pacto), Brancalion é especialista na recuperação de ecossistemas. Suas pesquisas visam desenvolver conhecimento e tecnologia para manejar e restaurar florestas nativas tropicais de forma economicamente viável e com inclusão social.

Formado em engenharia agronômica, Pedro Brancalion disse que existe muito espaço no Brasil para se aumentar a produção agropecuária. “Hoje, o Brasil tem passado por um processo de reorganização do espaço territorial, de reorganização da agricultura, com a liberação de áreas marginais para a expansão de florestas jovens. Se aumentarmos em 50% a produtividade dos pastos, podemos liberar 80 milhões de hectares de área. Dá para dobrar nossa produção agrícola e expandir a área de florestas nativas”.

O docente apontou como a raiz do debate sobre o desmatamento -- que provocou atritos entre o governo e setores ambientais -- a “visão do desenvolvimento”: “Atualmente, existe uma visão de que precisamos desmatar para desenvolver, mas na verdade não precisamos desmatar. Como as pessoas não entendem de agricultura, compram argumentos baratos e rasos sobre desenvolvimento”.

Apesar de acreditar ser possível recuperar 12 milhões de hectares até 2030, como consequência de um processo de reorganização do espaço agrícola, Pedro Brancalion entende que isso não resolverá a questão climática. Isso porque estaremos trocando florestas antigas por florestas jovens. Segundo ele, leva cerca de 30 anos para se recuperar o estoque de carbono de uma floresta madura.

“A CND do Brasil é importante porque, a princípio, ela pode apoiar políticas públicas numa área estratégica para o país, mas ela só vai fazer sentido se vier acompanhada de um combate ao desmatamento. A gente precisa trabalhar com as duas áreas. O aumento da cobertura florestal de novas florestas só faz sentido num contexto em que nós seguramos a expansão do desmatamento”, defendeu o professor da Esalq.
 

Monitoramento: centro da polêmica

 

Após questionar os dados do desmatamento na Amazônia, que culminou com a demissão do diretor do Inpe, Ricardo Galvão, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, anunciou a mudança no sistema de monitoramento que emite alertas sobre áreas desmatadas. O principal foco da crítica foi o sistema Deter (Detecção de Desmatamento em Tempo Real), que teria registrado uma “sobreposição de áreas” as quais, segundo Salles, teriam sido “computadas duas vezes”.

O Deter verifica o desmatamento em áreas maiores que 3 hectares. O novo sistema em cogitação (Imagens Planet), um sistema americano privado, é capaz de obter imagens com apenas 3 metros de resolução e sua frequência é diária. Esse sistema ajudaria os fiscais do Ibama a localizar e coibir, em tempo real, as atividades ilegais. Nas palavras do ministro, um sistema mais “ágil e adequado”.

O pesquisador do Inpe e coordenador do Centro de Ciências do Sistema da Terra, professor Jean Ometto, apontou inconsistências no argumento do ministro. A seu ver, a sobreposição de imagens não define dupla contagem. “O que pode acontecer é uma área não ser quantificada num determinado período, porque o céu estava nublado, e ser identificada no período seguinte. Isso é plenamente possível”. Sobre a questão da resolução, ele acha que o Prodes, outro sistema utilizado que detecta o desmatamento a partir de 1 hectare, já seria suficiente pois as extrações de madeira dificilmente acontecem em áreas pequenas.

Professor do departamento de Economia da FEA, especializado em economia do meio ambiente, Ariaster Chimeli (foto à direita) acha que qualquer sistema que melhore o monitoramento da floresta amazônica será bem-vindo. “Na minha opinião tudo que vier para melhorar a qualidade de produção da informação é bem-vindo, vai contribuir para melhorar o que a gente tem, que já é de boa qualidade”.  No entanto, ele questiona de que forma os dados serão divulgados. “Se for uma coisa transparente, com a qual a comunidade científica fique confortável, vem a somar”.

Chimeli tem notado um aumento na utilização de dados mais refinados em pesquisas relacionadas ao desmatamento. Segundo o docente, isso melhora o cruzamento de dados com outras dimensões físicas e socioeconômicas, ajudando a identificar fenômenos que tenham relação -- seja de causa ou de efeito -- com o desmatamento.

Uma relação evidenciada do desmatamento é com o crescimento de casos de malária. O tema foi explorado no trabalho de conclusão de curso (TCC) de Luiza Martins Karpavicius, que se formou recentemente em economia pela FEA. Sob orientação do professor Ariaster Chimeli, Luiza encontrou evidências robustas de que o desmatamento contribui para o aumento da doença.

Usando dados do mundo real e ferramentas da econometria, ela investigou se uma política pública de combate à extração de mogno, implementada pelo governo em 2009, na Amazônia, estava relacionada à baixa nos casos de malária. Na maioria dos cenários, a incidência de malária por 100 mil habitantes caiu pela metade. Nesse caso, o plano de monitoramento do desmatamento trouxe um benefício indireto, que foi a redução da taxa de malária.
 

Aumento da violência

 

Em outro estudo, realizado em conjunto com o professor da Columbia University Rodrigo Soares, o professor Ariaster Chimeli relacionou o aumento do desmatamento com o crescimento da violência na Amazônia. A proibição do mercado de mogno pelo governo tinha o objetivo de proteger a espécie, mas o resultado foi o inverso: houve um aumento do mercado ilegal. Em consequência disso, as taxas de homicídios nos municípios onde o mogno cresce naturalmente subiram significativamente em relação aos demais municípios da região.

“O Ibama cancelou 85% das licenças de extração de mogno em 1999, todas no Pará. Em 2001, o país decidiu proibir totalmente o mercado. Nesse período de proibição, notamos um aumento do desmatamento, da extração de mogno e também da criminalidade. Nos lugares onde o mogno ocorre naturalmente aumentou muito a violência comparado aos outros lugares que não tinham mogno”, revelou o docente, lamentando que sem recursos para o monitoramento, a política pública de proteção da espécie acaba tornando-se “um tiro no pé”.

Outra evidência encontrada foi a de que aumentou a exportação do mogno depois da proibição. Observou-se um crescimento gigantesco no volume do item “outras espécies tropicais”, coincidentemente após o fim do mercado do mogno. “Por cerca de 10 anos, o volume de exportação de ‘outras espécies tropicais’ era praticamente zero. Assim que o mogno foi proibido, ela pulou para 3.600% em um mês, e permaneceu lá em cima. Ou seja, a relação com o mogno é evidente”, concluiu Ariaster Chimeli.


 

Data do Conteúdo: 
quinta-feira, 29 Agosto, 2019

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